PAULA SOLEDADE – A morte não é útil [conto]
PAULA SOLEDADE – A morte não é útil [conto]

PAULA SOLEDADE – A morte não é útil [conto]

Hoje, como todos os dias que mudam as nossas vidas pra sempre, começou completamente normal.

Levantei-me antes do sol nascer, liguei o rádio na estação de notícias, passei meu café e me preparei para o trabalho.

Saí um minuto mais tarde do que o normal — e talvez isso tenha feito toda a diferença. Caminhava apressado para não perder o ônibus das 6h45. Faltavam dois minutos e comecei a correr, pois precisava de três para chegar ao ponto. Não vi a pedra. Tropecei, caí com o corpo voltado pra rua e fui atropelado pelo ônibus das 6h45, que, ironicamente, estava adiantado nesse dia.

E agora, tal qual Brás Cubas, escrevo esta história sobre a minha morte.

Pra mim, morrer não foi tão diferente de estar vivo. Levantei-me após ser atropelado e entrei no ônibus. Cheguei ao trabalho no horário, como sempre. Esse pequeno contratempo da morte não me impediria de ser um funcionário exemplar.

Sentei à mesa e passei as próximas oito horas digitando burocracias sem sentido. Voltei pra casa. A solidão do meu apartamento me esperava intacta: não havia choros nem velas, nem viúva, nem crianças órfãs, nem pais lamentando o filho ou amigos relembrando momentos felizes. Minha vida era tão vazia quanto minha morte.

Acho que nem Deus percebeu que eu estava morto — e assim ninguém veio me buscar.

Minha vida era o meu próprio purgatório.

De repente, entrei em desespero ao pensar que passaria toda a eternidade vivendo a vida que levava há mais de vinte anos. Sempre imaginei que teria tempo de fazer diferente — de ligar pra Ruth e convidá-la pra um café, de retornar as ligações da minha mãe, talvez visitá-la no Natal.

A esperança é uma benção dos vivos.

Pensei em visitar meus pais, mas quem receberia bem um fantasma? Ir vê-los morto seria tão cruel quanto não tê-los visitado em vida.

Pensei em levar flores pra Ruth, mas lembrei que mortos não dão flores — apenas as recebem.

Percebi que minha morte não me ajudaria a resolver as pendências da minha vida. Talvez seja só isso mesmo: morrer, e pronto. Sem grandes revelações, sem aprendizado. Apenas a eternidade do cotidiano que se constrói em vida.

No fim das contas, pode ser que, assim como a vida, a morte não seja útil.


Paula Soledade é engenheira de formação, servidora pública por profissão, professora por missão e escritora por paixão. Autora de contos, fábulas e poesias, tem obras selecionadas em diversas antologias literárias. É também autora do livro infantil Mamãe, de onde eu Venho?” Instagram: @escrever_para_nao_surtar ou @letepasosa

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