ADRIANA MASSOCATO – Enquanto caía me distraí [resenha]
ADRIANA MASSOCATO – Enquanto caía me distraí [resenha]

ADRIANA MASSOCATO – Enquanto caía me distraí [resenha]

por Mayk Oliveira

poeta e colunista da Revista Navalhista

Outros jeitos de flutuar

Saber o significado de um poema não é o bastante para experienciá-lo, afirmou Jorge Luis Borges em uma de suas conferências. Para ele, um fragmento ou um verso deve provocar no leitor uma emoção estética imediata e inexplicável. A linguagem funciona de forma metafórica, e a poesia acontece no encontro do o texto e com o leitor, ativando uma memória ancestral.

É por esse caminho que adentramos em Enquanto caía me distraí (Urutau, 2026, novo livro de Adriana Massocato, cuja a única percepção que se tem é de que não é preciso ampliar o mundo para alcançá-lo, pois, seja num gesto, distração, queda, ou num pequeno acontecimento se pode concentrar uma existência inteira.

Se a tradição costuma pintar a queda como um raio vertiginoso caindo de cumes inacessíveis, em Enquanto caía me distraí (Urutau, 2026), de Adriana Massocato, o declínio ganha outra física. A queda não se resume a despencar do alto, mas pode ser, e é, um outro jeito de cair para dentro da existência. A força desse mundo ganha tanta densidade terrena que a palavra céu só consegue se inscrever duas vezes ao longo das páginas.

É na textura das pequenas distrações diárias, nos laços e na carne que o tombo se desacelera e vira permanência. A autora nos lembra que o abismo mais profundo e radical é este mesmo onde pisamos: o chão de ser humano.

Ao rumarmos pela estrada da perda e da instabilidade, a travessia nos força a abandonar o conforto de quem julgávamos ser, nos deslocando das alturas construídas pela ilusão de controle. Em Enquanto caía me distraí (Urutau, 2026), Adriana Massocato transforma o ato tortuoso de despencar em um reencontro com a própria origem.

Longe de representar uma derrota ou um simples colapso, a queda é o movimento que desenterra raízes, trazendo à tona a cultura, os traumas, as heranças familiares, os medos e os desejos reprimidos. Ao cair da própria altura, o sujeito rompe com os padrões impostos e com as máscaras sociais, descobrindo que o chão não é o fim, mas o único território em que a busca pelo sentido e o crescimento real se tornam possíveis.

O livro divide-se em três partes principais. Identificamos na primeira parte, Enquanto caía o foco no processo de declínio, na sensação de dor, na vulnerabilidade e no peso das expectativas sociais e familiares. O eu lírico assume a figura de um passarinho que visita o passado, rememorando acontecimentos e confrontando-os com o presente. É uma ave cinza cruzando um céu de estanho, imagem que traduz a atmosfera de desconforto que nasce desse confronto entre memória e presente. Essa tensão é potencializada pela condição feminina, que atravessa a experiência do eu lírico e amplia a sensação de aprisionamento. O passarinho se reconhece preso em si mesmo, e é esse reconhecimento que constitui sua queda. Massocato sustenta a “persona” para o mundo, o choque com as próprias fraturas (“costuras feitas à mão”) e o retorno reflexivo às raízes e à ancestralidade.

No meu peito

um pássaro preso

debatendo-se.

Para libertá-lo

só matando o hospedeiro

rasgando-lhe o peito

com faca afiada.

O medo de fracassar vem sinalizar a fragilidade daquilo que nos constitui, alertando para o risco de se dissolver na passagem do tempo. Em meio a esse colapso iminente nos poemas de Adriana Massocato surge como ancoragem potente: a distração.

