Sentadas à mesa da sala de estar, próximo do alvorecer de um novo dia, uma senhora já com avançada idade e uma jovem moça conversam enquanto bordam e tomam chá. Sobre a mesa de madeira, o novelo de lã emaranhado faz as vezes de decoração, combinando com as finas xícaras de porcelana. A jovem tem à sua frente papel e caneta e a senhora dispõe sobre seu colo um novelo de lã, uma grossa agulha e uma belíssima peça bordada com linhas cor de rosa. Ao fundo, vindo do forro da casa, é possível escutar alguns distantes ruídos – um problema com pequenos roedores bastante comum que acometia a vizinhança, típico daquele tipo de construção dos chalés antigos – mas nada que atrapalhasse a prosa.
– Queres mais um cadinho de chá?, pergunta a senhora. Ela não precisa esperar pela resposta da jovem para saber que esta irá aceitar. De pronto, afasta a cadeira para se levantar, movimento que gera um atrito desagradável entre os pés da cadeira e o velho assoalho de madeira do piso da sala. Precisa reforçar os pezinhos de feltro, diz para si mesma mais uma vez. Coloca a água para esquentar na chaleira de metal: pega a chaleira, abre a torneira da pia, enche a chaleira com água, acende a boca do fogão com um fósforo — sempre a boca de baixo e da direita, que de tanto gastar já não acende sozinha e por isso o fósforo. Enquanto espera a água ferver, voltam a conversar.
A jovem moça pega uma folha em branco e escreve no centro do topo da página, em letras grandes e legíveis: “na sala de estar”.
– Esse feitiço do qual a senhora tanto fala, é verdade que ele funciona?
– Sim, minha filha, claro que funciona. Por que não testas por ti mesma?
– É que eu queria saber… queria saber se dá pra fazer ele ao contrário?
– Como assim, ao contrário?
– Assim, se ao invés de usar ele para o próprio bem, alguém poderia tentar utilizá-lo para causar o mal em outra pessoa…
A água ferve. A velha senhora pega de dentro de um pote um punhado de folhas de chá e deposita-os dentro da chaleira com água.
– Você não quer mexer com essas coisas, menina. Os objetos e as palavras não foram criados para serem amaldiçoados.
Em passos lentos, conforme é permitido apenas aos corpos que carregam em si muitíssimas décadas de vida, a senhora aproxima-se da mesa carregando a chaleira e a coloca próximo às xícaras. Puxa a cadeira e senta-se novamente, deixando exalar um longo e profundo suspiro de cansaço. Arrasta a cadeira para perto da mesa e aguarda em silêncio um par de minutos. Pega com a mão esquerda a delicada xícara de porcelana e despeja nela o chá recém curtido. Um par de folhas menores acaba sendo servido junto. Serve-se também de chá na outra xícara.
– Escute bem, pois, minha menina. Vou contar essa história uma única vez. E tu, trates de anotar tudo que eu disser, pois não irei repeti-la.
Há muitos e muitos anos atrás havia uma jovem mulher, assim, mais ou menos da tua idade.
Certa vez, a jovem conheceu um moço e, por este moço, apaixonou-se. Tiago era o nome dele. Nome de santo, veja só. Minha mãe, Deus a tenha, costumava dizer: faça o que tiver de fazer, se abeste de quem quiser se abestar, mas nunca nessa vida, nunquinha, jamais, invente de mexer com homem que leva graça de Santo. É coisa séria, não é de se brincar não. E se por um acaso for de acontecer, melhor deixar de lado e ir procurar alguém daqui, com os pés fincados na terra e não com a cabeça enfiada no céu.
Mas a jovem não deu jeito de controlar. A paixão lhe trombou forte, veio assim feito terremoto, redemoinho, furacão, onda grande arrastando tudo junto ao mesmo tempo e quando se deu por conta estava emburacada até os bugalhos de amor brasa chama fogo ardência tudo misturado sem querer saber de mais nada e por onde andasse quem a visse sabia que dali em diante ela só haveria era de querer uma coisa nessa vida: Tiago, Tiago, Tiago.
E com ele tudo queria: queria ser mulher, namorada, esposa, amante, mãe. Queria também ser amiga, companheira, amor eterno. Queria cuidar, zelar, amortecer, admirar e ser admirada. Queria viver junto, felizes para sempre, consumir o tédio dos dias, cozinhar para ele, descascar batatas ao seu lado. Criar cabritos e galinhas, adotar um cãozinho caramelo de patas curtas e chamá-lo de Chimia. Com ele também queria três filhas, uma casa com quintal na beira da praia, viajar o mundo, escalar cordilheiras, cruzar o Atlântico, chorar de emoção ao adentrar a Capela Sistina pela primeira vez, enraivecer-se com o quão pequena e débil é a estátua da Pietà. Com ele queria visitar as Pirâmides e o Taj Mahal e todas as outras maravilhas do mundo, queria andar de trem, aprender a dirigir, percorrer todos os caminhos até Compostela, rezar mil e um pais nossos e outras novecentas noventa e nove ave-marias, ir em centro de umbanda, visitar um museu em Nova Iorque e se emocionar ao ver as obras de arte penduradas na parede, dançar forró coladinho e comer pasteizinhos de belém recém saídos do forno.
Você não pode desejar tudo isso, lhe disseram. Não é assim que o amor funciona.
— Mas eu quero, repetia a moça, obstinada, incansável.
O castigo vem cedo para aqueles que esperam demais. Ninguém pode ter tudo: é assim que o jogo funciona. E querer mais do que se pode irá levá-la à loucura.
