VITOR SILVA – SEIVA [resenha]
VITOR SILVA – SEIVA [resenha]

VITOR SILVA – SEIVA [resenha]

por Soraya Viana

professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.

Onde deseja um corpo vivo

Em Pele negra, máscaras brancas, Frantz Fanon discorre sobre a hipersexualização de corpos negros como método de estigmatização e controle. O psiquiatra sugere que aquilo que denomina “epidermização da inferioridade” seja subvertido com o fortalecimento da identidade grupal e individual pela prática da autoafirmação. Entre outros modos, esse resgate pode se dar pela tomada de posse do próprio corpo e a realização dos objetivos do sujeito em vez dos alheios.

Essa sublevação é empreendida por Vitor Silva em seu novo livro, Seiva — poéticas de prazer e gozo (Editora Patuá, 2026), uma coletânea de poemas eróticos que são, antes de mais nada, uma ode à libido inerente à pulsão de vida plena.

Organizado em três partes complementares e de intensidade ascendente, Seiva revela o ímpeto de alguém insubmisso no exercício da própria individualidade, inclusive — mas não apenas — a sexual.

A primeira seção, Língua solta, é uma (auto)convocação ao enfrentamento de olhares reprovadores. A maneira escolhida para isso é a reconexão com o corpo através da dança,  atividade que continua a inspirar metáforas ao longo de toda a obra.

Nesse capítulo introdutório, acompanhamos o eu-lírico em movimentos de expressão, seja por intermédio da poesia ou da dança, como usufruto de si mesmo e de seu lugar num mundo que o quer calado, encolhido e estático (jamais extático). Afinal, conforme versos de Gramática do corpo ou Coreografia, “a fuga acontece na retomada do corpo” (p. 21).

Rhythm and Poetry traz poesia na sua forma primordial, musical e musicável. Um claro exemplo disso é que alguns poemas desse segmento trazem sugestões dos gêneros musicais em que podem ser executados.

Em poemas como Corpo percussão, a jornada rumo à autoemancipação segue de maneira cada vez mais física.

“o corpo todo percussão

(…) mãos espalmando o som

tamborilando na pele o tambor encorpado”

(p. 46)

Na pegada do funk, na toada do forró e na batida do rap, os versos também fazem referência a manifestações culturais como o jongo e o hip-hop. Por meio deles, o eu-lírico se une ao corpo ancestral e, num aprofundamento de quem é, ensaia tocar o outro, a exemplo do poema (pra cantar aforrozado) Santo Antônio,

“pra te ver / preciso d’um milagre acontecer” (p. 51).

O terço final do livro, Corpografias do desejo, deságua — metafórica e literalmente —  na manifestação de uma autonomia vital através do impulso e do ato sexuais. Numa carnalidade escancarada, as cenas explícitas desnudam não só os parceiros envolvidos no ato mas, acima de tudo, a interioridade desejante de cada um. Nesse segmento, os versos miram (e acertam) no ápice da satisfação da necessidade de realizar fantasias e saciar apetites vários. Eles proclamam que o néctar da vida é o desejo, e o seu lubrificante, o gozo da inteireza de ser quem se é.

Ao enfatizar seu posicionamento como um sujeito negro e homossexual que exterioriza os desejos mais profundos, com destaque para os sexuais, a voz poética ainda repele objetificações de cunho homofóbico.

“se o corpo e a alma forem um só

os prazeres do corpo

são prazeres sentidos na alma”

(p. 59)

Em última análise, é possível encontrar interseções de Seiva — poéticas de prazer e gozo com o pensamento fanoniano e afirmar que, sem se tornarem panfletários, a poesia coloca em prática algumas das soluções propostas pelo autor martinicano para implodir preconceitos. Com musicalidade ativa e despudor lírico, Vitor Silva exalta a força de um corpo vibrante em uma voz que, com o intuito de “Não morrer cedo / não morrer em vida” (p. 63) sublinha o poder de gozar a existência em todos os sentidos e posições — sobretudo as políticas.


Vitor Mateus da Silva, poeta, pensa palavra enquanto modo de ocupar e se articular nas encruzilhadas e contradições de ser e estar no mundo. Participou das antologias: Candeeiros (ed.Andross, 2022), Poemas Negros (ed.Arte da Palavra, 2024), Vozes Negras em Santana de Parnaíba (publicação coletiva independente pela Lei Paulo Gustavo, 2024) e Gozo na Alma (ed. Palavra Ferida, 2025). Lançou seu primeiro livro de poemas O poeta são coisas que não cabem aqui, (ed.Urutau 2025), e Seiva -Poéticas de Prazer e Gozo (ed.Patuá,2026).

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