NAVALHAR É PRECISO – ALISSON DE SOUZA – [entrevista]
NAVALHAR É PRECISO – ALISSON DE SOUZA – [entrevista]

NAVALHAR É PRECISO – ALISSON DE SOUZA – [entrevista]

REVISTA NAVALHISTA – A abertura de Augustina (Nauta, 2025) tem uma cadência que já anuncia tensão, ambiguidade e sensibilidade. Nos conte o que esse início precisava anunciar? O que você queria que a primeira página dissesse, ou escondesse, sobre a protagonista e o mundo que ela habita?

ALISSON DE SOUZA – O primeiro capítulo é o de instalação da personagem. Ali, foi o jeito de mostrar Augustina, a sua formação como pessoa, suas crenças, ou descrenças, seus valores e suas fontes culturais e filosóficas. Mas também é o capítulo que dá a tônica do romance, no qual o fluxo ocorre praticamente dentro da personagem, enquanto o exterior constantemente, não obstante ter uma ou outra ação, fica em estado de suspensão, para Augustina se expandir em consciência, ainda que na leitura de um narrador externo.

R. N. – Os anos 1990 deixam marcas profundas na formação de uma geração: instabilidade econômica, fragmentação urbana, reinvenção de comportamentos. Foi o período de transição democrática, crise econômica e efervescência cultural. Por que esse recorte temporal foi decisivo para formar Augustina? Em que medida essa década molda sua subjetividade, suas escolhas e as contradições que nos foram apresentadas?

A. S. – Eu fui estudante nos anos 90. Passei em Direito na UESC em 1996 e me formei em janeiro de 2000. Quis retratar não só aquela época, que eu tenho muito viva na memória, mas quis também trazer aquele legado de fé na vida que a gente tinha que ter, pois o país não tinha grandes oportunidades, o abismo entre os que podiam (ter um carro, comprar uma casa) e os que não podiam era quase intransponível, a não ser pelo estudo. E, mesmo assim, o estudo era um ato de fé, pois a gente não tinha a menor garantia de que aquilo iria dar certo. Olha o romance, e veja que Augustina está nesse caminho, lutando por uma carreira, mas vivendo um dia de cada vez, não havia nada de concreto no futuro dela. No meio disso tudo, era aquela velha frase de Ferreira Gullar guiando a gente: “a arte existe porque a vida não basta.” E quando falo guiando a gente, coloco Augustina como uma espécie de alterego da minha geração.  Daí, a música, as HQs, os livros, o cinema, e aquela época tinha muita coisa boa. Na sala da minha casa, tem quadros com fotos de Angeli, Laerte, Bukowski, Gabo, etc. Não é exatamente como a sala de Augustina, mas algumas referências se assemelham.

R. N. – Certos romances conversam com o espaço, outros respiram por meio dele. É fato que o cenário cuja ação acontece é um personagem, ora acolhendo, ora tensionando a vida da protagonista. Como você articulou esse espaço de identidade na escrita? Esclareça pra gente como influencia e de onde vem? É espelho ou antagonista? força motriz, ou campo de batalha?

A. S. – Digamos que eu vivi esse mormaço e outras coisas que Augustina viveu. Morei em Itabuna, no sul da Bahia, até o final de 2020. A cidade emergia da crise do cacau, a pobreza estava pelos cantos, os estudantes universitários correndo atrás de uma luz, e aquele caos de Augustina eu vivi. Mas, o cenário ali não foi posto no romance como pano de fundo. Ele termina fazendo parte da trama, cada detalhe ali tem vida própria no que a história desenrola, desde o primeiro momento, com o calor que não deixa o sono voltar e permite a Augustina se apresentar, até o mais dramático, onde a escuridão retorna com outra força, arrastando todo o peso do delírio humano, ou da irrupção do fantástico… mas quem pode afirmar o que foi aquilo?

R. N. – A narrativa do romance Augustina (Nauta,2025) mistura tempo presente e lampejos de memória recusando uma linearidade clássica. Fale sobre o critério da escolha de qual passado de Augustina deveria ser narrado e o que deveria permanecer? que orientou sua escolha?

A. S. – Confesso que não houve um planejamento prévio quanto ao que eu iria escrever, salvo os três últimos capítulos. Nos anteriores, onde o fluxo de memória foi se infiltrando no cotidiano de Augustina, sentei à frente no notebook e comecei a escrever. Terminei por fazê-lo em frases longas com fugas para as mais variadas coisas, digressões, lembranças. Eu escrevi aquilo sem ter a menor medida do que estava fazendo, mas julgava que tinha que colocar tudo aquilo ali. Meu medo era que os leitores se perdessem no labirinto, mas parece que isso não ocorreu. Cheguei a ouvir que Augustina brincava com essa noção de tempo, que ia e voltava, mas que o texto fluía. Ainda bem!

