por Mayk Oliveira
poeta e colunista da Revista Navalhista
Do infinito de um momento rápido
Na pressa cotidiana e suas preocupações, o que esperar de um esbarrão dentro do metrô? Os sempre abarrotados trens urbanos guardam surpresas que vão além dos corpos de trabalhadores em correria. Corpos estes atravessados por ruídos institucionais e perfis sociais a cumprir. No entanto, existe um ponto em que o corpo deixa de obedecer em silêncio. Gilles Deleuze chama esse ponto de desejo em movimento. Ao contrário do que parece, não é falta que o move, mas uma força que produz caminhos e recomeços. Em Bom Amar (Urutau, 2025), a escritora Fabiana Grieco descreve esse movimento que se insinua em poemas curtos, abrindo uma narrativa de encontro e sua natureza cíclica.
O livro está organizado em três atos que descrevem um romance em versos que não entrega tudo de uma vez. Os poemas não explicam completamente a relação, os conflitos ou os desejos, mas eles sugerem por detalhes. Fabiana Grieco faz o não dito (imagens incompletas, metáforas não explicadas), criar espaço para o leitor entrar no poema com suas memórias e seus repertórios. Habilmente ela consegue conduzir o leitor a descobrir que todo o sentido mora naquilo que escapa da nomeação completa. O leitor precisa completar e, portanto, fazer parte.
Os poemas nos contam ainda — sim, nos contam — que, apesar de versificados, há uma história de desejos a ser acompanhada. A poeta, por sua vez, nos apresenta um eu lírico mulher, mãe, nomeada como “Ela”, atravessada por uma rotina que organizou seu corpo e seu tempo, que se vê diante do encontro com “Ele”. O que emerge não se resume a simples aproximação entre dois, mas na verdade o desarranjo de uma ordem. Os versos operam como anotações. Em poucas linhas, temos o início, encontro, tensão, clímax e a consequência, ainda que em sentido aberto. As explicações não se alongam pois cedem lugar a ações e estados.
Os poemas alternam os dois o tempo todo criando contraste. O conteúdo dos poemas está baseado na matéria comum do cotidiano (metrô, quarto, sala, beijos, livros, trens) mas à maneira de como as palavras se agrupam dão peso ao que se sente.
Nos versos livres de Bom Amar (Urutau,2025) o desejo insiste na pergunta: posso ainda querer amar? Ainda me pertence essa parte de mim? Ele surge juntamente a dúvida que carrega a lembrança de quem se foi antes de assumir o nome de mãe, como no poema: “Outro alguém: uma mulher/ que ama/ alguém/ que saiu/ de si/ é capaz/ de amar/ outro/ alguém?”. Nesse ponto, a escrita se aproxima do que Deleuze entende como política do desejo: o corpo não se resume a normas que tentam estabilizá-lo, ele é permeado pelo vivido. O corpo fala antes de qualquer definição moral. O desejo acontece. E, nesse intervalo, passa a existir como campo de disputa.
O encontro narrado abre uma fenda nessa estabilização. Um gesto de deslocamento interno reorganiza a percepção de si. “Ele” funciona como gatilho para um retorno ao próprio corpo. A pergunta continua a atravessar o livro como eixo, mas os poemas tateiam respostas que não se fixam. Os poemas vão se construindo como flertes elegantes, que ganham um desfecho sensual em “Capacho”: “ele pisa no tapete/ capacho bordô/ na frente da entrada/ ela escancara/ a porta de madeira/ branca e pesada/ fechada/ há pouco/ trancafiada/ há anos/ e dispara/ entra”.