— Comigo vai ser diferente. Eu quero tudo. E eu vou ter tudo.
Sabendo que seu destino havia de ser dificultoso, a jovem decidiu buscar um auxílio. Sabia que se necessário fosse travaria uma guerra contra o tempo, mas também era sagaz o suficiente para saber que não deveria fazer isso de mãos vazias.
Na primeira noite de lua nova foi até a cartomante da cidade e lhe contou da situação. Explicou ponto por ponto, abriu seu coração, falou de Tiago, dos seus olhos corpo cabelos costas e sorriso, listou todos os seus desejos. Ressaltou a gravidade dos seus sentimentos e que estava decidida a fazer o que fosse necessário para ter tudo aquilo que deseja e merecia.
— Este lugar que você está prestes a entrar é muito perigoso. É um lugar do qual não se pode voltar. Não há espaço para arrependimentos nem segundas chances. Quem vai, não volta. É também um lugar que poderá te levar à ruína e à desgraça. Por isso eu preciso ter certeza que não resta mais nenhuma dúvida. Eu preciso ter certeza que você tem certeza.
— Eu tenho certeza, disse a moça.
Então, vamos começar.
A jovem e o moço bonito com nome de santo casaram-se no 13 de outubro. Cabe dizer que as celebrações do casório iniciaram-se já na noite anterior, noite de Nossa Senhora Aparecida, feriado de cunho nacional.
Encomendaram para a ceia um cabrito inteiro, o qual foi espetado ao chão em torno de um grande fogo e assado por 24 inteiras horas. À meia-noite da virada da noite do dia 12 para a madrugada do 13, reuniram-se todos em redor do bichano, levantaram os copos cheios e brindaram.
— Ao noivo e à noiva! Que o tempo lhes seja eterno, assim como vosso amor, e que dure o quanto precisar para que se realizem todos os vossos desejos!
Embora a cerimônia oficial que lhes declararia marido e mulher só fosse vir a acontecer dali doze horas (na capela da cidade ao meio dia de 13 de outubro sexta-feira assim como anunciado nos convites), a jovem soube no instante que as palavras foram proferidas: seus destinos tinham sido costurados juntos. Estavam casados.
Escolheram passar a lua de mel na Bahia. Sempre sonhara em ver o mar conhecer as praias as areias brancas a mata tropical as palmeiras que tanto encantaram os primeiros exploradores atracados enfeitiçados pelo Brasil. E se ela assim o queria, sua vontade ele atendia. Acordaram da sua primeira noite como homem e mulher com os olhos absortos na imensidão do azul roxo laranja amarelo, o sol nascendo no infinito do oceano, o atlântico abençoando molhado cada um e todos os santos.
Naquele momento, não tinham ainda a mais remota fagulha de consciência do que estava por vir e talvez, talvez por isso, aquele fora o único momento em que teriam sido verdadeiramente felizes.
De volta à sua terra natal, decidiram fincar pés e começar a criar raízes em uma casa de madeira com um vasto e esplendoroso quintal no pé da montanha, entre a lagoa e a praia. No próprio terreno da propriedade também havia um pequeno lago, o qual devido à pouca manutenção recebida ao longo dos anos havia começado a minguar, deixando crescer inço e matagal nas suas margens e até fazendo uma espécie de lodo onde antes devia ter sido água cristalina. Mas não deixaram esse fato lhes aborrecer, assim como não se importaram com as madeiras velhas apodrecidas nos fundos e no porão, que daria lugar à lavanderia, ou o barulho de roedores crepitando no forro que precisava de reparos. Estavam convictos que com alguns pequenos investimentos a casa, o quintal e o lago ficariam novinhos em folha, prontos para serem plenamente usufruídos abrigando a mais bela família da cidade. E, no mais, havia também um balanço e uma goleira no quintal, os quais precisavam apenas de dois ou três retoques e estariam prontos para tardes de incansáveis brincadeiras e aventuras com as meninas que em breve iriam chegar para multiplicar e fazer prosperar ainda mais a felicidade da família.
A esta altura, a jovem moça já tinha ciência de que estava grávida e que carregava no ventre uma pequena e promissora vida. A chamaria de Felícia, em homenagem ao sentimento de felicidade que a arrebatara desde que pressentiu pela primeira vez a existência da sua primeira filha. Conseguia lembrar do momento exato em que aconteceu, em uma das noites da lua de mel, as pernas dela entrelaçadas nas dele, os corpos colados, o cheiro salgado do mar, seu corpo liso e forte e lindo, os cabelos grossos desgrenhados, a boca voraz mamando em seu peito enquanto ela em total e completo torpor se deixava ser preenchida pelo gozo dele.
Optara por esperar um pouco antes de revelar ao marido as boas novas sobre a gravidez. Queria primeiro garantir que as reformas da casa estivessem um pouco mais avançadas, o canteiro para a horta arado, as paredes dos quartos pintadas. Além disso, também queria garantir que fosse especial. Não se pode anunciar a chegada de um filho assim como quem avisa que o café está passado ou que almoço está na mesa. Já tinha planejado tudo. Aguardaria mais algumas semanas e quando a barriga estivesse começando a querer apontar, prepararia um bolo e em uma manhã de domingo perguntaria de qual cor ele achava que deveriam pintar o quarto do bebê. Uma pergunta anunciação, um sorriso no rosto, conseguia fechar os olhos e visualizar claramente as feições de alegria no rosto do marido quando entendesse do que se tratava a situação, já conseguia até mesmo sentir seus braços a envolvendo um abraço apertado e a levantando do chão. Usaria um vestido de flores, aquele meio rosa meio laranja que ele tanto gosta.