R. N. – Percebe-se que a voz narrativa em Augustina combina observação, lirismo sutil e a oralidade que se aproxima da crônica. Lembrando-nos do estilo do escritor Gyula Krúdy, com o narrador misturando observação jornalística e testemunho. Quais foram suas referências literárias para construir essa voz narrativa que observa, interpreta e, ao mesmo tempo, participa emocionalmente da história?

A. S. – Eu não conheço a obra de Gyula. O que posso dizer é que eu gosto desse pensamento cíclico, que emaranha assuntos, e eu já o pude perceber em algumas obras isso. Me lembro da mulher de Fabiano falando sempre de Tomás da Bolandeira, e eu me admirava de como Graça tinha falado isso o tempo todo no romance e não havia cansado a gente. Também, em Capitães da areia, um dos meninos, salvo engano João Grande, vira matador nas terras cacaueiras do sul da Bahia. Num dado episódio, por causa de uma fala, ele percebe a gravidade do seu ofício de matador, o que ele fazia meio sem pensar. Nesse momento, ele começa a pensar em círculo, e a fazer digressões e julgamentos sobre si mesmo. Ali, o romance deixa de ser de ações, mas a escrita não se torna cansativa. Desses círculos que se dão concentricamente nas personagens, mas tangenciando vários pontos, achei que daria pra fazer isso em Augustina, inserindo a essência dela nas frases, nas ações, no cotidiano.

R. N.Sua personagem, Augustina, não cabe em arquétipos fáceis: não é heroína, não é vítima, não é mártir. É alguém que erra, tenta, recua, enfrenta e recomeça. Nos revele como você trabalhou essa humanidade sem ceder à tentação de cair na caricatura, no exemplo moral, no heroísmo artificial e nem na vitimização?

A. S. – Meu medo da personagem ficar caricata foi extremo. Não só ela, mas também tive esse medo sobre suas relações familiares, apesar de ter convivido com gente como Seu Germano e como Dona Emiliana (para mim, aquilo não foi ficção nos anos 90). Mas vamos lá! Augustina tinha que ser emocionalmente fraturada e emocionalmente forte. Não dá pra imaginar isso numa pessoa cheia de valores morais, tampouco numa pessoa que não tivesse alguma consciência de quem ela mesma seria. Por isso, a construção da personagem começa falando do cadáver em Zaratustra (o que para mim é clara alusão à “culpa cristã”), mas mostra uma Augustina que ao menos pretende se virar sozinha na vida, e sabe que isso demanda ter coragem de ser sozinha (ao menos boa parte do tempo). O que ela erra ou acerta não tem a ver com moral social, ou cristã, ou algo que o valha, no seu mundo próprio, ela erra quando sai do caminho que escolheu para viver.

R. N. – O romance é povoado por figuras que poderiam ter saído tanto do cotidiano quanto da cultura urbana dos anos 1990, referência temporal explicita no romance. Tio Ulpiano, a Tia Rita, Seu Durval, Sr. Borges são personagens marginais de afetos provisórios “conhecidos” do nosso dia a dia. Esclareça pra gente o que te levou a construir os personagens do romance com a atmosfera dessa década? E quais referências do caldo cultural dos anos 90 ajudou a esculpir o elenco que circunda Augustina.

A. S. – Ulpiano era o colo sem responsabilidade que Augustina tinha na família. Ele era substancialmente diferente de Seu Germano. Enquanto este havia traçado uma vida equilibrada, economicamente viável e socialmente aceitável para a filha, Tio Ulpiano tinha da sobrinha o que o pai nunca havia tido da filha. Ulpiano adentrava o universo de Augustina, conversava de igual para igual, ali era o afeto despido de moralismos familiares e de hierarquia, era o abraço, o cafuné, o dividir experiências, e Seu Germano era o típico pai dos anos 70, 80, 90, era a fórmula comida na mesa + estudo + roupas + saúde, e nisso muita gente criava filhos desconhecidos em casa. Seu Durval entra na história como a antítese ao chefe de clã que não sabe perdoar. Na correria da vida dele, o neto Tito, mesmo feito em uma festa, trouxe mais significado à sua família, após o falecimento da sua mulher. O contato de Augustina com ele não lhe revela nada disso, mas o narrador traz esses detalhes ao leitor para abrir o leque sobre afeto e família, e isso às vésperas de Augustina ficar sozinha na véspera de Natal. Já Seu Borges teve outra finalidade, revelar que algumas vidas podem ser castradas, mas que todo mundo quer uma rota de fuga. Augustina enfrentou o pai, Seu Borges se acomodou ao que Seu Nicanor determinou. Cada um teve sua história, mas o que aconteceu com Seu Borges na vida não lhe tirou o sonho, a beleza de enxergar o intangível.

