double standards
você diz que eu me vitimizo
é mais fácil do que olhar estatísticas
sempre pendendo pro meu lado,
mas eu me vitimizo, é claro
não importa quantas de nós morram
pelas mãos de vocês
quantas de nós sejam estupradas
pelas mãos de vocês
quantas de nós sejam assediadas
pelas mãos de vocês
cada violência que eu sofro
me marca
cada assédio cada não cada violência
cada porta fechada cada olhar descarado
sabe quantas amigas minhas já foram estupradas?
sabe quais são meus maiores medos?
é tão fácil acordar e saber que o mundo todo concorda com você
que o mundo te acolhe e te quer e te protege
ainda que você estupre, mate, assedie, cale, machuque
ainda que você seja um monstro
você pode
você é homem
aborto
vislumbre de um verde
espera quebrada
de que cor será?
a pressão de se querer azul
se viesse ao final de
setembro
um outro ano, quiçá
de que importaria a cor
aquele esquecer,
melhor, não lembrar
não se sabe se conveniente
o gosto de ferro na boca
mas não é tua boca
e não é tua língua
nada te pertence
mas está dentro de você
um brotar sem a chance
de se montar em si
como algo que
sente, pensa, crê
mais flores crescem
e se espalham
e parecem dizer
é fácil
elas
estão adaptadas ao inverno
têm recursos
elas
têm vontade
de se fazer viver
memória insiste em falhar
acessa-se o difícil
parece mais
fácil
azul é vermelho
flores são morte
filhos são dores
nada se sabe
e tudo se diz
a verdade:
remonta o que se pode
das dores que se tem
profundas
o ventre de tantas
em cólicas terríveis
em espasmos de “e se”
mais um dia
me reviro na cama
como uma mulher deve se comportar
para ser considerada digna
se isso é amor
sempre tem um
que vai dizer não é bem assim
ele não vê o sintoma
da patologia antiga
será mesmo que ele não vê?
ele também tem dois olhos que funcionam
como os meus
como os dela
por que ele não diz se não vê?
é pior que uma porrada
queria ficar escondida
me fazer de besta
elas fazem tanto
mas nem assim eles amam
direito
nem assim
over
a rejeição me corta
e eu finjo demência
vejo ela na porta chegando
sei que não tenho pra onde ir
não tenho como correr
pés fincados ao chão
olho ela de cima a baixo
faço pose faço carão faço que não é comigo
mas ela vem até mim
me toca me agarra me puxa
quero que ela não tenha esse poder
por que eu dou a ela esse poder?
mas são tantos encontros nossos
olhares invasivos
visitas íntimas
trocas doloridas
a carência sai debaixo da cama
conversa com ela
argumenta pede suplica
explica
eu farei o que for
e é verdade
eu farei de
tudo
eu faço de tudo
chispa
futuros se formam
por uma fagulha
aquela faísca
não quero me queimar
já me queimei assim antes
trago cicatrizes enormes
você em nuvens
se precipita e afoga
meu terreno
as plantas vão morrer
você não se importa
cada espaço verde
me deixa essa água só me queima mais
ela é ácida ela é ardida ela é errada
e eu sei demais pra me deixar dançar
eu sei demais
Naxos
você não quer ler o que eu escrevo
fico estendendo a mão
esperando que você estenda a tua
esperando que você pegue
as palavras flutuando entre nós
desejando empurrando vislumbrando
tento alcançar
mas está tão longe
você some no horizonte
você é teseu ou dionísio?
vai me raptar me salvar me deixar?
tudo ao mesmo tempo?
seremos inteiros poetas
ou inteiros pela metade?
te dou tanto para que você se ache
me ache me encontre
bem no meio do labirinto
sou parte raposa você sabe
tatuei em mim
e você sabe
sabe
eu sou poeta
antes de ser amante
sou poeta
antes de amar
eu verso
e é caro ser assim
é caro amar assim
minha poesia não me dá muito
ela me cobra
eu rastejo e peço e fujo
ela me acha me pica me sufoca
e eu cuspo o veneno
regurgito partes
você quer me encontrar
onde as luzes se cruzam
e o labirinto se afunila?
você quer me beijar
num instante sagrado
por ver reluzir meus cabelos ou
por admirar meus versos serenos?
drama queen
podia ser
tinha tudo pra ser
inteiro
sinto outro gosto
na ponta da língua
é quase doce
quase
antes caramelava
meus lábios
ao menos o último primeiro beijo
seria seu
seria
estico meu braço
alcanço ausências
o que te afeta?
sou sempre sensível demais
difícil demais pesada demais
rude atacante terrivelmente eu

Gabriela Orichio é poeta e possui seu primeiro livro Ensaios de término (2025), publicado pela editora Patuá. É formada em Letras pela UFRJ e atua enquanto pesquisadora membro do NIELM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura). Reside no Rio de Janeiro com sua família.