Nada poderia ter pegado a jovem mais desprevenida quanto o que ocorreu num final de tarde qualquer. Ao regressar da feira, no horário habitual de sempre, entrar em casa e largar as sacolas sobre a mesa da cozinha, a jovem surpreendeu-se com a visão do marido largado na poltrona da sala, a garrafa de uísque que havia ganhado de presente de casamento aberta quase pela metade, um copo de vidro qualquer com um resto da bebida ao lado. Enxergou no semblante do marido uma expressão que nunca tinha visto antes. O olhar cansado, olheiras profundas, o rosto pálido e vazio. A mais crua imagem da derrota. Sentiu um tremor na boca do estômago, um arrepio lhe arranhando a alma.
— Tiago, meu amor, o que aconteceu?
O homem não conseguia nem ao menos levantar o rosto para encarar a mulher. Ainda cabisbaixo, com as mãos sobre as pernas, começou a balbuciar uma série de coisas que pareciam não fazer o menor sentido. Disse que a amava, sim, a amava muito, que não planejara nada daquilo, se lhe pedisse não saberia explicar nem como nem porque aconteceu, mas o certo era que tinha acontecido e agora não era possível voltar atrás, que ela iria odiá-lo, sim iria odiá-lo, que ele seria botado para fora de casa e ele entenderia, afinal de contas era tudo culpa dele, como pode ser tão irresponsável, como pode?
Agora um pavor começava a crescer e crescer e ganhar tamanho dentro da jovem, a ansiedade criando dezenas de possibilidades em sua mente. Mas o que aconteceu, afinal de contas, o que aconteceu? Ele matara alguém? Se envolveu em apostas? Perdeu o emprego? Que ele dissesse logo pois ela não tinha os nervos para ficar bancando a adivinha a essa altura da vida.
— Eu conheci alguém. Conheci uma pessoa, uma mulher. Estou apaixonado por ela. Não sei como aconteceu, juro que não sei, não foi algo que pedi ou que fui atrás. Uma moça no trabalho, sim. Recém-contratada, precisa muito desta oportunidade. Sim, era recíproco. Sim, nos beijamos. Sim, dormimos juntos, fizemos amor. Não, não foi apenas uma vez. Quantas? Algumas. Não, não faz muito tempo, coisa de um mês, talvez um pouco mais. Acontece que foi o suficiente. Ela está grávida, do meu filho. Sim, tenho certeza que é meu. Vou ser pai. Acreditamos que seja um menino. Se chamará Miguel.
A jovem não colocou Tiago para fora de casa, nem naquela noite nem nas próximas. Esta não era uma opção. Perder Tiago não era uma opção. Por isso, engoliu calada a raiva, o ódio, o desprezo, a tristeza, a amargura, a frustração, o ciúme e todos esses gostos amargos que insistiam em ficar ruminando e lhe dando azia. Chorou quieta por sete dias e sete noites, abafando os soluços e deixando as almofadas absorverem as lágrimas. No oitavo dia decidiu ir atrás da cartomante. Ela já havia lhe ajudado uma vez, saberia como resolver esse inesperado empecilho agora.
— Você não deveria mexer com esse tipo de coisa, menina bonita. Não faz bem lutar contra o destino, querer mudar o rumo do curso da vida. O recado está claro, só não enxerga quem não quer ver: este homem não é seu, ele é de outra. Por mais que você queira, por mais que você deseje, não se pode ter tudo nessa vida. Tem coisas que estão guardadas pra nós, e tem coisas que precisamos aceitar que são como são e deixar ir. Não dá pra resolver tudo com a força do desejo, não é assim que funciona o jogo.
Mas a jovem não queria saber desse papo de destino e impossibilidades. Ela queria Tiago, agora ainda mais e mais forte do que quando o conhecera. Não era só paixão que alimentava seu desejo de querer, era também amor, amor por ele, pelo homem que era, pelo marido que poderia vir a ser ao seu lado. Já tinha imaginado a vida inteira que levaria ao lado dele, era tarde demais para voltar atrás e aceitar a derrota.
— Eu quero tudo com ele. E com ele hei de tudo ter.
— Então que assim seja. Mas saiba, você foi avisada.
A cartomante abriu os armários da sua saleta, como que procurando por algo, afastou utensílios dos mais variados materiais até que no fundo de uma cristaleira encontrou o que procurava. Colocou sobre a mesa duas belíssimas xícaras de porcelana e explicou para a jovem as instruções para executar o referido ritual: ela deveria preparar um chá de folhas de amoreira todas as manhãs – um chá simples, ferver a água, acrescentar as folhas, tampar a chaleira, deixar repousar por alguns minutos, depois coar e servir nas duas xícaras. O mais importante: beberem juntos, todos os dias, sem exceção.
— Lembre-se: é imprescindível que você repita esse mesmo procedimento todos os dias, sem exceção. Se você pular um dia, pode colocar tudo a perder, e todo esse esforço terá sido em vão. Para as primeiras vezes eu vou lhe entregar um pouco de folha de amora, pegamos ali na cozinha antes de você ir embora. Mas para o longo prazo é importante que você tenha uma oferta própria dos insumos, se na sua casa houver espaço talvez você queira plantar uma árvore no seu jardim. Outra coisa: os dois precisam tomar, de preferência juntos. Se você oferecer, ele não irá resistir. O aceite vem junto com o encanto, e este par de chávenas vão atuar para isso. Por fim: cuide delas como se fossem suas filhas. Não deixe as xícaras quebrarem, nem arranhar, nem ficarem sujas por mais tempo que o necessário. Garanta que você sempre as lave e as seque e as deixe guardadas em um local seguro. Estas xícaras, não devem ser usadas para mais nada. Apenas para isso. Estamos entendidas?
