Desatenção
Caminhando a passos apressados
Minha balança tem estado descompensada
Uma imaginação que vai mais longe do que a sensatez
E mais rápido do que eu possa acompanhá-la
Caminhando com olhos dispersos
Cuidando para manter os pés firmes
Evito rostos desafiadores, magnéticos
A desatenção me é escudo para o perigo
Dentro dessa bolha
Não há janelas
Quando passam por mim não os vejo!
E não reconheço as feições que atravessam
Caminhando com olhos distantes
Vejo apenas aquilo que depois esqueço
Uma memória obstruída pela areia da ampulheta infeliz
Que faz meus olhos arderem pela poeira
Caminho a passos apressados
Broto de feijão
Tão sereno
Quieto, alimentando-se do doce
Quero que tudo te corra bem
Terno desinteresse
Que você tantas vezes dedica a mim
Obstino-me em te chamar
Quero que tudo te seja paz
E tu encontres o açúcar
Talvez sem o paladar
E quem quiser te tirar teu mel
Sei que não sou a mais forte
Mas defendê-lo-ei por ti
Que teu rosto continue assim delicado
És imã de lágrimas em mim!
Me entristeço com tua tristeza
Quero que tudo te corra bem
Meu broto de feijão! Pequena grande cria de urso
Quero que tudo te corra bem
Rememoração
A mesma mentira contada várias vezes
E em todas elas eu quero acreditar
Faço costume em negar o que vejo
E confiar na minha razão desleixada ao ponderar
Travoso é o gosto da ilusão
Queima o céu da boca antes de descer ao esôfago
Me deixa querendo mais, insaciável e aos arrotos
Visito o espaço entre os dentes
Onde a água algo deixou
Mastigo, saboreio e cuspo de novo
É fácil esquecer o motivo do ardor
A mesma mentira contada várias vezes
Suco gástrico que volta do estomago
Faço costume em negar o que já provei
E confio que dessa vez
Dessa vez!
Será algo novo
Erro de comunicação
Sinto falta das palavras simples
Quando o pouco expressava tudo, e em bom tamanho
Era claro, mas hoje é cândido!
De manhã essou absorta, apaixonada, encantada e me fiz deslumbrar
Mas ontem à noite meu coração só fazia tum-tum
Tum-tum
Tum-tum
Agora te digo que perdi o chão
Peço “engulam-me as marés!”
e que parem as canções
Mas eu só chorava antes
E era suficiente
Me obrigas a dizer que estou exausta, indefensável e latente pelo tesouro
Sim
Meu coração só quer dizer tum-tum
Tum-tum, tum-tum

Manuela Alcantara Nascimento, nascida em 2009, em Belém do Pará (não foi essa que Jesus nasceu) que alimenta sua paixão pela escrita desde que aprendeu a juntar as vogais, as sílabas e as frases. Hoje junta ideias, mas prefere as sílabas. Escreve como uma extensão de si e de quem é, seja isto sobre memórias ou sobre pessoas que conhece. Fala francês, inglês e espanhol. Mas nenhuma destas lhe é tão íntima como a última flor do Lácio, o português. Arrisca-se no violão e sonha com a Medicina. Sonha com as palavras também.

