Naquele tempo, as pessoas ainda podiam sentar à rua sem medo. A nossa, de terra meio amarelada, sempre coberta, na minha memória, por folhas secas, começava ainda a ser lugar de parar os carros – à falta de garagens tudo ia se tornando vaga.
Era àquele caminho esburacado, bem na calçada – não menos esburacada –, onde ele plantava a sua velha cadeira de confiança. Ali, painho lia o jornal, conversava, bebia café, cerveja ou coca, nunca água, e, entre uma coisa e a próxima – ou, às vezes, no meio de alguma delas – fumava.
Fumou quase a vida toda (e tossia de acordo).
O seu cheiro, então, se dividia entre alguma colônia marcante das várias que tinha e o tabaco, toda vez da mesma marca.
Então pelo menos na colônia ele variava. As comparava e classificava com uma espécie engraçada de orgulho. Contava também suas histórias, as quais, essas sim, repetia sempre que alguém lhe dava a deixa – sendo essas, afinal, parte da coleção tanto quanto os vidros coloridos e seus conteúdos.
Sempre repetia:
Echtt nº 49 – Na época, trabalhava em um escritório que administrava postos de gasolina da Gasofina quando eles ainda eram por aqui novidade; uma noite, com os funcionários da firma indo beber num boteco próximo, seu chefe, Seu Jilião, elogiou com certa intensidade o odor do 49. Passou uma semana e painho foi demitido “sem razão”. Meses depois, mainha se encontrou com a esposa de Seu Jilião numa loja, seu cheiro estranhamente familiar…
RASTRO Vanessa, 3332 – “Importado” do Rio de Janeiro. Painho tinha os últimos 3 frascos sobreviventes de um incêndio que matou 12 trabalhadores “da linha de montagem”. Com as greves que assolaram a segunda fábrica, a companhia logo fechou as portas. Um dos sobreviventes do fogo era um primo seu, meu Tio Horácio, que voltara pra cá depois disso tudo, trazendo na mala uns espólios da tragédia.
Virilíssimo, da Stratford – A colônia que cheirava “igualzinha” à que painho uma vez assistiu vovô Pacheco tomar, na falta de cachaça. Vovó escondera o dinheiro num lugar novo e as garrafas com a vizinha – acabou apanhando. Depois, já de madrugada, agoniado e meio doido de secura, lembrando ou imaginando que na colônia tinha algo de álcool, o homem se trancou no quarto dos filhos, escapando da mulher e dos seus gritos, e lá mesmo bebeu dos vidrinhos caros que pegara no lavabo; acabou vomitando e desmaiando. A catinga concentrada, as caretas de vovô e os berros desesperados de vovó ficaram registrados na memória de painho, que contava essa história rindo.
O cigarro, não. Sem variedades ou anedotas. Só gostava do Bullburn, que ele chamava de “bubârne”, e sobre isso pouco falava.
Eu cheguei a amar meu pai, mas naquela idade de pequena eu o odiava. Eu odiava quando ele bebia e ficava estranho, como um enorme bebê vermelho e suado, balbuciando coisas sem sentido, gargalhando alto e ridículo, cantando sem saber o que era cantado. Eu odiava quando ele se irritava, e batia o pé, e esmurrava a mesa, e decidia e não reconsiderava mais e não queria saber de nenhuma outra sugestão, cabeça dura “que nem um burro burro”, como dizia Tio Horácio.
Claro, tudo isso era a exceção, normalmente estava sóbrio e era sensato; às vezes até agia doce e calmo, e era todo carinhoso com a gente, cheio de conselhos e afagos e paciência para escutar tudo o que tínhamos em mente.
Mas antes de eu ter a capacidade de perceber isso como a norma, havia algo que eu ainda mais odiava e que nublava a minha imagem habitual dele: o cigarro. O mesmo mal contínuo e escancarado, impregnando tudo com cinzas e fumaça, com aquelas linhas soltas que voavam como fios de cabelo velho, com aquela camada no ar, pesando-o, que, quando não irritava minhas narinas, me dava nojo.
Mainha um dia me levou a sério e decidiu que me apoiava, determinou: “a partir de agora o seu pai só fuma fora de casa”. Eu fiquei felicíssima, ele notou. A partir de então, começou o ritual que eu mais odiei em todo o período em que com ele convivi, um costume péssimo, talvez vingativo, que meu pai criara:
Estava sempre na frente, lendo seu jornal, expressando para ninguém suas impressões quanto às notícias lá impressas, debochando ou resmungando, sentado na sua mesma cadeira e tomando goles de sua mesma caneca ou bebendo de alguma garrafinha. Então, parava tudo, e encarava o céu e me chamava alto: “Sandrinha!” E eu, que estudava na sala – único lugar bem iluminado da casa –, ia correndo, já acostumada, para não levar carão.
Ele me acompanhava chegando calado, me esperava aproximar um tanto, me encarava; se eu ficasse à porta, reforçava o chamado: “venha cá, querida, venha.” Me passava o jornal e me instruía que o guardasse junto com os velhos lá no quintal ou me fazia qualquer outro pedido, e, só quando eu já tinha me afastado outro tanto, soltava: “E seja boazinha e me traga um cigarro.”