A jovem guardou apressada as xícaras e as folhas de amora dentro da bolsa e já ia de saída, a mão na maçaneta, quando a cartomante deixou ainda um último recado.
— Ah, eu já ia esquecendo. Tem mais uma coisa. Ninguém mexe assim com a vida de graça. Tudo tem um preço. Vida se paga com vida. E como eu lhe disse da outra vez: não dá pra se ter tudo. Portanto, pense bem antes de fazer a infusão pela primeira vez. Uma vez iniciado o encanto, não é possível se arrepender e nem voltar atrás. Uma vez iniciado, você deverá ir até o fim, todos os dias de sua vida. Você não falou, mas eu consigo ver, menina. Essa criança que você carrega na barriga, ela não poderá ser protegida. Nem por mim e nem por ninguém. Se você quiser ter o homem somente para si precisará contentar-se em tê-lo somente para si. Ela não vai vingar, e ela vai deixar uma marca. A família de vocês não irá crescer, nem agora nem nunca. Esteje avisada.
Na manhã seguinte a jovem acordou mais cedo e antes do sol aparecer colocou a água para ferver e preparou o chá seguindo minuciosamente as instruções deixadas pela cartomante. Após os primeiros goles, Tiago sorriu em sua direção pela primeira vez desde a fatídica notícia. No decorrer dos dias, seguiu acordando mais cedo e preparando o chá de amor com carinho, como se sua vida dependesse da exímia execução desta tarefa. Combinaram que ele seguiria morando na casa até o seu filho Miguel nascer. A jovem aceitou o combinado, mas não sem antes quase morrer de preocupação. Passava noites insone em claro achando que o feitiço não estava funcionando, revirando nos seus pensamentos intrusivos o que poderia estar fazendo de errado. Numa destas noites, levantou-se da cama com dores abdominais horrendas. Tinha vontade de gritar até estourar a garganta, de arrancar as tripas para fora. Foi ao banheiro que ficava do lado de fora da casa. De cócoras dentro da cabaninha de taipa, sentiu o alívio acompanhando do vazio abismal quando o feto rompeu do meio de suas pernas direto para a terra emaranhando em um amontoado de sangue e vísceras. Agarrou-se nele e chorou o que pode. Depois, fez um buraco no chão de terra com as próprias mãos e cobriu-o com gravetos e folhas secas. Entoou uma reza para que o anjo da guarda a levasse para o outro plano em paz. Banhou-se no lago, lavou as roupas imundas com sabão de glicerina e óleo de lavanda para perfumar, vestiu uma camisola e, antes do sol nascer, colocou a água para ferver na chaleira de metal.
Quando se aproximava da décima lua, Tiago recebeu a triste notícia do hospital anunciando que sua amante tinha sido internada na noite anterior em trabalho de parto, mas que tinham ocorrido uma série de complicações imprevistas e difíceis de explicar. O bebê nascera morto e a mãe, infelizmente, não aguentou. Ambos seriam enterrados no mesmo caixão. O velório estava marcado para o meio-dia, na mesma capela da cidade em que, um ano antes, havia celebrado seu casamento.
Concentrada nas palavras da velha senhora, a jovem moça anota cada fragmento da história no papel. Letra por letra, linha por linha, uma vírgula e um ponto de vez em quando. Tanto é dito em tão pouco tempo que não sobra muito espaço para colocar questões ou fazer algum comentário. Já a velha senhora, por sua vez, profere cada palavra com muita calma e paciência, no ritmo lento e consistente possível somente àqueles que entoaram o mesmo canto milhares de vezes e, por isso, ficaram com os sons gravados no céu da boca. Enquanto prossegue relatando os acontecimentos que já sabe de cor, a velha segura com as mãos trêmulas o tecido e a agulha, cada ponto-trama fazendo a peça de bordado mais bela.
— Sabe, minha querida, eu queria poder te dizer que encerramos essa história por aqui. Que a jovem e o moço, depois desse incidente, recolheram-se na sua confortável casa com quintal e viveram felizes para sempre na agradável companhia um do outro. Ou então, minha querida, queria ter a liberdade de deixar o resto para outro dia. Queria poder te dizer assim: “Acho que por hoje é só, bela, estou tão cansada, minhas mãos doem tanto. Quem sabe não retornas amanhã? Prometo te esperar com um bolinho recém feito, um café passado, e uma nata fresca para acompanhar”.
— Eu sei. Mas a gente precisa continuar, não é mesmo?
— Sim, a gente precisa continuar.
