NICOLAS SOUTO – 3 poemas
NICOLAS SOUTO – 3 poemas

NICOLAS SOUTO – 3 poemas

N - Logo - separador

Carimbo 

 

Uma consciência presa num corpo eu sou,

Não sei de onde vim nem para onde vou.

Eu sou o sequestrador e o refém,

Cujo resgate é reconhecer que não sou superior a ninguém.

Fui jogado aqui e procuro um rumo, um guia,

Mas no barco onde estive nem uma bússola havia.

Sou eu o juiz e o criminoso,

Colocando grades em mim mesmo, 

Atrapalhando meu eu curioso. 

Me sinto numa sala de espelhos

Desde que fui colocado aqui:

O que é real ou refletido?

Não sei, pelo pouco que vivi.

Me acho o centro de tudo e o princípio da realidade,

Mas quanto mais descubro sobre tudo,

Mais sei da minha simplicidade.

Qual o sentido disso tudo?

Por vezes morro sem saber,

Pois perco meu tempo oprimindo os outros,

Achando que tenho poder.

Do tempo sou uma vítima,

Mas é ele que me conserta.

Me traz uma única certeza

Onde toda verdade é incerta.

N - Logo - separador

Alimento para os vermes

 

Acordo. Café da manhã.

Mente presa numa bolha, 

Como o vinho tapado por uma rolha.

Gasolina. Trabalho.

Trabalho. Casa.

Casa. Dormir.

Acordar. Café da manhã.

Sou como um pêndulo,

E não me vejo como mais que isso. 

Que diferença faz, afinal?

Sou um filho de Cronos,

Mas também sua vítima.

Ó destino cruel!

Nasci de um jeito e permanecerei assim.

Nasci analfabeto e a velhice me tirará as letras.

Gastarei minha vida sendo escravo de um senhor,

Sendo a galinha dos ovos de ouro de alguém.

Escola. Faculdade.

Faculdade. Trabalho.

Trabalho. Aposentadoria.

Aposentadoria. Comida de vermes.

É simplesmente isso.

Fui moldado a ser um servo,

Ganhei correntes ao nascer.

Entre o morto e o vivo só há tempo.

Não sou nada mais ou menos que qualquer famoso por aí.

Comida de verme eles também são.

Vítima da morte serei, assim como meu patrão.

Morte. Sepultura.

Sepultura. Comida de verme.

Comida de verme. Esquecimento eterno.

N - Logo - separador

Corvo Sombrio

 

Caiu-me uma pena do mais cruel dos corvos,

A mais sombria de todas as aves,

A qual leva consigo todo ser cujos pulmões o sustenta.

Não leva-me agora, ó Corvo Sombrio!

Sei que és tu o destruidor de sonhos,

Mas também o remédio para todos os problemas,

A tal medicação que ninguém quer tomar.

Ó, Corvo, levaste consigo meus ancestrais,

Os quais passaram por ti em todas as épocas,

Lembrando-nos que somos apenas um pêndulo,

O qual espera chegar a um extremo para voltar a outro!

Tu és a visita que chega em toda casa,

O rebaixador de todo nobre,

A traça que corrói o ouro e o cobre,

O que iguala o rico e o pobre.

Lembras tu que somos apenas alimento para larvas,

Adubo para a terra e alimento para as plantas.

Só visitai-me, ó Corvo, no dia em que eu escolher 

E quem dera pudesse escolher o tal dia!

Nada tenho a ver com as moscas e os crustáceos,

Mas sei que com eles compartilho algo:

Tu irás levar cada um deles igualmente,

Cada um em seu tempo,

Mas uns mais cedo que os outros!

Ó, ave sombria, devolve para cá os pobres indigentes,

Aqueles com os quais a sociedade não se importa,

Aqueles que não deram falta a ninguém e por isso levastes

Devolve aqueles que sumiram ao mar,

Cujas mães e esposas ainda esperam no cais.

Devolve também os meninos e meninas que não chegaram a alcançar a velhice.

Sei que tu não gostas da justiça

E leva consigo tanto o culpado quanto o inocente,

Trazendo em tuas asas aquele que nunca teve nome ou sobrenome.

Nicolas Souto

Nicolas Davi da Silva Souto nasceu em Jaboatão dos Guararapes, PE, em 2007. Sua carreira como escritor começou em 2025, através da antologia “Sombras do Amanhã”, onde publicou o poema “Vísceras de um louco”. Mais tarde, no mesmo ano, publicou o poema distópico “A Ascensão dos Andrícones” na antologia “Os Melhores Escritores 2025”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *