CARTA — BRASAS DO DIABO
Jamais serei a que você conheceu.
Mudei o corpo para que não me reconheças nem na próxima vida.
Tatuagens, cabelo, língua, direção, nome, alma: tudo estranhos a ti.
Uso quem me serve. Com arte, com carinho. Aprendi a chamar isso de amor e finjo que acredito.
Acaricio como quem consome; beijo com técnica onde tu não sabias.
Não fico embaixo. Não abro gavetas.
Não dou pé nem pretexto.
Você pintou o apartamento de branco para cobrir o mofo do que éramos.
Cobriste de tinta o que eu gostava. Cobriste o prometido nós com verniz.
Foi tão fácil. Foi tão tua prática.
E quando me empurraste ao abismo, eu descobri como vender a queda.
Vendí mi versión.
Não escrevo tu história por ética. Escrevo a minha e a coloco à venda.
Quando Deus não veio, os rituais chegaram.
Tarja preta, velas, altas, santos que não atendem, psicólogos que repetem protocolos.
Rogai para que nos atendam, rogam. E o vazio responde com ofertas que têm preço.
E se o Diabo sou eu?
Se eu me encarnar como aquilo que tu teme, eu apago teu sonho com as mãos.
Não chames destino. Antes de morrer, saiba: sou eu.
Que saudade de nunca ter te conhecido.
CONSOMÊ — AZEDAMENTO E DESCARTE
O que sobrou foi guardado em potes de plástico que cheiravam a cebola.
Chamaram aquilo de memória. Eu chamei de descarte.
A abundância virou resto e o resto tem cheiro de abandono.
Guardaram o melhor nas tampas tortas e devolveram a nós o que não cabia mais em prateleira.
A diluição veio. O caldo ficou ralo, a língua procurou o ardor e não encontrou.
Serviram em tigelas várias, racionaram sabor como se compaixão fosse tempero.
Foi quando aprendi a diferença entre banquete e indústria de ração.
A memória que vendem é um produto com data de validade.
E nós, que fomos mesa, viramos embalagem.
CONSOMÊ — RITUAL DE ABUNDÂNCIA
Queríamos tudo de uma só colherada.
Não por carência, por rito.
O corpo era refeitório, a boca altar.
Gengibre, pimenta, melancia, sal que arranca som da pele.
Comíamos como quem executa um sacrifício de prazer, sem pedir licença ao amanhã.
A saliva vinha primeiro e politicamente; o resto obedecia.
Era cozinha de guerra: camada sobre camada até a gula virar liturgia.
Nada moderado. Nada dividido. O excesso era a forma mais honesta de ofício.
Quando a língua falou sem tradução, entendi que havia outra lei.
A lei dizia: pede mais.
Quem oferece recua, quem nega prova covardia.
E então nos lambuzávamos de inteira presença, todas as facas sem gala, todas as bocas sem perdão.
Não foi caridade. Foi pacto.
E pactos não se renegociam.
O TIJOLO
O sino não pergunta. Ele chama.
E quando o sino chama, alguém levanta. Nem sempre por escolha.
A cidade aprendeu que o peso chega com nome, e o nome gruda no tijolo como carne queimada.
O forno é uma boca de pedra. Antiga, sem explicação.
Lá dentro, o tijolo espera.
Não vem com manual. Vem com calor.
Quem toca entende: não é objeto, é sentença.
Alguns tijolos trazem nomes de gente.
Outros, de coisas que devoram gente.
Há tijolos chamados Mãe.
Há tijolos chamados Empresa.
Há tijolos que são um sobrenome inteiro.
Cada um segura como pode: no colo, no ombro, no peito.
Uns embrulham em pano limpo.
Outros deixam arder até cheirar a osso.
Alguns fazem suportes. Outros dizem que conforto enfraquece.
O tijolo não reage. Só pesa.
Quando cai, não vira cinza. Lascam-se as bordas e um pedaço se vai.
Quem assiste não consola.
Um vendedor de picolé grita preço.
A cidade continua como se nada tivesse caído.
O tijolo não é lição.
É herança.
E herança não se discute.
Se carrega até o corpo aprender a forma do peso.
PARA SEMPRE SE GARANTE A VÁCUO
Tudo o que respira apodrece.
Para conservar, é preciso sufocar o ar.
Nenhum afeto sobrevive ao atrito.
O toque é uma forma lenta de decomposição.
Havia estoque. Havia receita. Havia até entusiasmo.
Mas cozinhar estraga. Preparar estraga.
Falar estraga mais do que tocar.
Por isso, o prato permaneceu cru.
E o cru, quando selado, dura mais do que o servido.
Agora existe o lacre.
Sem perguntas. Sem resposta. Sem uso.
O silêncio conserva melhor do que a fé.
Não tocar, não desejar, não olhar, e se possível nem pronunciar o nome.
Só assim algo permanece. Eternidade é vontade selada em silêncio.
HERANÇA INFLAMÁVEL
Herdei a loucura dela.
Não herdei só o colo, nem a comida, nem os nomes.
Herdei o incêndio no jeito de respirar.
Herdei a vontade de pôr fogo no que pesa.
Ela regava o jardim nua. Não foi gentileza. Foi declaração.
Os que passam se curvam por medo, não por piedade.
O corpo dela ensinou às ancas a linguagem do perigo.
Parir treze foi profissão. Sobreviver foi sorte.
Mas a sorte não me interessa. Interessa-me o fósforo.
Não me peça subtileza.
Não espere prova de bondade.
Se preciso, acendo.
Queimarei o que for preciso.
Sete gerações, ou uma só.
GATILHOS
Incenso. Kombucha. Xamãs europeias. Scarface. Respiração profunda.
Confia em mim. Canudos. Nomes que começam com K.
Você não ouviu, mas eu fui para Lisboa.

Danielle Cunha Siqueira é recifense, jornalista e mestre em Comunicação pela New School, em Nova Iorque. Ghostwriter desde os 16 anos, escreveu para muitos antes de assumir a própria voz. Foi diretora de comunicação da Ella Global Community e hoje publica em nome próprio. Não escreve para provar nada, escreve para manter vivo o que ainda pulsa.