O tempo passou e o casal foi aos poucos se acostumando à rotina dos dias similares. Vivendo uma segunda-feira depois da outra, com a certeza de que tinham a vida inteira pela frente para realizarem tudo aquilo que almejavam. Aos poucos finalizaram as reformas na casa, removeram o matagal de dentro do lago (que voltou a ser habitado por algumas carpas), consertaram as vigas de madeira que apodreciam pela casa. Limparam o forro e o telhado e organizaram cada cantinho com todo o asseio e cuidado que os jovens ingênuos e sonhadores são capazes. A jovem moça providenciou um par de mudas de amoreira já de um bom tamanho e plantou elas no quintal ao lado da casa. Cuidou e regou as duas como se fossem suas filhas, para que nunca lhe faltassem folhas. O chá, preparado todas as manhãs junto com o raiar do dia, seguiu sendo um ritual inquestionável do casal: independente de onde estivessem ou para que canto do mundo viajassem, a jovem sempre levava consigo o par de xícaras e o saquinho de folhas de amora para fazer o preparo. E, exatamente como dissera a cartomante, o marido nunca sequer questionou. Bastava sentir o aroma da bebida recém feita que fazia questão de sorver até o último gole, de boníssimo grado. E, cabe acrescentar aqui, por mais que seguissem tentando todos os meses, dedicando-se com exímia afeição aos prazeres da carne, o fato é que também exatamente como dissera a cartomante, a mulher nunca mais engravidou.
Nos anos que se passaram, realizaram vários dos seus sonhos: viajaram para diferentes lugares do mundo onde se falavam as mais esquisitas línguas, visitaram museus e sítios históricos importantes, frequentaram jantares e festas convidados por indivíduos muito bem apessoados da alta sociedade, comeram em restaurantes renomados da alta gastronomia mundial, compraram um cachorro com pedigree, andaram de mãos dadas por parques e feiras, etc etc etc. Enfim, viveram, ao que pode ser considerado pela maioria das pessoas, uma vida respeitosa, plena e feliz.
No entanto, alguma coisa lhes faltava. Algo mais profundo, sobre o qual evitavam pensar e que não ousavam dar nome. Havia em ambos, homem e mulher, um enorme vazio. Bem no meio de suas almas, um buraco que parecia impossível de preencher. E a consciência da existência dessa falta ressoava ao redor do casal por onde quer que andassem. Estava como que sempre ali, colada entre eles, assombrando cada jantar, cada passeio, cada festa. Impedindo que eles fossem felizes de verdade. Deixando um retrogosto amargo ao final de cada noite, preenchendo o silêncio do que não era dito em voz alta naqueles instantes noturnos logo antes de pegarem no sono. Eventualmente, o vazio crescia tanto mas tanto e ficava tão profundo que incomodava fisicamente. Por incontáveis noites a jovem revirou-se na cama entre lençóis, inquieta, sem conseguir dormir, a cabeça a milhão, fervilhando de ideias, hipóteses, frustrações. Mas… e se? E se isso, e se aquilo, e se ela tivesse feito diferente? E assim seguiram até que, em uma manhã de outono, um pouco antes da Páscoa, a moça acordou um pouco mais tarde, exausta de uma destas noites perturbadoras e, ao virar para o lado, encontrou o leito vazio, sem vestígios do seu marido.
Tomada pelo desespero, levantou-se da cama de um salto.
— Tiago! Tiago, onde você está? Meu amor, meu querido, minha vida! Tiago, cadê você?
Assim, feito louca, saiu gritando pelo homem casa a fora. Procurou ele por tudo que era canto, nos corredores, na cozinha, na sala de estar. Subiu a escadinha que levava ao sótão e voltou de lá toda empoeirada, porém sem sinal do marido. A cada chamado de seu nome sem resposta um tremor ainda maior subia pela sua espinha. E se estivesse morto? Ou, pior ainda, e se tivesse decidido abandoná-la? Cobriu-se com o primeiro xale que encontrou e saiu para o quintal, ainda chamando pelo seu nome, agora ainda mais alto, sem escrúpulos, sem a menor vergonha ou receio que alguém da vizinhança pudesse escutá-la. Só queria encontrá-lo, ter certeza que ele não havia desaparecido por uma força maior do destino, que estava bem e que ainda permanecia casado com ela.
A jovem foi encontrá-lo alguns minutos depois, mas minutos que para ela passaram como se fossem uma eternidade. Estava nos fundos do terreno da casa, após o lago, enfiado entre uns arbustos, próxima da cerca que dividia as propriedades.
— Tiago! Pelo amor de Deus Nosso Senhor! O que você está fazendo enfiado aí? Você não ouviu eu te chamando? Estou há horas gritando pelo seu nome e nem sinal teu! Nem ao menos para avisar, deixar um bilhete, pelo amor de Nossa Senhora, você sabe da minha condição e dos meus nervos! Meu amor, eu achei que você estivesse morto, sequestrado, assassinado, partido deste para um outro plano. O que houve? O que você tem aí com você?
A jovem se aproximou do marido e avistou, jogado na grama diante dos seus pés, o corpo inerte do cachorro.
— Chimia! — exclamou ela, levando as mãos ao rosto, os olhos involuntariamente já cheios de lágrima. — Nosso querido Chimia! Pobrezinho! O que aconteceu com ele, Tiago? Não fica parado aí, homem, corre! Pega o carro, precisamos levá-lo ao veterinário.
— Não adianta, mulher. Não há o que se possa fazer. O cão está morto.
