O sol do meio-dia esquentava minha cabeça, eu estava no ponto de ônibus esperando o transporte chegar para que eu pudesse voltar para casa. O ônibus não demorou muito a aparecer, mas estava muito cheio, e tive que passar me espremendo entre as pessoas até chegar ao meio dele. Me segurei em uma das barras e, por algum milagre, vi um único lugar vazio ao lado de uma senhora bem magra de cabelos grisalhos. Ela parecia ter uns setenta anos e tinha uma postura ereta impecável, talvez no passado ela poderia ter sido bailarina, ou ter praticado alguma arte marcial. Me espremi mais um pouco e pedi licença para que eu pudesse me sentar. Ela não olhou para mim, continuou olhando para frente e apenas moveu as pernas para eu conseguir passar. Isso me deu um calafrio, mesmo assim, me sentei ao lado dela.
O ônibus passou por uma área militar, que tinha um muro grande e muitas árvores que faziam sombra e aliviava o calor que eu sentia. Notei que a senhora ainda está olhando para o mesmo lugar. Curiosa, tento encontrar o que ela estava olhando, mas não achei. Em vez disso, vejo uma jovem que deveria ter a minha idade, ou talvez menos, com certeza não passava dos dezoito anos. Ela segurava um bebê com uma mão, enquanto a outra segurava uma das barras do ônibus. Mas ela não estava tão longe, como não a vi antes? Me levanto e falo “Moça, pode sentar” ela me olha sem expressão, mas me parecia cansada “Não precisa levantar”, ela responde, “mas você pode segurar ela para mim” ela estende o braço que segura bebê. “Claro…” respondo meio desconfiada, estendo as mãos e a pego.
Enquanto me sento, tento acomodar a bebê em meu colo de um jeito que o sol não a incomode. Sem querer, bato meu cotovelo no braço da senhora. “Desculpa!” falo, mas ela não me responde, continua olhando para a mesma direção. Procuro novamente o que ela está olhando e não vejo mais a mãe da bebê. Meu coração acelera tão rápido que consigo ouvir meus batimentos. Olho para todos os lados completamente desesperada. Onde ela estava? “Você não vai mais vê-la.” Disse a senhora do meu lado, que até então, estava calada. Olho para ela assustada “O quê?” do que ela está falando, como ela sabia que eu não veria mais aquela mulher? Ela segura na minha perna com uma mão fria e enrugada, olha no fundo dos meus olhos e diz, “É um presente, ela escolheu você.” Em seguida, abre um sorriso macabro e arregala os olhos.
Completamente apavorada, me levanto rápido e seguro a bebê com mais força para conseguir passar entre as pessoas. Isso faz com que a bebê comece a chorar, mas ignoro o choro e me concentro em chegar mais rápido na porta traseira do ônibus. Por sorte, ele estava perto do próximo ponto. Desci do ônibus e comecei a voltar para o ponto anterior, talvez a mãe da bebê ainda estivesse lá, esperando para pegar outro ônibus, ou talvez ela tenha se arrependido e esteja voltando para pegar de novo o ônibus que estávamos. Mas depois de andar por um bom tempo debaixo do sol quente e com um bebê chorando no meu colo, desisti de procurar essa mãe e comecei a pensar em um plano B.
Me sentei no banco onde fica o ponto de ônibus para pensar melhor. Minha primeira ideia foi levá-la aos bombeiros, é isso que as pessoas fazem quando querem deixar um bebê em um lugar seguro, certo? O ponto estava vazio e onde eu estava fazia sombra, no momento em que relaxo, reparo na bebê pela primeira vez. A bebê que eu segurava não deveria ter mais de um ano, era bem alimentada e usa um body branco sem nada que remetesse ao seu sexo, ou qualquer outro tipo de identificação. Pressuponho que seja uma menina, por ter ouvido a jovem mãe refere-se ao bebê no feminino. Ela já havia parado de chorar e agora olhava para mim, seus olhos eram bem escuros e brilhantes, mas eles não brilhavam por conta das lágrimas. Tinha algo neles que me hipnotizava, eu estava completamente presa aquele bebê, praticamente em transe. O que me trás de volta a realidade é a chegada de outro ônibus e a movimentação de algumas pessoas saindo dele. Uma mulher, vestindo uma bermuda jeans e uma camiseta preta escrito “Paris”, sentou-se do meu lado e olhou de canto para a bebê. A presença dela não me ameaçava em nada, mas eu senti a necessidade de sair dali o mais rápido possível. Decidi levar a bebê para minha casa, lá eu poderia pensar melhor.