Eu me sentia obrigada a reagir incomodada, a demonstrar minha contrariedade, só para ele adicionar, eu acho que sabendo que isso me irritava: “E traga já aceso, viu?”
.
“Trago”, respondi ao médico.
“Pois, é, isso faz mal”, comentou, “recomendo que você pare aos poucos, que é mais fácil, primeiro tente não tragar, só deixando a fumaça pela boca, sem inspirar mesmo, entende?”
“Entendo”, respondi depois de um tempo. Logo, complementei: “É isso que tá me incomodando o meu estômago?”
“Sim, com certeza.” Não sabia que cigarro fazia isso.
“Muito bem, então eu paro.”
“Repito: tente ir aos poucos que é mais fácil. Só deixe a fumaça solta, sem puxar. Foi assim que eu fiz, pelo menos.”
“Não, doutor, preciso disso não. Essa foi minha última carteira de cigarro. Nunca mais eu fumo.”
.
Painho não parou de fumar por medo de doença, nem por algum efeito adverso, nem por nada disso. Naquela época, a gente ainda acreditava que o ruim daquilo era só o vício (e o fedor, se me perguntassem).
Painho parou porque eu pedi.
No dia em que nasceu meu primeiro sobrinho, seu primeiro netinho, ele chegou do hospital com as boas notícias, todo feliz. Não pude ir porque alguém tinha de cuidar do nosso caçula, Fabinho – que até morreu uns dois anos depois do mesmo problema com o qual havia nascido. Mainha e minha outra irmã foram ficar com a parida e seu esposo.
Estávamos, então, só nós dois, eu e meu pai, sentados à mesa, conversando sobre a gravidez de risco que minha irmã enfrentara e “o milagre da vida”. Ele mesmo foi e puxou e acendeu um cigarro dentro de casa enquanto eu recolhia os talheres e a louça. Pediu seu cinzeiro despreocupado, sem pretensões ou maldade, sem ironia ou aquela sua dureza direta de quem dá ordem a uma subordinada. Pediu como imagino que teria pedido a alguma amiga, com “por favor” e “obrigado”.
Me aprocheguei dele escondendo o nojo, trazendo comigo o pratinho de vidro. Devagar.
“Painho, quando o senhor começou a fumar?”, soltei, séria.
Ele me olhou, curioso com minha curiosidade, e pensou. Respondeu que “cedo”; e perguntou “por quê?”.
Disse que não era nada, mas logo em seguida questionei por que não parava. Por um instante achei que tinha errado, que ele tinha se incomodado com aquela intromissão, comigo “querendo mandar” na vida dele, ou algo do tipo. Mas, não, ele só disse que não sabia.
Eu percebi a abertura e insisti, falei que achava feio. Ele balançou a cabeça e comentou que mainha também achava isso. E assim continuamos.
No fim, ainda com o troço pela metade, ele desceu a mão devagar e o apagou no cinzeiro, dizendo: “Você quer mesmo que eu pare de fumar, minha querida?”
“Todas nós queremos, painho. A gente sempre quis.”
“Pois bem. Nunca mais eu fumo.” E nunca mais ele fumou.
.
Aquela foi a primeira vez em que me senti uma pessoa igual a ele, uma pessoa conversando com outra. A partir desse dia, parei de odiá-lo; gradualmente ele virou o meu favorito e eu a sua favorita.
Treze anos se passaram e, alguns dias depois do seu funeral (uma pancreatite dolorosa e súbita que o reduzira terrivelmente), comecei eu mesma a fumar. Obviamente que na época não conectei a consequência à causa, o mal à raiz. Foi só um mentol, novidade estrangeira do final da década, que uma amiga me ofereceu enquanto bebíamos na praia.
O cheiro não mais me incomodava. Logo me acostumei à fumaça, peguei o hábito. Antes, nem sequer sairia com um cara se sentisse nele um traço de tabaco. Agora, nem registrava a mudança. Ninguém na família comentou nada. Na minha cabeça, fumava porque gostava, porque era simples e passava o tempo e baixava a pressão e tinha como ser apreciado, claro, “tudo tem quem goste”.
Em um jantar de natal já no fim da década seguinte, uma menininha, filha de um colega, chegou perto e puxou minha saia e perguntou por que eu fumava. E eu comecei a chorar.
Parei por uns tempos, voltei aos poucos. Agora, saindo da clínica, tiro da caixa um último cigarro, um Dromedário Red, o meu “drome vermelho”, e coloco o resto num canto qualquer, pra alguém achar.
Puxo meu isqueiro, penso no meu pai e pela última vez me alinho.
Vejo a chama se apagando e, já aceso o cigarro, não deixo: trago.

Leonardo Delgado Caúla é recifense e escritor. Nascido em 1997, teve publicados em 2024: um conto dentro da coletânea “Novos Contos: Jovens Talentos do Nordeste” promovida pela Fundação Joaquim Nabuco, e um livro de poesia autoral pela editora Minimalismos, “Daqui pra frente é esquecimento”. Também trabalha na roteirização, no desenvolvimento e na produção de filmes independentes em Pernambuco.

![LEONARDO DELGADO CAÚLA – Trago [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/01/delga-scaled.jpg)