A comoção naquele dia foi imensa. Tiveram de recolher o corpo do cachorro, discutiram se deveriam ou não chamar um veterinário para examinar o cadáver, afinal de contas a causa mortis não estava evidente. Teria sido envenenado por alguma alma má intencionada? Algum vizinho desgostoso com os latidos ou com uma possível ameaça às suas galinhas? Mas logo o Chimia, não, não era possível, Chimia não faria mal a uma mosca. Como pode ter acontecido, tão jovem, não tinha completado nem dois anos ainda. Talvez fosse sim importante chamar alguém entendido para examinar, afinal de contas o cachorro lhes foi vendido como um cão de pedrigree, e pagaram não foi barato não, veio com um certificado impresso em papel timbrado e tudo. Se a morte tivesse ocorrido por morte morrida precisavam saber para ir atrás do vendedor e solicitar o dinheiro de volta. Deveriam ter algum tipo de garantia, não? Contra esse tipo de incidente de morte por causa natural. Talvez tenha sido um ataque do coração ou alguma doença congênita, eles mereciam uma explicação. A jovem tentou todas as argumentações lógicas possíveis, chegou a implorar ao marido que, se ele não quisesse acompanhá-la, pelo menos a deixasse pegar a camionete e levar o cão até a agropecuária mais próxima, não importava que ela não soubesse dirigir, daria um jeito, alguém lá haveria de ajudá-la a decifrar o caso. Mas Tiago estava irredutível. Não e não. Não seria aberta nenhuma sindicância e não queria pessoas desconhecidas se intrometendo na sua vida, na sua casa, na morte do seu cachorro. A natureza era assim, a vida era assim, era assim que as coisas funcionavam. Até parecia que a mulher tinha algum problema na cabeça, que não era capaz de entender que as coisas procedem desse jeito, as estações do ano mudam, as folhas caem no outono, o tempo passa, as pessoas envelhecem, os bichos morrem. Não tinha o que se discutir e nem o que se resolver. Era o que era, e pronto. Agora tinham de abrir uma cova e enterrar o bichinho, antes que começasse a chover e esfriar ainda mais, não era justo deixar ele assim o corpinho rijo passando mais uma noite ao relento, pode ser que algum outro animal venha o destroce. Pois assim trataram de abrir um buraco no chão, perto dos arbustos mesmo onde viveu os últimos instantes de sua vida, e ali foi enterrado, não sem antes provocar uma maré de lágrimas e um escandaloso choro na mulher. O homem, por sua vez, conteve-se. Apenas deu duas palminhas sobre o monte de terra após completar o árduo serviço do velório do cãozinho, e disse:
— Está feito.
Neste momento já estava ficando escuro do lado de fora, a noite vinha caindo e uma garoa fina e chata começou a molhar o casal. Entraram em casa úmidos, desconfortáveis, peguentos e com frio. Ocuparam-se no restante de horas do dia com as tarefas mais mundanas possíveis, passando uma a uma de forma automática, com o corpo e a alma cobertos pelo luto. Tomaram banho, comeram um pedaço de pão velho com queijo, se aqueceram um pouco em redor do fogão a lenha, tomaram alguns copos de grapa e, quando já não conseguiam segurar a cabeça de tanto sono e moleza, arrastaram-se para a cama onde despencaram duros como dois sacos de batatas e adormeceram.
Às 4h12 da madrugada a jovem acordou de um sobressalto, os olhos arregalados: com toda a confusão da morte do cão, esquecera completamente. E assim, a imaculada sequência de dias, meses e anos de uma vida satisfatoriamente feliz costurada pelo ritual do chá de amora havia sido quebrada.
A partir daquele momento o que se seguiu foram dias e noites de imensa tristeza. O homem estava inconsolável. Na manhã seguinte ao enterro do cachorro, a jovem fez questão de preparar o dobro de chá, na vã esperança de compensar o dia esquecido. Mas via-se logo de cara que seu esforço era totalmente inútil. Mesmo com as xícaras cheias e a mesa cuidadosamente posta, Tiago não quis nem ao menos provar. Bebericou um par de goles após muita insistência da mulher, a qual só faltou jogar-se no chão ajoelhada aos seus pés e implorasse que ele bebesse o maldito chá. Não entendeu o porque de tanto escândalo, mas já não tinha forças para contra-argumentar. Estava cansado, tudo nele doía, por dentro e por fora. Queria sumir daquela casa, sumir daquela vida, queria sumir da face da Terra. A mulher viu os dias passando e cada vez mais difícil manter a coesão da rotina, a casa arrumada, o ritual mandatório. Tiago saía para o trabalho cada dia mais cedo e retornava cada vez mais tarde. Quando chegava em casa, tirava chapéu e casaco e botinas aos tropeços, exalando o fedor do álcool e cambaleando tanto que mal conseguia parar de pé. Mantinha apenas o equilíbrio necessário para conseguir jogar-se na sua poltrona, abrir a garrafa de whisky e servir-se de um, dois, três dedos, às vezes servia o copo até a borda, e sem trocar nem uma palavra com a esposa, ali ficava, bebendo, enrolando o fumo e olhando pela janela até adormecer e ser carregado para a cama. Às vezes, acabava por dormir ali mesmo, sentado na poltrona, e do jeito que dormia acordava, calçava as botinas, o casaco, o chapéu e ia trabalhar. Pouco a pouco a situação foi ficando cada vez mais preocupante, a jovem tinha receio que ele seria demitido a qualquer instante, se é que isso ainda não acontecera. Não seria uma surpresa se descobrisse que ele estava fingindo ir trabalhar quando na verdade passava os dias no bolicho, a beber e ouvir lorotas de outros bêbados. Tinha receio que um dia acordaria e a situação seria irreversível, talvez ele não voltasse para casa, talvez engravidasse outra mulher. Não, ela não passaria por todo aquele sofrimento outra vez. Essa não era a vida que ela sonhara, não era o marido que desejava, não era a vida que tinha almejado ter.
