por Soraya Viana
professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.
Alva loucura: O evangelho segundo um assassino
Romance de estreia de Julio Pattio, o suspense Branco beato tingido de carmim, (Caravana Grupo Editorial, 2025) contempla questões humanas enquanto adentra uma mente perturbada.
Logo no capítulo inicial, a narração destaca que o protagonista, Ilpo, tem uma forte ligação com a morte e nela se projeta psicologicamente. Num primeiro momento, essa é toda a informação de que dispomos a respeito dele. No capítulo seguinte, descobrimos que Ilpo decidiu escrever suas memórias. Por meio delas, vemos flashes de sua vida e da tendência misantrópica junto aos livros — em particular a Bíblia — pelos quais desenvolveu uma fixação. Também nos inteiramos de suas justificativas para os assassinatos que comete.
Paralelamente a esses escritos, acompanhamos as cartas que o protagonista envia à polícia e o trabalho dela na investigação de uma série de feminicídios. Dessa forma, constrói-se o suspense crescente da busca pela solução do caso antes que haja novas vítimas.
No entanto, resume-se a esse ponto o aspecto de thriller clássico da obra. Costurada com uma profusão de referências bíblicas e delírios do protagonista, a narrativa adquire caráter de solilóquio ao valer-se de elementos eruditos para delinear a personalidade do assassino.
Conforme conta sua história, o criminoso revela como enxerga o mundo que é e aquele que acredita estar por vir. Levando às últimas consequências o egoísmo da solidão que sente desde a infância e agregando a ele o conhecimento adquirido nas inúmeras leituras, ele acaba por criar uma religião própria.
A doutrina concebida por Ilpo tem forte influência de sua infância cristã, o que a torna ao mesmo tempo análoga e contrária à Bíblia, já que ele deturpa os ritos tradicionais a seu bel-prazer e autoproclama-se deus. As cartas à polícia discursam sobre a regulação do universo mental construído por ele e declaram seu “poder” absoluto nessa esfera. Assim, mostra-se a influência nefasta que um rígido sistema regulatório pode ter numa mente frágil.

“Eu suplantara Moisés, João Batista e uma multidão de outros santos e andarilhos.”
Trecho da página 70.
Além de citações e paráfrases de passagens bíblicas, o romance apresenta diversos personagens secundários com nomes do livro cristão. Atraem especial atenção os de vítimas como Lia e Sara (matriarcas do Antigo Testamento). Não menos simbólico, é o nome do delegado responsável pelo caso, Jacó (o mesmo do patriarca do qual originaram-se os fundadores das 12 tribos de Israel).
No mundo real, o único ambiente onde Ilpo sente exercer total autonomia é na floresta. Por meio dela, é estabelecido um contraste entre os domínios cristão e pagão com que se relaciona.
Ao descrever paisagens silvestres, a trama ganha contornos poéticos, com destaque para o elemento água, em toda a expressividade simbólica a que remete. Entretanto, é possível concluir que mesmo nesse espaço a dinâmica estabelecida é doentia, pois em vez de simbiótica, ela é pautada na pretensa superioridade humana em relação a plantas e animais.
Além das referências à natureza, também as cores têm papel importante em todo o livro. Elas expressam as crenças e os estados de espírito de Ilpo a cada dia. Ao contrário do senso comum, que relaciona o branco à pureza, aqui a cor designa principalmente o estado máximo de alucinação do assassino no momento dos crimes.
Enquanto revela os meandros de uma psique desequilibrada, Julio Pattio realiza com destreza a complexa tessitura de conteúdo e forma ao entrelaçar enredo perturbador, linguagem refinada — mas ainda acessível — e abstração filosófica. Composto por diversas camadas literais e figurativas, Branco beato tingido de carmim fornece diferentes chaves interpretativas. Pode ser considerado uma alegoria para a relação humana com a morte e com outros seres, em especial os sencientes. Fala também da destruição histórica e simbólica do feminino em nome de religiões e pela dita racionalidade. Por fim, enseja reflexões sobre o nosso eterno sentimento de solidão. É, portanto, uma parábola de questionamentos e patologias da humanidade desde os nossos primórdios. Seja qual for a perspectiva enfocada, a leitura é enriquecedora.

Julio Pattio, nascido no norte quente capixaba, na cidade de Colatina, junto ao leito do assassinado Watu. Foi punk, produziu zines, ocupou casas e passou a maioria da adolescência trocando cartas. Formou-se em Filosofia pela UFMG, logo em seguida deixou o Brasil. É mestre e doutor em filosofia do Renascimento pelo CESR – Tours (França) e pesquisa ontologias e epistemologias decoloniais. Vive em Berlim, mas sonha em voltar para casa. É fascinado por poesia iraniana e a cozinha é sua maior terapia. Branco beato tingido de carmim é seu primeiro romance. Atualmente está trabalhando em dois volumes de contos. Branco beato tingido de carmim pode ser adquirido aqui: https://caravanagrupoeditorial.com/livros/branco-beato-tingido-de-carmim/?utm_source=ig&utm_medium=social&utm_content=link_in_bio

![JULIO PATTIO – Branco beato tingido de carmim [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/05/image3-scaled.jpeg)