GABRIEL BIASETTO – 5 poemas
GABRIEL BIASETTO – 5 poemas

GABRIEL BIASETTO – 5 poemas

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NOSTALGIA

 

Os domingos eram sempre uma

provação: insônia o dia

inteiro,

palavras de um vazio cheio,

gorgolejos na garrafa de vidro de

Coca-Cola,

Cachorros da vizinhança,

o meu cachorro,

latidos,

nem sempre o macarrão, mas

quase sempre.

 

Nos domingos eu me desfazia de qualquer

Alegria do porvir,

tudo era já o passado e mesmo o futuro

era coisa que dava a impressão de

não vingar.

 

Nos domingos, quando

iam embora os últimos restos da

sobremesa,

quando minha mãe

secava a pia e começava a ferver a

Água para o

Café…

 

Eu sentia no peito,

No corpo – o sangue,

O cortisol,

 

Eu sentia uma coisa em mim falhar.

 

O domingo era o tropeço

Final

De uma série de tropeços aos

poucos.

 

O domingo era como a

Quebra

O estardalhaço silencioso,

a ausência muito presente de

alguém que não viria.

 

E como eu ficava feliz quando alguém ia

  chegar.

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“LAR”

 

Encostado,

sentado,

deitado,

parado.

Relógio, apito do trem, aviso do piloto,

do comandante,

do diretor,

daquele que move a cana do leme,

daquele que faz, mas não espera,

daquele que vai,

daquele que é sempre Norte,

daquele que é sempre cima.

 

Eu, não.

Eu não assisto – eu suponho;

Eu não leio – eu escrevo;

Eu não dirijo – sou passageiro;

 

Eles: verbo;

Eu: adjetivo,

substantivo,

advérbio,

numeral: um dois, três…

 

E ele nunca chega,

ele nunca vem,

ele nunca diz

seja sim, não, talvez…

 

Eis o meu estado,

Que chamam os gramáticos: verbo de ligação.

 

Eis o seu estado,

que se transforma, caso queira, caso insista,

verbo de ação.

 

Quatro, cinco, seis…

Horas,

dias,

noites,

Madrugadas.

 

Mas quando, enfim,

por acaso ou acidente,

ele vier,

estará já o meu corpo frio,

e as portas com cupins,

e a casa – não mais lar, nem água, nem brasa,

 

será apenas a Casa.

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MOTHER LOVE

 

Sempre em busca de

Alguém

que me dê uma

boia

desta aberração de um

Mar tempestuoso

de grutas úmidas

e inabitáveis.

 

Dizer do meu medo é

inútil – aprendi,

pois não há salva-vidas

enquanto dependo – doente – de ti.

 

Não sei o que é ir embora,

a não ser o

Amor de mãe

que vem todo e sem demora.

 

Mas a mãe, mulher-gente,

também um dia não mais…

A mãe e seu colo me ardem,

e sem ela sou incapaz.

 

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BEHAVIOUR

 

Meu pai colocava a fita K7 do

Pet Shop Boys

 

em Being Boring eu

menino seis sete anos,

apagava os olhos como se

o sistema do meu

corpinho avisasse algum

desligamento.

 

A voz dos irmãos gays da Inglaterra

me fazia dormir um sono

de profundezas

exatas

no peito do

 meu

Pai.

 

Dia desses no

Divã,

sem olhar para mim nem para o

analista,

eu disse: sinto falta de poder deitar no peito do meu pai para dormir

ouvindo

Pet Shop Boys

 

chorei quando disse isso,

o analista deve ter sorrido,

disse: se você deitar no peito do seu pai, hoje, vai esmagá-lo.

 

Crescer é muito triste.

 

Nunca encontrei outro homem como o meu pai para

Amar.

 

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LATIDO

 

Amo os cães

da mesma

forma que

amo o

acontecimento

do [rugido]

de um [mamífero];

 

Amo os cães,

dócil uivar,

um dia, [lobos],

hoje espelhos de

[cachorros].

 

Amo tanto o

[cheiro] do

pelo e a

imensidão

gelada do

[focinho]

dos

cães.

 

Só não o [latido],

pois é quando os cães

não querem me

Amar.

Gabriel Biasetto

Gabriel Biasetto é psicanalista em formação, escritor, educador e artista do verbo. Propositor de escrita criativa. Publicou, em 2021, o romance Quando ainda era verão (Editora Patuá), é professor de Português/Redação/Inglês do Colégio Porto Bragança e idealizador da oficina de escrita criativa Verbo em Movimento, ministrada no Edith Cultura, em Bragança Paulista e da oficina online Mar Vermelho: a escrita do oceano e do céu, além da execução da oficina Escrever a dor: a paixão é sempre uma ferida? E da série de oito encontros Verbo [ainda] em movimento, oficina realizada entre março e abril de 2025, na Casa Lebre, em Bragança Paulista.

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