ANA MARIJARDE – Red [conto]
ANA MARIJARDE – Red [conto]

ANA MARIJARDE – Red [conto]

My fingers are stained by red lipstick. I try to rub it off my mouth: It spreads to my cheeks, my chin, my hand. I am stained by red lipstick. Shit. I have about five minutes to leave. He is waiting outside.

“What’s taking you so long?”

Well, I am a mess. My hair straightener is broken, my dress won’t fit, my feet hurt and now I am all red.

Porra.

A cor preferida dele é vermelho. Ele ama quando uso um esmalte dessa cor. Quando uso um vestido apertado vermelho. Quando tira a minha lingerie vermelha. Quando arranca respingos do meu sangue vermelho. Mas não qualquer sangue, só o que ele consegue tirar de mim. Ele não suporta o vermelho da minha menstruação. Não me toca quando estou menstruada. Ele não gosta de vermelho no batom. Shit. I bought this lipstick thinking it was pink. A soft pink. A sweet pink. A pleasedon’tbeatme pink. Vendedora desgraçada. Now the red won’t leave. It won’t leave me.

“Tá fazendo o banheiro? Que demora do caralho.”

He is getting angrier. He is always angry. Deve ser por isso que ele ama vermelho, como um touro irritado perseguindo um espadachim qualquer. Os chifres pesam em sua cabeça.

Yesterday I fucked a plumber. He didn’t care about colours. Was he colourblind?

Os roxos e os verdes do meu corpo não o incomodaram. Acho que ele não viu. Não, ele viu, mas não fingiu compaixão. Ele apertava cada hematoma esperando deixar também sua marca naquela pintura. Homens são tão territorialistas às vezes.

“I am almost ready, sweetie, just tidying somethings up since I know how put together you are”

Fucking prick. Egocêntrico do caralho. Só assim para ele parar de me encher o saco. A beleza leva tempo, porra. Beauty takes time. O batom não quer sair. Estou ficando sem tempo. Sem paciência. Que desgraça. Foda-se, vou ter que apelar. Pego a tesoura. Precisa ser profundo se eu quiser que ele acredite. Mordo a toalha de rosto. Respiro. Escuto os tambores em meu peito. Imagino o vermelho do meu sangue correndo por minhas veias. Tenho ódio dele. No três. 1……………. 2…………3.

PUTAQUEPARIUDESGRAÇADEDOR.

Enfio a ponta da tesoura no interior da minha coxa. Profundo o suficiente para o sangue jorrar, mas não para deixar cicatriz. Sou profissional preventiva de cicatrizes e manchas. Uma mulher tem que saber um pouco de tudo, aprendi com a Barbie. Ele pagou um curso de maquiagem para mim. Ele paga todos os meus tubos infinitos de bases e corretivos. O laranja cancela o azul. Cubro tão bem os roxos, verdes e azuis empretecidos de meu corpo que já posso ser considerada uma artista plástica. Passo a calcinha branca no sangue da minha coxa. Esfrego o sangue na virilha, na buceta. Let’s fucking go.

“Babe – my voice cracks, I sound like a bird caught in a trap, squicking – I am so sorry, don’t be mad at me, okay?”

“What now?” The bull was coming. He smelled the redness around me.

“Desceu”

Silêncio.

“Caralho Beatriz, duas vezes no mês?” – Droga, não esperava que ele soubesse contar. –  “Você me deixa esperando por quatro horas para gente ir no restaurante que VOCÊ implorou para eu te levar e agora me vem com essa? Vai se fuder. Sai do banheiro agora.”

Falei algo nãoseioquelánãoseioquelá.

“Abre a porta agora. Eu quero te ver”.

É, já enrolei tudo que podia. Chegou a hora de abrir essa porta. Respiro. Lembro de um professor que tive no ensino médio, alto, forte, gostoso e extremamente feio. Me sentia muito atraída por ele, não conseguia nem pensar quando seus braços que tinham o tamanho da minha cabeça me rodeavam sem me tocar para explicar alguma questão que eu não tinha entendido. O cheiro do seu perfume invadia meu nariz e eu perdia a habilidade de pensar. Lembro da primeira impressão que tive dele quando em uma aula ele nos aplicou um sermão e disse que se um dia sua filha batesse a porta do quarto, ele derrubaria a porta e ela no chão. Enquanto eu olhava para aqueles braços gigantes eu imaginava que era verdade, ele realmente faria isso. Senti raiva do tesão que tinha por ele. Senti pena da filha dele. Eu e minha obsessão por canalhas.