R. N. – A trama rejeita uma lógica teleológica e abraça o acaso, as falhas, as interrupções, os caminhos tortuosos da vida. A rota confortável que leva o leitor do ponto A ao ponto B. Por que você optou por essa estrutura que não oferece garantias ao leitor? O que significa, para você, escrever um romance que não entrega fechamento?

A. S. – A vida realmente não tem fechamento exato e com aviso prévio. Ao menos, não o fechamento logicamente esperado. A vida é como a música Roda viva, de Chico Buarque (e aqui eu julgo que de fato ele seja o autor, por causa do vídeo do festival, aquele antigo), mas o fato é que a possibilidade de as coisas mudarem o rumo da noite para o dia existe sempre, apesar da gente sempre achar que está no controle de tudo. Vou acordar, tomar banho, tomar café, ir ao trabalho, etc. Mas tem dia que tudo dá errado, você põe o pé pra fora de casa, e começa a acontecer coisa. É como sentar na praia, no primeiro dia de carnaval, e receber uma ligação de que o tio que a gente gosta morreu. Tem como a gente garantir que isso não irá acontecer? Não tem. Desse ponto de vista, acho que a gente tem mais fé do que razão. A gente sempre espera que a vida faça sentido, e ela não faz. A razão pura nos levaria justamente a enxergar que tudo pode acontecer e que o “inclusive nada” seria justamente a exceção.

R. N. – Toda literatura nasce de uma visão de mundo e de uma teoria do belo, mesmo quando não declarada. E aquilo que o autor acredita ser o coração da arte. Na sua escrita, o que é o “belo”? Onde ele está? Há algum pensamento teórico que dialoga com o modo como você constrói o encanto e a beleza dentro do romance?

A. S. – O belo em Augustina é que ela é humana. Ela tem defeitos, medos, coragens, machucados. A fortaleza que ela mostrou nos primeiros capítulos desaba quando o pai se aproxima dela no hospital. Ela o abraça, se lança sobre, e diz que não dá para viver sem ele. Isso porque ela possui um laço afetivo enorme com o pai, ainda que esse laço não encontre eco na convivência dos dois, que manteve aquela distância do rigor das criações dos filhos consoante sob as regras morais dos anos 70, 80, 90. Mesmo assim, esse abraço não demonstrou fraqueza a ponto de Augustina abandonar o que planejara para sua própria vida. Após o susto, os demônios, o hospital e tudo o mais, ela não volta para Seu Montenegro, ela permanece lá, na Rua 13, em frente ao bar de Gordilho. Ela mudou o eixo do seu pertencimento ao longo dos anos. Seu Montenegro passou a ser apenas a sua cidade natal. A beleza de Augustina, eu acho, reside nisso de acreditar nela mesma, de seguir em frente, ter fé na vida e trilhar o caminho.

R. N. Terminamos com aquele caloroso tapinha nas costas. Agradecemos demais por somar conosco. Conclua falando o que desejar, amigo. Liberdade total. Até uma próxima.

A. S. Essas perguntas da entrevista estavam comigo há um tempo, e eu estava naquele momento de lançamento do romance, e com os primeiros leitores se manifestando. Depois, com os meses passando, eu fui perceber coisas na narrativa sobre as quais minha intencionalidade tinha sido totalmente intuitiva. A intenção do que falar, de como falar, estava ali, e o medo de que aquilo tudo não fizesse sentido também. Com o tempo, e algumas releituras que fiz do meu próprio texto, pude perceber a densidade do que havia escrito e como isso amoldou a forma da narrativa e tudo o que circundava Augustina. Tenho um outro romance fritando na minha cabeça, tenho alguns personagens, nomes, fatos, e a coluna vertebral toda aqui já, mas não comecei a escrevê-lo ainda. Mas sei que a primeira experiência modificou a forma com que eu vou fazer isso. Pretendo continuar a escrever intuitivamente, mas não garanto que será sem enxergar no texto outras singularidades. Acho que meu olhar de leitor também mudou com a escrita publicada, com os retornos dos leitores, com as resenhas sobre a obra. Por fim, não posso deixar de mencionar a importância das editoras independentes para quem está começando, em especial a Editora Nauta e Marcelo Nunes, pela exaustiva dedicação à literatura.


Alisson de Souza

Alisson de Souza, nascido em Itaberaba, Bahia, em 1976, iniciou seu caminho na literatura através de Augustina (2025), seu primeiro romance. Formado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia, traz na sua bagagem os anos de adolescência consumindo a contracultura das revistas de Angeli, Glauco, Laerte e Luiz Gê, a cultura pop dos anos 80 e 90, e gosta na literatura, dentre tanta gente boa, de Marçal Aquino, J.J. Veiga, Jorge Amado, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares.

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