AMANDA MALLMANN – Encontro com a bruxa [conto]
AMANDA MALLMANN – Encontro com a bruxa [conto]

AMANDA MALLMANN – Encontro com a bruxa [conto]

Naquela noite sombria, o medo me causava calafrios no peito, a vontade de desistir, de voltar para casa, tentava me seduzir. Mesmo aterrorizada decidi enfrentar o que precisava, me entreguei ao ritual de corpo e alma. Fechei meus olhos e esperei pelo pior, mas incrivelmente nada acontecia. Eu tentava e tentava me entregar, mas nem uma sombra aparecia. Estava plena, aparentemente bem, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse passado por noites sem dormir, dias sem comer e com os temores da infecção em meu corpo.

 De repente, ao abrir meus olhos, ali estava ela, a bruxa, sentada em minha frente, olhando fixamente para mim. Aqueles olhos verdes e intensos me intimidavam, a força transmitida por eles me arrepiava e ao mesmo tempo, o carinho e a ternura me confortavam. Me permiti abrir-me, deixar-me tocar. Ela foi penetrando em minha alma, trazendo à tona minhas emoções, tocando em meu corpo com delicadeza e brandura. A cada palavra proferida, eu me despia do que não me servia mais, limpava minha mente, meu coração. Quando mais me entregava, mais sentia algo agindo em meu interior, algo querendo vir para fora… e… de repente, veio. Eram quatro ou cinco demônios, eles queriam muito sair, dominar, tomar conta, eram assustadores, com rostos bizarros, dentes postos, bocas abertas, querendo devorar tudo. Cada um saía por uma porta diferente, em lados opostos, mas não iam muito adiante. Era como se eu olhasse para um tabuleiro com peças designadas sobre ele, quase como um pentagrama. Percebi então que quem estava no domínio era eu e eles apenas tentavam me assustar. Nesse momento resolvi arriscar e dei total abertura, disse:

– Saiam, se soltem, façam o que quiserem, não tenho mais medo, eu liberto vocês.

 Assim então, eles recuaram percebendo minha autoridade e não tiveram coragem de me enfrentar, preferiram ficar acuados e obedientes na entrada de cada porta, apenas de cabeça baixa, sem sair, só esperando qualquer ordem a mais.

Mesmo em um processo difícil, querendo jogar tudo para fora, entendi que não adianta querer arrancar de dentro de mim tudo que me incomoda, preciso aprender a lidar, a domar. Não existe nada que seja totalmente ruim, nossos demônios se bem educados podem tornarem-se nossos aliados.

 Já sem força, deitei-me, pois não aguentava mais a vibração do meu corpo. A bruxa me observava em todo esse processo, me deixando enfrentar sozinha, me fazendo forte, mas em nenhum momento me abandonando. Ao perceber que eu não dava da conta da força que surgia dentro de mim ela veio em meu auxílio, soprou ao meu ouvido: “Não lute contra a vibração, deixe ela agir em seu corpo”. Comecei a sentir que iria morrer mais uma vez, a força toda foi me dominando, foi aumentando, e a morte foi vindo. Logo, tudo foi diminuindo, a luz foi se apagando e eu fui me entregando àquela sombra. Morri! E, em um suspiro voltei. Mais leve, mais calma, mais preparada para a próxima batalha.


Amanda Mallmann

Amanda Mallmann é natural de União da Vitória no Paraná, filha de pai professor de língua portuguesa e literatura e língua estrangeira inglesa e mãe costureira, passou sua infância e parte da adolescência em Blumenau e reside atualmente em Porto União no estado de Santa Catarina. Formada em Licenciatura em Artes Visuais e com Especialização em Educação Inclusiva atua como professora de arte e produções artísticas de pinturas em tela e desenhos. Costuma observar sua vida como um livro, escrevendo e ilustrando cada capítulo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *