olhos
teus olhos afogam quem ousa olhar
olhos de fundo de poço escasso
esses tão profundos
que aspiram toda e qualquer praga vinda de fora
não olhos de esfinge
são castanhos de natureza selvagem
ligados ao micélio que tudo renasce
refletindo como água cristalina em minha íris
pupila de balão de ar quente
1:06h
me dilacero
na sorte de achar quem sabe
um toque como o teu
me desmancho em outros corpos
em busca do teu salivar
injeto perversões fantasmagóricas
comprometidas de um ser em frangalhos
minha alma ecoa um som transparente
desgastado por agulhadas
estas também perversas
ação vã de ter a fina lâmina em meus tecidos
um modo de te fazer estátua
um modo de jamais te esquecer em plenos braços
preces vindas de um corpo
condenado ao caixote farpado de carvalho
metrópole
linhas brancas mancham o concreto
essas que convulsionam ao passar dos motores
luzes são apagadas nas construções
a madrugada tem sua beleza particular
faíscas de tijolos e azulejos
vultos sem identidade
folhas dançam livremente sem impulso
lamparinas são velas
a sua apagada
sinto com ardor sua não presença
junto a melodia que sintetiza em meus tecidos
o farfalhar hipnotizante
a minha frente
Insomnia II
A noite é um demônio
regada a comprimidos
a noite é meu lastro
doentio
rastejando como a penumbra do menino Pan
estica e brinca no chão dos morcegos
a noite se exibe
em uma coreografia não ritualística
dedicada unicamente aos mortais
cálice
colírio ardente maldito
me tornei fissurado em ti
até nos mais fraternos momentos
meu corpo é um cálice
em vermelho sangue que transborda
caro colírio
que me corrói epifanicamente
amo-te da maneira mais honesta
que alguém poderia amar
me desculpe
continuarei a transbordar deste cálice
e consumir este colírio
para onde foi a doce esperança juvenil?
sonha com esquinas e avenidas neblinas
com o movimento arrastado dos semáforos
com um bilhão de sapatos não sincronizados
quase uma criatura não corpórea
se alastra no tempo urbano
no asfalto espelhado
o prazer em ser desconhecido
um mero rastro percebido no espaço-tempo de
um relógio quebrado
em meu silêncio ecoa meu maior grito
feito de tinta e celulose
tinta rubra transplantada do meu sangue
quem sou eu?
espírito transeunte adoecido
renegado ao aprisionamento
de pertencer a um corpo
cuja putrefação aguarda à espreita

Nefertiti Beckman é estudante de Comunicação Social – Jornalismo com disposição para se aventurar na fotografia digital e analógica. Atuou como curadora no Acervo Bem-Te-Vi e atualmente escreve matérias esporádicas voltadas para o jornalismo cultural no site da revista Her Campus.