— Você não cumpriu com o nosso combinado. — Foram as primeiras palavras ditas pela cartomante assim que a jovem entrou na sua sala. — Você foi avisada, deveriam beber juntos o chá todos os dias, sem exceção. Não, não me venha com suas desculpas e justificativas, não é para mim que você deve explicações. Não sou eu a senhora do destino, não sou eu quem decido ou julgo quem merece redenção ou não. Eu não tenho controle sobre absolutamente nada. Entenda isso minha querida, por favor, entenda isso de uma vez por todas: tem certas coisas que fogem da nossa alçada, que não há nada que possamos fazer. Viver assim, viver é sofrer, viver é aprender a aceitar. Se essa desgraça recaiu sobre vocês logo agora, talvez seja um prenúncio? Talvez seja a vida lhe dando uma segunda chance, lhe mandando um aviso, minha querida, uma oportunidade de mudar de ideia. De ir embora. Vá viver a sua vida, minha jovem, esse homem ele não foi, não é, e nunca será seu. Todas as vozes sussurram isso ao meu ouvido desde o dia um, mas você insiste em não escutar. Por que, por quê? O que mais precisa acontecer para que você entenda? Para que você aceite?
— Eu quero um filho.
— Um filho? Você não pode ter um filho, você sabia disso quando veio aqui da outra vez, você foi avisada, você fez a sua escolha.
— Não, não precisa ser assim. Eu entendo… eu sei do que tive de abrir mão. Eu quero uma criança. Do jeito que vier, eu faço o que for preciso ser feito, mas eu quero dar pra ele uma criança. Eu preciso de uma criança.
— Minha querida, você não está entendendo…
— Você é que não está entendendo. Eu quero uma criança, e uma criança eu vou ter. Você pode escolher me ajudar ou então eu vou ir atrás dela sozinha. Mas eu vou conseguir, seja por bem, ou por mal.
Contrariada, a cartomante abriu uma enorme gaveta e, após alguns segundos vasculhando no escuro, tirou de lá uma pequena toalha de algodão, dois novelos de lã e uma agulha de bordado. Colocou os objetos sobre a mesa, de frente para a jovem. Explicou que ela deveria primeiro escolher qual linha usar: rosa, para menina ou azul para menino. Após iniciar não seria mais possível mudar de ideia. Com a agulha ela deveria bordar, todos os dias um pouquinho, o nome da criança, letra por letra, ao redor de toda a extensão do pano. A criança chegaria em breve, algumas semanas ou talvez até mesmo dias após ela começar o bordado. Quando a criança chegasse, ela deveria ser bem recebida, independentemente de qualquer coisa. A jovem escutou tudo com atenção, seu coração enchendo-se novamente de esperança. Escolheu o novelo de lã rosa e guardou cuidadosamente na bolsa cada um dos itens. Quando já estava prestes a ir embora, a cartomante lhe fez um último chamado:
–Mas lembre-se, e lembre-se bem, pois quando as coisas desmoronaram não venha você correndo chorosa aos meus pés implorando por socorro. Tudo tem um preço. Você está conjurando uma vida. E uma vida, minha senhora, uma vida custa muito, muito caro.
A bebê foi trazida por um senhor que certo dia passou em frente à casa vendendo leite.
– Deixaram na minha carroça no último pernoite enquanto eu dormia na hospedagem ali debaixo perto da vila não posso levar comigo pra casa dona não posso não já tenho outros seis filhos pra criar seis bocas pra dar de comer e imagina a minha patroa o que vai ser de mim dona se eu chegar lá em casa com o neném de outra no colo como que explica uma coisa dessas pra sua mulher imagina você imagina o seu marido chegando em casa um dia carregando o filho de outra no colo a senhora ia enlouquecer madame ia ficar doida de pedra e ia querer atirar homi marido filho mamadeira tudo junto pro quinto dos inferno
A jovem recebeu a pequenina menina em seu colo, aninhou-a como se tivesse saído do seu próprio ventre e no primeiro instante em que pode estar a sós com sua cria, com toda a naturalidade do seu ser mulher, entregou o peito para que dele ela pudesse sorver a seiva da vida. No entanto, apesar do grandiosíssimo gesto de amor daquela recém-nascida mãe, seguiu alimentando a criança com o leite das cabras e papinha de fruta amassada. O marido, ao chegar em casa e deparar-se com a estranheza daquela cena, questionou a esposa que explicou exatamente o ocorrido, palavra por palavra dita pelo leiteiro. Tiago não se convenceu de total naquilo que seus ouvidos escutaram, mas a felicidade que lhe incendiava por dentro ao ver sua mulher aninhando em seu colo nu aquela criança era tão imensa que achou melhor aceitar o presente que a vida lhe dera sem colocar maiores questões.
A cada dia a bebê crescia e ficava mais forte. Em poucas semanas já tinha ganhado uma aparência mais rechonchuda e saudável. O marido, pela primeira vez em muito tempo, deixou de lado as cachaças e os cigarros. A mulher andava de um lado para o outro dentro da casa cantarolando de tanta alegria. Sentia-se repleta de energia e gratidão por poder passar as manhãs e tardes entoando canções de ninar e embalando a neném embrulhada como um pacotinho entre seus braços. E por um tempo viveram assim, felizes e saltitantes. Até que em um belo dia, enquanto Tiago subia e descia do sótão para arrumar o espaço na esperança de que ele viesse a se tornar em um dia não tão distante o quarto da filha, o empenhado marido acabou por escorregar de um degrau alto, cair da escada e quebrar a coluna, ficando totalmente paralisado da cintura para baixo. Enquanto a esposa, aos berros, saía na rua clamando por ajuda, a pequena neném desvencilhava-se das suas trouxinhas e engrandecia o mundo com o seu primeiro engatinhar.
