Canto sobre a incerteza I
Na noite escura,
A palavra, como foice,
Traspassa o laureado
Anestesiado. Ensejo
Ora em festa, ora em desejo
De sobreviver, nem que seja
Ao fim que tanto almeja,
Mas não agora.
Quiçá, mundo afora,
Eu me reedifique
Me converta em fonte, água, fluxo, dique.
Quero viver mais uma vez
– talvez.
Canto sobre a incerteza II
O real é incerto por natureza:
É a dureza da manhã num ponto de ônibus;
É a bailarina engessada do ouro lado da mesa.
Mas também é macio como o pão
E maleável como a água.
Venho nutrindo uma planta num
Vasilhame genérico.
E ela teima em não fenecer.
O real é como um punhal
Atravessando a mente.
O real é a verdade e a mentira:
Concomitantemente.
Canto sobre a incerteza III
É meu corpo enlaçado
Por arame farpado.
Às seis da manhã,
Um silêncio estreito,
Uma ruptura abissal.
É a dúvida constante
Sobre o que é real.
É a pergunta como
A melhor resposta,
Caindo sobre os pés,
Imóveis e atados.
Meus erros contam
Uma história
Contínua.
Por favor,
Quando eu for,
Deixe-me ir embora.
Enfim,
Deixe-me dormir.
Pêndulo
A dúvida mais transparente
Incompleta a psiqué cindida.
O tudo é o nada, e sua síntese é a resposta,
Porque o intangível
Também é realidade.

Tamara Chagas é historiadora da arte, poeta e artista neurodivergente. Formou-se em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), onde também cursou Mestrado em Artes e Doutorado em História. Graduou-se em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Vila Velha. Atualmente, realiza seu pós-doutoramento na UFES, com bolsa FAPES. É autora dos livros de poesia “De volta ao infinito ritornelo” (Mondru, Goiânia, 2025) e “Ariadne na Ilha de Naxos” (Versiprosa, São Paulo, 2023). Para adquirir seu novo livro de poesia, acesse: https://mondru.com/produto/de-volta-ao-infinito-ritornelo/