Temos muito mais sugestão do que descrição. Notem como a força do desejo aparece na cena, no limiar entre dentro e fora, no atravessar da porta. Sabemos e confirmamos que a Grieco constrói nos detalhes. Não são os atos que importam, mas o entorno. Os poemas revelam ainda uma atenção ritualística aos encontros, em destaques como quadros apoiados no chão, uma tatuagem percebida e admirada, almofadas estampadas, porcelanas, um vestido florido. São marcas de presença. São pistas do que ficou. Ela se sente pronta a encarar os seus desejos, como vemos no poema “Se quiser”: “está pronta/ para sair/ por aí/ largar/ arrumar/ fazer/ experimentar/ invadir/ e voltar/ se quiser”.
Cheiros que não se nomeiam, sabores que cruzam o instante, músicas que permanecem no fundo de uma cena são os arranjos de uma memória sensorial que percorre o livro. Talvez, isso justifique o porquê de as epígrafes dos três atos trazerem trechos de canção Fullgás, de Marina Lima e Antônio Cícero. Elas ajudam a sustentar essa atmosfera. Há nelas uma elegância que repercute nos poemas, fazendo desejo composição harmoniosa.
Agora, vale destacar o quanto a gente se envolve na tensão do primeiro desencontro. Os poemas seguem um ritmo e um ritual de quem busca, ainda que vacilante e receoso, se entender. No poema “Coagulação”, versos como “por mensagem/ ela explicou/ ele disse que entendeu” revelam esse instante delicado. O leitor vai torcer, sem dúvida, para que a paz seja reatada. E que paz. Arrebatadora.
Depois desse momento, o eu lírico se encontra voltado para os questionamentos que surgiram na distância. As lembranças dos momentos íntimos passam a ser cotejadas com aquelas pequenas dúvidas que nasceram nas fissuras. Quais são? perguntas não respondidas, gestos pouco confiáveis ou vacilantes. Nascem nesse espaço as rusgas da relação, um atrito que não rompe de imediato, mas desgasta.
Detectam-se, no entanto, pequenos incômodos narrativos aqui e ali nos versos de Bom Amar (Urutau, 2025). No poema “Um quê” aparece a primeira pulga atrás da orelha: “havia algo de/ uma ponta de/ um quê”. Nesse momento ainda não há certeza, mas algo tensiona o fluxo do desejo. A partir daí temos um conjunto de poemas que mostram o estremecimento daquele momento. Eles revelam que, apesar de tudo, há um “mas”. Os sorrisos se tornam difíceis, vão se perdendo, se tornam indefinidos. Surgem lágrimas, apagamentos, e os corpos passam a se desconhecer, se desconhecendo.
Em Bom Amar (Urutau, 2025), o amar retorna ao corpo como desejo. Um ato que recoloca em jogo aquilo que parecia encerrado. E nesse movimento o livro deixa claro que a resposta definitiva pouco importa. O que se faz valorosa é a permanência da pergunta: O que esperar de um esbarrão no metrô? Calhamaços não lidos, bom dia vazios, olhares tímidos, desejos elegantes, cotidianos esperados, desafios inesperados e amores vagos e toda sorte de encontros dessa vida. Fica, no entanto, a certeza de que é bom amar.

Fabiana Grieco é mãe, escritora e professora universitária. Jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC – SP e doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Autora dos livros de poesia “Bom amar” (Editora Urutau, 2025), “Aquela que vejo pelo espelho” (Editora Urutau, 2024) e “Uma mãe melhor do que eu” (Caravana Grupo Editorial, 2023), traduzido para o espanhol. Organizadora da antologia “Um ventre todo seu” (Editora Urutau, 2025). Publicou os livros da Série Universitária “Entrevista jornalística: fontes, estratégias e conteúdo” (Editora Senac São Paulo, 2025), “Linguagens e formatos jornalísticos” (Editora Senac São Paulo, 2025) e “Comunicação na sociedade contemporânea conectada” (Editora Senac São Paulo, 2023). Autora de cinco livros para a infância, entre os quais “Colar de contas” (Editora Jaguatirica, 2019), selecionado pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo para o acervo de escolas e bibliotecas da Rede Municipal de Ensino em 2022.