É por ela, que na segunda parte do livro, Me distraí, a poeta explora a ação e a experiência do presente através de poemas cujos títulos são verbos no gerúndio (Sendo, Vendo, Esperando, Escutando, Criando, Amando, Escrevendo). A sequência verbal estabelece o movimento continuo para se manter no presente, e nesse movimento, a distração assume significado de “atenção às coisas que acontecem” enquanto o tempo finda. Percebemos que é a distração, ou a desaceleração da queda, por meio do cotidiano, dos afetos, da maternidade, das conexões com outras mulheres e dos pequenos rituais que mantêm o sujeito vivo.

Massocato então nos sugere que é ao se distrair que o sujeito recupera a força dos pequenos rituais: o hábito de escrever, o sonho, o carinho dispensado ao preparo de uma refeição e o ato de amar alguém. Essas pequenezas do cotidiano opõem resistência ao absurdo da impermanência. Como nos versos do poema distração:

Tragicamente aceito

ir em direção ao verme

As paisagens que invento ao caminho

servem para não ver-me.

Não é evitando a queda ou resgatando o indivíduo ileso a solução, mas sim, permitindo que ele continue despencando sem se apagar por completo. Frente à ambivalência das tradições — que ao mesmo tempo sustentam e aprisionam —, o verso acolhe o ordinário como o único modo possível de permanecer.

Enquanto que na terceira parte, Farol (ou manual para lidar com quedas) está concentrada na busca por direção, na redefinição da identidade e no papel da própria escrita. A poesia deixa de ser o registro do tombo para se tornar a ferramenta de ancoragem e emancipação, onde o nome e a permanência ganham centralidade. Vemos nos versos de Terras de imagens:

Porque não havia mais para onde ir
parei para descansar na terra das imagens.

A herança recebida, que nem sempre é amparo, revela com mais frequência um peso com o qual negociamos, negando, confrontando ou reinventando suas marcas.Vemos nessa terceira parte um entusiasmo genuíno em compartilhar as experiências de voo. Situada, a poeta escreve cartas como manuais, instrutivas, no movimento de cair em si, dando farol para quem recebe suas palavras em Farol das trilhas:

O movimento importa mais. Mudar de lugar importa mais. Mudar os lugares importa mais
ainda. À deriva também se chega. Aonde? A onda bate e empurra. Aproveita a força da
onda e vai
.

Podemos afirmar, que em Enquanto caía me distraí (Urutau, 2026), Adriana Massocato explora essa tensão entre a bagagem que carregamos e a vertigem do próprio existir. Entre pássaros, elementos da natureza, laços familiares e o desejo de voo, a poesia constrói a rota de uma travessia inescapável. À medida que a queda acelera rumo ao inevitável, a distração intervém como uma força de desaceleração. É ao se deter nos pequenos espantos do mundo que o sujeito descobre que o tombo não é apenas ruína, mas a oportunidade de carregar a si mesmo com mais leveza enquanto despenca.

A experiência de despencar revela um paradoxo de que embora a gravidade nos puxe para baixo, o declínio transforma-se no único caminho para àquilo que verdadeiramente temos: as descobertas. O que se constata em Enquanto caía me distraí (Urutau, 2026), é que Adriana Massocato mostra que certas quedas, longe de significarem perda, aproximam o sujeito de suas próprias raízes, desenterrando a memória, a ancestralidade e o chão esquecido.

Antes do chão final, há o intervalo em que a vida inteira reluz. A poesia recusa saídas prontas ou conclusões definitivas para as dores do existir. Em vez disso, entrega-nos afetos, imagens e pequenas ancoragens diárias, lembrando que habitar a impermanência e a vulnerabilidade é, por si só, a forma mais honesta de continuar.


Adriana Massocato

Adriana Massocato nasceu em 1980. Atualmente reside em Tapes (RS). Estreou na poesia com “Da queda enquanto voo” (Urutau, 2023). Participou da “Antologia de poesia latino-americana contemporânea” (Peabiru, 2025) e da “Antologia Palavras são Navalhas“, vol.1 (Sertão Pasárgada, 2026). Seu novo livro, Enquanto caía me distraí foi lançado pela Urutau em 2026.

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