NOSTALGIA
Os domingos eram sempre uma
provação: insônia o dia
inteiro,
palavras de um vazio cheio,
gorgolejos na garrafa de vidro de
Coca-Cola,
Cachorros da vizinhança,
o meu cachorro,
latidos,
nem sempre o macarrão, mas
quase sempre.
Nos domingos eu me desfazia de qualquer
Alegria do porvir,
tudo era já o passado e mesmo o futuro
era coisa que dava a impressão de
não vingar.
Nos domingos, quando
iam embora os últimos restos da
sobremesa,
quando minha mãe
secava a pia e começava a ferver a
Água para o
Café…
Eu sentia no peito,
No corpo – o sangue,
O cortisol,
Eu sentia uma coisa em mim falhar.
O domingo era o tropeço
Final
De uma série de tropeços aos
poucos.
O domingo era como a
Quebra
O estardalhaço silencioso,
a ausência muito presente de
alguém que não viria.
E como eu ficava feliz quando alguém ia
chegar.
“LAR”
Encostado,
sentado,
deitado,
parado.
Relógio, apito do trem, aviso do piloto,
do comandante,
do diretor,
daquele que move a cana do leme,
daquele que faz, mas não espera,
daquele que vai,
daquele que é sempre Norte,
daquele que é sempre cima.
Eu, não.
Eu não assisto – eu suponho;
Eu não leio – eu escrevo;
Eu não dirijo – sou passageiro;
Eles: verbo;
Eu: adjetivo,
substantivo,
advérbio,
numeral: um dois, três…
E ele nunca chega,
ele nunca vem,
ele nunca diz
seja sim, não, talvez…
Eis o meu estado,
Que chamam os gramáticos: verbo de ligação.
Eis o seu estado,
que se transforma, caso queira, caso insista,
verbo de ação.
Quatro, cinco, seis…
Horas,
dias,
noites,
Madrugadas.
Mas quando, enfim,
por acaso ou acidente,
ele vier,
estará já o meu corpo frio,
e as portas com cupins,
e a casa – não mais lar, nem água, nem brasa,
será apenas a Casa.
MOTHER LOVE
Sempre em busca de
Alguém
que me dê uma
boia
desta aberração de um
Mar tempestuoso
de grutas úmidas
e inabitáveis.
Dizer do meu medo é
inútil – aprendi,
pois não há salva-vidas
enquanto dependo – doente – de ti.
Não sei o que é ir embora,
a não ser o
Amor de mãe
que vem todo e sem demora.
Mas a mãe, mulher-gente,
também um dia não mais…
A mãe e seu colo me ardem,
e sem ela sou incapaz.
BEHAVIOUR
Meu pai colocava a fita K7 do
Pet Shop Boys
em Being Boring eu
menino seis sete anos,
apagava os olhos como se
o sistema do meu
corpinho avisasse algum
desligamento.
A voz dos irmãos gays da Inglaterra
me fazia dormir um sono
de profundezas
exatas
no peito do
meu
Pai.
Dia desses no
Divã,
sem olhar para mim nem para o
analista,
eu disse: sinto falta de poder deitar no peito do meu pai para dormir
ouvindo
Pet Shop Boys
chorei quando disse isso,
o analista deve ter sorrido,
disse: se você deitar no peito do seu pai, hoje, vai esmagá-lo.
Crescer é muito triste.
Nunca encontrei outro homem como o meu pai para
Amar.
LATIDO
Amo os cães
da mesma
forma que
amo o
acontecimento
do [rugido]
de um [mamífero];
Amo os cães,
dócil uivar,
um dia, [lobos],
hoje espelhos de
[cachorros].
Amo tanto o
[cheiro] do
pelo e a
imensidão
gelada do
[focinho]
dos
cães.
Só não o [latido],
pois é quando os cães
não querem me
Amar.

Gabriel Biasetto é psicanalista em formação, escritor, educador e artista do verbo. Propositor de escrita criativa. Publicou, em 2021, o romance Quando ainda era verão (Editora Patuá), é professor de Português/Redação/Inglês do Colégio Porto Bragança e idealizador da oficina de escrita criativa Verbo em Movimento, ministrada no Edith Cultura, em Bragança Paulista e da oficina online Mar Vermelho: a escrita do oceano e do céu, além da execução da oficina Escrever a dor: a paixão é sempre uma ferida? E da série de oito encontros Verbo [ainda] em movimento, oficina realizada entre março e abril de 2025, na Casa Lebre, em Bragança Paulista.