I opened the door. He stares at me for a minute. He sees my messed hair, the dress that won’t fit, the blood dripping down my legs. Ele toma a calcinha de minha mão e olha para o sangue nela. Ele olha para o batom borrado. O vermelho incômodo. For a moment everything stops and I see it in his eyes. I see my own face. Was I smiling?

Fecho meus olhos quando vejo seu punho em minha direção. Ele soca todos os lugares do meu corpo. Menos meu rosto. Ele gosta do meu rosto. Sinto meu corpo cair no chão frio do banheiro. Sinto os chutes desferidos em minha barriga por aquele pé gigante. Sinto ele parando, respiração ofegante. Sinto seus braços me envolverem com delicadeza. Sinto suas lágrimas manchando meu rosto.

“Desculpa amor, eu não queria te machucar, você sabe disso né?”

Sei sim. Claro que sei. Filho da puta.

Ele me coloca na cama gentilmente, me embrulha no lençol branco. Deita a cabeça no meu colo. Chora. Não consigo mover meu corpo. Ele levanta e me dá um remédio para dor. Coloca a água na minha boca com cuidado. Afaga meu cabelo. Me dá um beijo na testa e sai.

Amanhã eu vou fuder o encanador. Ou talvez eu ache um jeito de entrar em contato com meu antigo professor, será que ele ainda é casado?

Não gosto de homens casados, odeio me sentir a amante, odeio ter que ir embora logo depois do sexo, por isso eu os expulso, assim, eles é quem são os Outros. Gosto da satisfação que me consome em ficar despida na cama enquanto observo o homem com quem transei procurar as roupas pelo chão e se vestir com pressa, pegos de surpresa por meu desapego. Se for bom, como o encanador, eu ofereço um copo de água e os acompanho até a porta do quarto. Se não, viro as costas e pego meu livro de cabeceira, olho para o relógio e faço uma cara de extremo incômodo. Gosto de vê-los desconfortáveis, que saibam o quão medíocres são, se o homem não consegue nem mesmo me satisfazer para que caralhos vou fingir que foi bom? It’s enough that I gotta lie to this damn prick. He used to ask if I enjoyed the sex when we started dating. I used to be honest and say that I fucking loved it. It was good, he has a delicious dick. At least he got that going on for himself. That and the money, he is loaded. But that wasn’t what attracted me to him, I used to have my own money, before I started to wear pink lipstick and pray for the best. O sexo era bom, ficávamos horas e horas transando. Mas que porra aconteceu? A ânsia de ter e o tédio de possuir. Algo assim. Nowadays when we do it is always quick and emotionless. I feel more when he hits me than when we fuck. Nada. Porra nenhuma. Olho para o teto em movimento, branco, quadrado, infinito. Que desgraça. Não tem terror maior do que o não sentir. Ele me deixa dormente, uma boneca de porcelana impenetrável sendo penetrada. Ele não pergunta mais se gostei, se gozei. Finjo, mas nunca fui boa atriz. Ele sabe e me odeia por isso. Me odeia por eu não ser mais a mesma. Me odeia por eu não usar as mesmas roupas, falar das mesmas coisas, rir do mesmo jeito. O seu ódio é fétido e impregna todos os meus sentidos, invade todos os buracos do meu corpo e me dá ânsia. Ele me odeia por eu não ser mais a mulher por quem ele se apaixonou. Mas aquela mulher só usava uma coisa de maquiagem: o batom vermelho.

