Hoje meu melhor pote quebrou na minha cabeça, eu ainda sinto o impacto dele batendo e a cabeça pensando ah não puta merda eu sabia que isso ia acontecer, meu melhor porte quebrou, aquele que era hermeticamente fechado e bonito o suficiente pra guardar a granola que acabou semana passada e ainda não comprei mais.
Meu melhor pote quebrou e se esfacelou todo, ele tinha uma tampa também de vidro azul presa por um gancho de metal que já estava um pouco enferrujado, eu sei, mas fechava muito bem e mantinha minha granola sempre bem fresquinha, ainda sinto o impacto dele batendo e a cabeça pensando ah não puta merda é a segunda vez que isso acontece. Da outra vez não foi meu melhor pote, foi um pote de pepino cheio orégano, que espalhou o orégano todo pelo chão.
Como não era meu melhor pote, nem perto de ser, e o orégano já estava lá há mais de ano, achei graça do cheiro de pizza impregnando a cozinha. Também não quebrou na minha cabeça, ao contrário, foi no meu pé e isso deve ter feito minha cabeça aliviada e leve pra gostar do cheiro de orégano que se espalhou rapidamente pelo ar. Lembrei que nunca se deve comprar orégano online, 100g de orégano é muita coisa, anotem, e senti alívio do orégano enfim acabar, mesmo daquele jeito tão dramático.
Mas é que hoje foi meu melhor pote que quebrou na minha cabeça, ele estava vazio, ele estava parado em cima da geladeira, ele estava fechado, hermeticamente fechado. Eu estava em risco, eu estava mexendo em tudo e eu já sabia no que arrastar móveis com potes de vidro em cima pode resultar. Mas, mesmo assim, eu fui lá e arrastei a geladeira, eu fui lá e eu arremessei o meu melhor pote na minha própria cabeça que ainda é incapaz de absorver impactos e deixou meu melhor pote cair em cheio no chão, vazio, hermético e previsível e, por isso mesmo, muito triste.

Estela Rosa é escritora e tradutora, nascida em Miguel Pereira, região serrana do Rio de Janeiro. É mestre em Letras pela UFRJ e publicou os livros Um rojão atado à memória (Editora 7 Letras), finalista do Prêmio Rio de Literatura 2018, e Cine Studio 33 (Macondo Edições). É tradutora dos livros Tradução da Estrada (Círculo de Poemas), de Laura Wittner, e Quitanda (Capiranhas do Parahybuna), de Roberta Iannamico. Fez parte da iniciativa Mulheres que escrevem e desde 2022, trabalha como escritora e designer de narrativa de jogos de videogame na Dumativa Game Studio.

![ESTELA ROSA – O melhor pote [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/09/ESTELA-ROSA-FOTO-scaled.jpg)