GABRIELA ORICHIO – 7 poemas
GABRIELA ORICHIO – 7 poemas

GABRIELA ORICHIO – 7 poemas

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double standards

 

você diz que eu me vitimizo

é mais fácil do que olhar estatísticas

sempre pendendo pro meu lado,

mas eu me vitimizo, é claro

 

não importa quantas de nós morram

pelas mãos de vocês

quantas de nós sejam estupradas

pelas mãos de vocês

quantas de nós sejam assediadas

pelas mãos de vocês

 

cada violência que eu sofro

me marca

cada assédio cada não cada violência

cada porta fechada cada olhar descarado

 

sabe quantas amigas minhas já foram estupradas?

sabe quais são meus maiores medos?

 

é tão fácil acordar e saber que o mundo todo concorda com você

que o mundo te acolhe e te quer e te protege

ainda que você estupre, mate, assedie, cale, machuque

ainda que você seja um monstro

você pode

 

você é homem

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aborto

 

vislumbre de um verde

espera quebrada

de que cor será?

a pressão de se querer azul

 

se viesse ao final de

setembro

um outro ano, quiçá

de que importaria a cor

 

aquele esquecer,

melhor, não lembrar

não se sabe se conveniente

 

o gosto de ferro na boca

mas não é tua boca

e não é tua língua

nada te pertence

mas está dentro de você

 

um brotar sem a chance

de se montar em si

como algo que

sente, pensa, crê

 

mais flores crescem

e se espalham

e parecem dizer

é fácil

 

elas

estão adaptadas ao inverno

têm recursos

 

elas

têm vontade

de se fazer viver

 

memória insiste em falhar

acessa-se o difícil

parece mais

fácil

 

azul é vermelho

flores são morte

filhos são dores

 

nada se sabe

e tudo se diz

 

a verdade:

remonta o que se pode

das dores que se tem

profundas

 

o ventre de tantas

em cólicas terríveis

em espasmos de “e se”

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mais um dia

 

me reviro na cama

 

como uma mulher deve se comportar

para ser considerada digna

 

se isso é amor

 

sempre tem um

que vai dizer não é bem assim

 

ele não vê o sintoma

da patologia antiga

 

será mesmo que ele não vê?

 

ele também tem dois olhos que funcionam

como os meus

como os dela

 

por que ele não diz se não vê?

 

é pior que uma porrada

queria ficar escondida

me fazer de besta

 

elas fazem tanto

mas nem assim eles amam

direito

 

nem assim

 

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over

 

a rejeição me corta

e eu finjo demência

 

vejo ela na porta chegando

sei que não tenho pra onde ir

não tenho como correr

pés fincados ao chão

 

olho ela de cima a baixo

faço pose faço carão faço que não é comigo

mas ela vem até mim

me toca me agarra me puxa

 

quero que ela não tenha esse poder

 

por que eu dou a ela esse poder?

mas são tantos encontros nossos

olhares invasivos

visitas íntimas

trocas doloridas

 

a carência sai debaixo da cama

conversa com ela

argumenta pede suplica

 

explica

eu farei o que for

e é verdade

eu farei de

tudo

eu faço de tudo

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chispa

 

futuros se formam

por uma fagulha

 

aquela faísca

não quero me queimar

 

já me queimei assim antes

trago cicatrizes enormes

 

você em nuvens

se precipita e afoga

meu terreno

 

as plantas vão morrer

você não se importa

cada espaço verde

 

me deixa essa água só me queima mais

ela é ácida ela é ardida ela é errada

e eu sei demais pra me deixar dançar

 

eu sei demais

 

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Naxos

 

você não quer ler o que eu escrevo

fico estendendo a mão

esperando que você estenda a tua

esperando que você pegue

as palavras flutuando entre nós

desejando empurrando vislumbrando

tento alcançar

mas está tão longe

você some no horizonte

 

você é teseu ou dionísio?

 

vai me raptar me salvar me deixar?

tudo ao mesmo tempo?

seremos inteiros poetas

ou inteiros pela metade?

 

te dou tanto para que você se ache

me ache me encontre

bem no meio do labirinto

 

sou parte raposa você sabe

tatuei em mim

e você sabe

sabe

eu sou poeta

antes de ser amante

sou poeta

antes de amar

eu verso

 

e é caro ser assim

é caro amar assim

minha poesia não me dá muito

ela me cobra

 

eu rastejo e peço e fujo

ela me acha me pica me sufoca

e eu cuspo o veneno

regurgito partes

 

você quer me encontrar

onde as luzes se cruzam

e o labirinto se afunila?

 

você quer me beijar

num instante sagrado

por ver reluzir meus cabelos ou

por admirar meus versos serenos?

 

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drama queen

 

podia ser

tinha tudo pra ser

inteiro

sinto outro gosto

na ponta da língua

é quase doce

quase

antes caramelava

meus lábios

ao menos o último primeiro beijo

seria seu

seria

 

estico meu braço

alcanço ausências

o que te afeta?

sou sempre sensível demais

difícil demais pesada demais

rude atacante terrivelmente eu

 

Gabriela Orichio

Gabriela Orichio é poeta e possui seu primeiro livro Ensaios de término (2025), publicado pela editora Patuá. É formada em Letras pela UFRJ e atua enquanto pesquisadora membro do NIELM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura). Reside no Rio de Janeiro com sua família.

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