Eu não tinha muito dinheiro, mas o que eu tinha era suficiente para pedir um taxi, e foi o que eu fiz. Chegando em casa, procurei pelo meu pai, mas ele não estava. Deixei a bebê deitada na minha cama e finalmente meus braços sentiram o alívio de não carregar nada. Observo-a mais uma vez, o que estou fazendo? Por que trouxe esse bebê para casa? Sento-me na minha cama e solto um longo suspiro, decido ligar para as autoridades, esse bebê não era meu e eu não a queria. Pego meu celular e encaro os números, qual era mesmo o número da polícia? Ou eu devia ligar para os bombeiros? Não, a polícia seria a melhor opção. Mas qual era mesmo o número? Abro o aplicativo do Google, mas não entendo as letras e não consigo pesquisar. Enquanto tentava me concentrar, escuto aquele choro alto e estridente mais uma vez. Deixo o celular por um tempo e vou dar atenção a bebê, ela deveria estar com fome, ou será que estava suja? Mas não sinto nenhum odor vindo dela, então deduzo que o motivo do choro pode ser fome.
Vou até a cozinha carregando-a nos braços, abro a dispensa “o que eu posso dar para você comer?” pergunto olhando para ela, mas obviamente, não esperava uma resposta. Decido que iria fazer um leite quente. Deixo-a deitada no sofá com algumas almofadas em volta para não correr o risco de ela cair, e volto para a cozinha. Começo esquentando a água e procuro algum recipiente para poder alimentá-la, sei que em algum lugar deve ter uma mamadeira antiga. Há alguns anos minha tia, irmã do meu pai, teve uns problemas com o marido e veio passar uns meses com a gente. Ela trouxe junto com ela a sua filhinha, Julia, que ainda tinha meses na época. Lembro que compramos algumas coisas para a bebê e que minha tia tinha deixado algumas dessas coisas para trás quando elas voltaram. Encontro uma caixa de plástico transparente e acho uma mamadeira pequena dentro dela. Lavo a mamadeira e coloco duas colheres de sopa de leite em pó, despejo a água que eu esquentei e sacudo a mamadeira para que o leite dissolva. Ela deveria mesmo estar com fome, já que não tive dificuldades para fazê-la comer.
Depois que a alimentei, ela dormiu. Botei ela de volta na cama e peguei meu celular para tentar ligar para a polícia de novo, mas ele não ligava. Não vi que o celular estava descarregando quando tentei ligar pela primeira vez. Fui atrás do meu carregador e coloquei celular na tomada, mesmo assim, ele não ligou. Volto ao meu quarto e me deito ao lado da bebê, a tranquilidade do seu sono me influencia a me juntar a ela. Sem que eu perceba, já estava dormindo tão profundamente quanto a bebê.
Mais tarde, sinto um peso em minha cama, como se alguém estivesse sentado nela. Abro os olhos devagar, meio adormecida, e vejo meu pai ninando a bebê em seu colo, com o mesmo sorriso que a senhora do ônibus tinha no rosto quando olhou para mim. “Pai…” chamo-lhe com a voz falhada por conta do sono. “Shiii, ela está dormindo!”. Ele me responde sem olhar para mim “Que presente maravilhoso, minha filha!”. Respondo meu pai com um tom irritado: “Eu não quero esse presente!”. O que havia de errado com meu pai? “Mas é seu, ela escolheu você!”. Antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa, um feixe de luz invade o meu quarto pela brecha da cortina, e eu desperto assustada. Olho rápido para todos os lados e meu pai não está no meu quarto, nem a bebê. Esfrego os olhos e sinto um alívio instantâneo, por saber que tudo não se passava de um sonho, ou melhor, um pesadelo.

Tarsila Alves nasceu na cidade de Salvador, em 2005. É estudante de Ciências Sociais da Universidade do Estado da Bahia, iniciou seus estudos em 2024.2. Desde pequena tem o sonho de publicar suas histórias, e atualmente divide seu tempo em estudar para a faculdade, ler muitos livros e escrever.

![TARSILA ALVES – O bebê no ônibus [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/08/WhatsApp-Image-2025-10-12-at-12.36.42-scaled.jpeg)
Já acabou tão rápido? Com certeza quero mais contos de Tarsila. Ansiosa para ler mais!