O que se seguiu a partir daí foram dias de derrocada na direção do mais absoluto inferno. Aos poucos, o um dia tão belo, encantador, admirável, promissor, sedutor Tiago, foi definhando e definhando até reduzir-se a um verme decrépito e inútil. Seu corpo, totalmente deformado, perdeu a totalidade dos movimentos em uma velocidade extraordinária, e sua mente, acompanhando o ritmo da degeneração, virou um mero apêndice gelatinoso da sua cabeça. Em poucos meses o homem já não dava conta de andar, perdeu totalmente o controle motor dos membros superiores, não conseguia falar e eventualmente apresentava dificuldades inclusive para deglutir. Por um tempo, conseguiu manter o asseio e a higiene básica com a ajuda incessante da mulher, cuja vida agora resumia-se a atender e acompanhar o marido de sol a sol para que nenhuma das suas necessidades básicas deixassem de ser cumpridas. No entanto, de uns tempos para cá, havia perdido até mesmo o mínimo de controle sobre seus instintos intestinais, o que passou a gerar situações cada vez mais repulsivas e desagradáveis para sua adorável esposa. Enquanto isso, a bebê crescia a cada dia mais forte e vigorosa, cheia de vida e saúde.
Em uma ocasião específica, a jovem senhora… Quer dizer, agora já não tão jovem assim. Talvez até mais para velha do que para jovem… Em uma ocasião específica, a velha senhora havia recém finalizado de trocar os lençois da cama do casal: com extremo esmero estendeu cada lençol; trocou as fronhas dos travesseiros, mas não sem antes afofar carinhosamente cada um para despender os ácaros e amaciar o enxerto; alisou os cantos da cama com a palma das mãos, como se massageasse o colchão; e, por fim, dispôs a belíssima manta no sobre leito, presente que ganharam ainda da época do enxoval de casamento. Quando estava com o quarto reluzindo de tão limpo e organizado, foi até a lavanderia para colocar de molho os lençois trocados e, ao retornar, encontrou marido deitado sobre a cama, coberto em xixi e cocô. De alguma forma ele havia caído nos lençois limpos e, talvez com o susto da queda, tenha perdido o controle sobre seus instintos e acabou por mijar-se e defecar-se por inteiro. Dado que o seu sistema gastrointestinal já não vinha funcionando da maneira mais adequada, cabe mencionar que sua merda assemelhava-se muito mais a um aspecto líquido, algo como uma disenteria, e fedia um odor tão asqueroso que pesteava a casa inteira. A bebê, por exemplo, apesar de se encontrar em outro cômodo no momento em que a mãe deparou-se com a referida cena, sentiu o cheiro nojento tomando conta do ambiente e não conseguiu segurar dentro de si o enjoo galopante, e acabou por vomitar toda a papinha de mamão com leite na sua própria roupa e no tapete da sala de estar.
Nesta mesma noite, a mulher saiu de casa enrolada em uma toalha velha, portando apenas camisola e chinelos. Caminhou no escuro, em passos apressados, bateu na porta da cartomante e irrompeu na sala da bruxa aos prantos: Não aguentava mais. Não aguentava nada disso, estava por um fio. Não era isso que ela havia pedido, não era isso que ela desejara, não era isso.
A cartomante evitou dizer que havia avisado, mas ela havia avisado. Sabia também que a mulher não iria ceder, que ela não iria embora dali sem uma alternativa, sem uma palavra de esperança, um último alento que fosse.
–Tem uma última coisa que nós podemos tentar, se você tiver disposta.
Sim, ela estava disposta. Estava disposta ao que fosse para sair daquele inferno. Aquilo não era vida. Aquilo não era a sua vida.
Voltou para casa quase da mesma maneira que saíra, mas dessa vez carregava agarrado contra o peito, sob a toalha, algumas folhas de papel e uma caneta. Ao retornar, já quase amanhecendo, revisou cada um dos cômodos para certificar-se de que estavam vazios, conferiu que a porta para o sótão estava bem trancada, colocou água na chaleira para ferver, sentou-se à mesa, pegou o papel e a caneta e pôs-se a escrever:
Na sala de estar
Sentadas à mesa da sala de estar, próximo do alvorecer de um novo dia, uma senhora já com avançada idade e uma jovem moça conversam enquanto bordam e tomam chá. Sobre a mesa de madeira, o novelo de lã emaranhado faz as vezes de decoração, combinando com as finas xícaras de porcelana. A jovem tem à sua frente papel e caneta e a senhora dispõe sobre seu colo a agulha e uma belíssima peça bordada com grossas linhas cor de rosa. Ao fundo, vindo do forro da casa, é possível escutar alguns distantes ruídos – um problema com pequenos roedores bastante comum que acometia a vizinhança, típico daquele tipo de construção dos chalés antigos – mas nada que atrapalhasse a prosa.
– Queres mais um cadinho de chá?, pergunta a senhora.

Luciana Brandão nasceu em 1993 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. É formada em Relações Internacionais e Mestra em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publicou seu primeiro livro, o “eu não sei falar”, de forma independente em 2016. Entre suas principais obras publicadas desde então destacam-se os livros de poemas “Monstruário” (Editora Riacho) e “Ecótono” (Caravana), bem como o infantil “Pin – Um Guarda-chuva Diferente” (Editora Urutau) e, mais recentemente, o “Flora e Fauna” (Editora Libertinagem), seu primeiro livro de contos. Compartilha suas escritas cotidianamente no medium e no Instagram como @lcbrandao.

![LUCIANA BRANDÃO – Na sala de estar [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/01/frontal1-scaled.jpeg)