Para Ángel Riskowsky
Em Santa Cruz de la Sierra a modernidade não havia chegado. Santa Cruz, em sua mente, era sempre a mesma, cidade eterna, como se nunca tivesse mudado desde que ele chegara ao Brasil. Na verdade, a Bolívia hoje lhe parecia uma fotografia opaca, cujos detalhes eram corroídos lentamente pelo tempo, como livros pelas traças. Sua Bolívia lhe parecia, então, um sonho cheirando a guardado. As imagens que restavam o arrebatavam em visões esporádicas: Potosí, onde tivera seus filhos do segundo casamento, acinzentada e montanhosa, terra aymará e joia dos Andes, onde o trabalho nas minas dilacerara sua juventude. Suas mãos calejadas, doloridas, quase feias, eram a testemunha do seu trabalho. A memória do sofrimento nunca vem da mente, mas do corpo. Pensava com as mãos. Lembrava com as mãos. E assim viveu, e assim morreu, com todo o sofrimento embotado dentro de seu corpo calejado. Potosí, linda, decadente, trazia-lhe lágrimas aos olhos. Diferente de Cochabamba, sempre lotada, um mosaico latinoamericano, caos e rostos suados, onde conhecera sua segunda esposa. Dias, semanas, meses de tormento: a primeira fuga apaixonada, Cochabamba, louca cidade do primeiro amor. A última moda eram os boleros.
Com certo amargor, recordava-se também do cunhado suicida. Como todo homem prático, estranhava os suicidas. Tinha os pés no chão, os cabelos negros sempre aparados. Nunca entenderia Cecilio, seu cunhado potosino, dentes amarelecidos pelo fumo, negras olheiras fundas. Apaixonado, não aceitara tamanha rejeição. Ou seria o suicídio a conclusão natural do trauma da Guerra del Chaco? Sete meses entrincheirado. O que são sete meses de trincheira perto de uma vida toda na sarjeta? Seus quadros modernistas não o salvaram de sua loucura – morte estranha, súbita e sem redenção. Uma certa aura irreal cercava esse seu cunhado, o chapéu de lado, os cabelos muito lisos, muito escuros, um pouco sem corte, a rosa encarnada na lapela, sempre um pincel ou lápis nas mãos, sempre rabiscando sonhos… talvez fosse um personagem, aquele modo de andar sem rumo, o cigarro pendendo dos lábios. Sim, a irmã estaria melhor sem ele, talvez num segundo casamento um advogado lhe bastasse. Um funcionário público? De qualquer maneira, o próximo marido de sua irmã deveria ser um homem prático como ele. Talvez isso bastasse. Para Ángel, tudo era uma questão de “bastar”. Uma vida com pré-requisitos, roteiro, começo, meio e fim. E isso bastava.
Ángel era um homem metódico. Dirigia sempre com as duas mãos ao volante na sua muito amada Brasília marrom, sempre imaculadamente limpa. Sentava-se perfeitamente ereto à mesa de jantar, ou para ver televisão (sempre a mesma programação). À sombra de qualquer deslize ou falta de decoro por parte de outrem, exclamava com pretensa superioridade seu clássico bordão, carregado de forte sotaque:
– ¡Qué gente!

Victoria Dias Riskowsky é santista, nascida em uma família de estivadores e consertadores, e formada em Psicologia. Suas maiores inspirações são a literatura russa e o conto brasileiro, principalmente Clarice Lispector, Dalton Trevisan e Machado de Assis.

![Victoria Dias Riskowsky – Brasília marrom [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/09/1000043867.png)