Meu corpo inteiro dói. Faço uma lista mental dos homens que irei fuder quando me recuperar. Ele vai viajar amanhã, então não deve mais voltar hoje. Sinto o lado da cama que ele ocupa vazio, gélido. Parece que seu fantasma continua aqui, pesando sob os lençóis. Penso em pegar o livro na cabeceira, mas meu braço não se move. O colchão ao meu lado pesa e percebo que ele não foi embora como de costume. Escuto as primeiras palavras do meu livro preferido saindo de sua boca. “Eu vou começar a minha estória. Agora, na superposição de meus rostos, na convergência das datas.” Que inferno. Como ele pode fazer isso comigo? Sua voz é doce, me afaga com um carinho que só ele sabe fazer. Uma lágrima escorre pelo meu rosto. Desgraçado. Ele sabe que esse é meu livro preferido, foi ele quem comprou para mim. I used to talk about all the books I loved with him for hours nonstop, the conversation was as good as the sex. He used to listen patiently, hand on the chin with a little head tilt to the side. Ele costumava deitar sua cabeça em meu colo enquanto eu lia minhas partes preferidas. Quando eu baixava o livro, via seu rosto concentrado, a expectativa pelo restante da história. Filho da puta. As lágrimas caem sem parar. A voz dele entra em meus ouvidos sem pedir permissão. Ele nunca pede permissão para porra nenhuma. Quero gritar com ele, quero que ele volte a me bater, que grite comigo, que aja como um corno irritado e não como o homem por quem eu me apaixonei. Quero que ele me mate. Me mate logo de uma vez ao invés de me destruir aos poucos como está fazendo agora. Mas o ódio que ele sente não deixaria que eu tivesse uma morte rápida e indolor, é por isso que ele faz isso agora. Esse ódio que corrompe e rasga e destrói. Ele me quer existindo em meio a essa dor. E eu quero o mesmo para ele, eu quero que ele sinta que nunca mais vai ter a mulher que ele amou, apenas essa sombra esfarrapada dela que sobrou. Apenas essa boneca de batom rosa.

Ele para de ler. Passa a mão em meus cabelos, limpa minhas lágrimas, meu resquício de batom borrado.

“Você é a mulher mais linda desse mundo”

“Você é o homem mais mentiroso desse mundo”

Droga, por um momento, deixei a antiga eu responder. Ela que fica acorrentada dentro de mim sempre que ele está por perto. Ela que não aguenta mais usar batom rosa e falar baixo. Ela que quer que eu desista dessa porra de vingança adoecedora e a solte. Ele não merece falar com ela. Por um momento ele sorri, achando que a tem. Não é justo, não é justo que ele a tenha. Não é justo que ele me machuque e a tenha, que ele me prenda nesse limbo de nada e seja permitido sentir algo além do ódio. Eu quero que esse ódio o consuma, que ele morra engasgado com isso. Aí eu posso morrer também e se ela ainda estiver aqui, talvez eu a deixe voltar. Ele beija meus lábios. Eu sinto seu cheiro. Não o cheiro do ódio, mas o seu cheiro, o cheiro do homem que eu amei. Fuck, I’ve missed this smell. I’ve missed his lips on mine. I’ve missed feeling him alive. Ele me toca com um carinho que a tempos não dedicava ao meu corpo, parece que lembrou da mulher que uma vez amou. Ela bate na porta querendo sair, querendo abraçar o seu corpo e retribuir aquele beijo que por tanto tempo implorou. Eu não deixo. Ele não vai tê-la de volta. Ele não a merece, não merece o calor do seu corpo, não merece o afago de seu toque, não merece a doçura do seu riso, não merece a vivacidade de sua voz. Não merece as piadas internas, não merece a pirraça carinhosa, não merece o gozo dessa mulher. O que ele merece sou eu, o que ficou, a pele fria, o sorriso forçado, os olhos vazios, o corpo que tem asco.

He feels that I am not her, he feels that he lost her once more, he stops kissing my frozen lips, stops caressing my hair.

“You’ll never forgive me, will you?” His eyes are dark, scared, trembling. That’s better.

“Pelo que meu amor? Você não fez nada, né? A voz da boneca sai do jeito que deve ser: artificial, aguda, estranha. Ela está adormecida mais uma vez, vou queimar esse livro para que não tenha o perigo dela retornar para ele. Se precisar, queimo essa casa toda. Mas não queimo ele, morrer no fogo é muito pouco. Sinto o cheiro rancido do ódio voltando, a cara dele deixa de ser aquela figura familiar, nostálgica. Ele levanta sem falar nada, sai do quarto e vai embora.


Ana Marijarde

Ana Marijarde é estudante de Letras na UNEB de Irecê, Bahia. Apresentou o conto Finalmente Junho no CONPEX/2025 e escrevendo o conto Red logo depois, embora só agora tenha coragem de mostrá-lo. Escreve e continuará escrevendo porque foi assim que aprendeu a viver, e porque, sem isso, nada mais faz sentido.

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