por Mayk Oliveira
poeta e colunista da Revista Navalhista
Uma palavra em quatro atos
Nenhum livro nasce do nada. Cada novo texto continua, dialoga ou responde a uma grande conversa literária que começou em tempos imemoriais. Esse percurso não se resume a sucessão de eventos isolados, sendo, em verdade, um processo contínuo de transformações. Para a psicologia, a continuidade é a base da sanidade e da percepção do “eu”.
Parte essencial desse significado encontramos na leitura de Palavra que passa (Patuá, 2026), primeiro livro de poesia da autora Laura Diniz Montarroyos, cujo ordenamento dos poemas, faz com que a palavra percorra nas páginas um caminho que vai do impulso inicial ao legado de afetos e amadurecimento. Digamos que esse movimento é a condição de capturar esse “eu”; de se entender. Nisso, encontramos um livro que apresenta o eu lírico feminino, consciente de sua ancestralidade e identificado com a linguagem. Essa voz oscila entre a intimidade amorosa e a reflexão sobre a própria existência, confundindo (se?) frequentemente corpo e identidade.
Composto “em quatro atos”, comparável aos movimentos de uma peça musical, o livro trilha um percurso planejado para conduzir o leitor por diferentes estados emocionais. A poética de Laura Diniz Montarroyos é marcada pelo uso intenso de recursos expressivos das figuras de linguagem.
A leitura de Palavra que passa (Patuá,2026) evidencia uma escrita fortemente imagética, na qual as metáforas não são ornamentos, mas um modo próprio de construção da experiência poética. Em conjunto, essas imagens e figuras de linguagem constroem uma poesia de forte densidade simbólica.
A poeta pega sua palavra e a transforma metaforicamente em animal, e continua fazendo com o corpo em jaula, o amor em cultivo, o silêncio em grito. Signos usados na aproximação de ideias opostas reforçando a tensão que percorre toda a obra, constituindo o traço característico da escrita da autora. A partir daí constata-se que o imaginário do livro se organiza em torno de alguns núcleos recorrentes que reaparecem ao longo dos poemas, criando unidade estética.
Vemos no primeiro ato, que predomina um estado de encantamento, eis um núcleo. A palavra surge livre, criadora, ligada ao amor, à natureza e à fusão com o outro, instaurando um ambiente luminoso e inaugural. Atrevo-me a dizer que, neste ato, há um acentuado tom bucólico como nos versos do poema “me leve para algum lugar:”
“Quero deitar na grama/ ser vagalume/ namorar cigarras/ tirar e dar vida”. E que se mantém o tom campestre no poema “eu gosto do silêncio descansado”: “O silêncio/ cheiroso de rio/ voz de joaninha/ gosto de tarde/ e de grama”.

Na segunda parte, ocorre a ruptura, e temos outro núcleo organizador. São palavras estão em dissonância com estados emocionais. O poema Ruído inaugura uma sequência estipulada pela falha da comunicação, pela fragmentação da experiência e muito marcadamente pelo sofrimento interior. “um grito mudo que come boca”. É o momento de maior tensão da obra, aprofundado por poemas como Novena e Meu corpo é uma jaula que possuem versos do tipo “arame que encurrala meu silencio” e “quando chegar a hora morta eu os deixo sair”, respectivamente.
Outro ponto muito importante é perceber que o eu lírico nasce, renasce, orbitando todas as noites, fazendo-lhe de sua hora sacra. Isso fica evidenciado nos poemas, “A madrugada me acorda” e no poema cujo o título se emenda com versos: Todas as noites eu e você compartilhamos desta margem.
A terceira parte representa representa o também o terceiro núcleo, o amadurecimento. Talvez uma superação. O que se sabe de fato é que nesse ato os poemas se se tornam uma ode a palavra poética. O encontro amoroso deixa de significar dissolução completa para tornar-se convivência entre sujeitos inteiros. A linguagem continua intensa, mas passa a conviver com a serenidade, o reconhecimento do outro e uma consciência mais ampla da própria existência.
O eixo que une todos os poemas é a palavra, entendida como linguagem. Um organismo vivo, capaz de amar, sofrer, silenciar, romper, amadurecer e transmitir memória. Ao longo do livro, a palavra confunde-se com a própria identidade da voz poética, com o corpo feminino e com a experiência amorosa. Se configura o quarto e maior núcleo do livro.
Embora o amor, o desejo, a memória e o corpo apareçam constantemente, todos esses temas funcionam como manifestações de um tema maior: o percurso existencial da palavra e do sujeito que ela constitui.
Ao finalizar a leitura de Palavra que passa (Patuá,2026) de Laura Diniz Montarroyos temos certeza que a estrutura narrativa interna aproxima a poesia de um romance lírico, no qual cada poema funciona como uma etapa indispensável de uma única travessia. A desunião desses poemas não seria possível; são dependentes, estão costurados. Sua força reside no percurso contínuo: nasce do encantamento da linguagem, atravessa a crise, alcança o amadurecimento e culmina na transmissão da experiência.

Laura Diniz Montarroyos nasceu no Recife e escreve desde cedo. É advogada e mestranda em Ciência Política na UFPE, com ênfase em Relações Internacionais. Palavra que Passa é seu primeiro livro.

![LAURA DINIZ MONTARROYOS – Palavra que passa [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/08/IMG_7204.jpeg)