O músico surgiu em uma enorme praça cheia de bancos, tão grande que não conseguia ver seu fim. Praça repleta de personagens estranhos. Não tinha a menor ideia de onde estava. Um ser meio humanoide, com uma grande cabeça careca, olhos enormes, pele meio verde e cinza e com um longo rabo veio dar as boas-vindas ao mais novo morador desse lugar, seja lá que lugar esse fosse.
— Olá, músico. Acabou de chegar, né? Deve estar cheio de perguntas não? Prazer, sou o marciano. Diga-me qual a última coisa de que se lembra?
— Estava em uma esquina lotada de gente, em uma grande cidade. Tocava para a multidão. Tinha um chapéu virado para receber uns trocados dos ouvintes… Peraí, como você sabe que eu sou músico?
— Você está segurando um estojo de violão, amigo. Conte-me mais. Qual é o seu nome? Tem família?
— Ah…Não sei meu nome. Não, não lembro de nenhuma família.
— Entendo, um personagem menor. O escritor ou escritora que criou você acabou apagando-o da história. Aqui é o lugar onde personagens de romances, contos, poemas e crônicas vêm parar quando são apagados.
— Apagado? Por quê?
— Eu vou saber? Bem, no meu caso acho que foi o rabo. Um marciano com um rabo é uma péssima ideia. Você? Não faço ideia.
Uma moça apareceu do nada acompanhada por um coelho branco.
— Olá, músico, eu sou Alice e esse é o coelho. Que tipo de música você toca?
— Para esses eu tenho uma boa teoria, músico! — disse o marciano. — O escritor aqui…
— Ou escritora —, interrompeu Alice.
— Sim, sim…vou chamar de divindade daqui para frente, ok? Não quero discutir com você de novo. — Alice ficou feliz com a solução.
— Como eu ia dizendo, a divindade aqui desses dois deve ter consumido muito de alguma coisa, talvez álcool, vou saber, e começou a escrever sobre uma menina que entrou em uma toca de coelho. Quando voltou a si, percebeu que desperdiçou sua criatividade começando uma história já escrita. Apagou Alice e o coelho.
— Toca algo para a gente, músico —, pediu o coelho.
— Calma, eu não sei o que eu toco…! Peraí, deixa eu ver se entendi direito, todos os personagens que os escritos…as divindades apagam vêm parar aqui?
— Não! —, respondeu o marciano. — Existem infinitos lugares como este, para diferentes eras e até mesmo na mesma época, vai saber. Não acho que aqui tenha algum personagem que nenhuma divindade famosa apagou. Estamos em um lote das amadoras.
— E como você sabe disso tudo? —, perguntou o músico.
— Talvez porque sou um marciano que quase conquistou a humanidade com facilidade e aprendi todos os seus segredos— falou com empáfia para logo depois abaixar a cabeça e sussurrar:
— Se não fosse por esse maldito rabo.
— Toca para a gente! — pediu Alice.
— Abra o estojo e tente tocar…quem sabe não sai alguma coisa? — disse o coelho.
Uma cabeceira de mesa saltitou em direção ao grupo.
— Um músico, que legal! Eu só conheço uma música…aquela que tocava quando minha dona dormia com o irmão de seu marido. Eu vi tudinho!
— Deve ser por isso que te apagaram. O que você ia fazer? Contar tudo para o traído? Chantagear a mulher? Em troca de quê? Óleo de peroba? — falou aos risos o coelho de colete.
— Pelo menos eu não sou um filho de plágio! — respondeu uma esfumaçante mesinha de cabeceira.
— Calma, pessoal! Vamos acabar assustando o músico e ele não vai tocar nada…se é que ele toca alguma coisa — falou o marciano em um tom apaziguador.
— Amar é sentir uma dor profunda no coração, ó minha amada, por qual motivo saíste pela porta? Foges dos meus braços e carinhos! — declamou um jovem que chegou na rodinha. — Um músico! Excelente! Toca as românticas? Espero pelo meu amor! Alivie meu coração que é só dor.
—Olá, eu-poético-de-uma-poesia-de-amor-interrompida —, falou a mesinha — Quanto tempo? Por onde você andou?
— Pelos infinitos lados deste lugar, procurando minha amada…que ainda não chegou.
— Ou chegou e está se escondendo de você. Verdade seja dita, seus versos são péssimos — disse Alice, sem tentar disfarçar o bocejo. Sem argumentos, uma singela lágrima escorreu pelo rosto do eu-poético-de-uma-poesia-de-amor-interrompida.
— Ah, um músico! Música, essa deusa tresloucada, filha direta da poesia! Poesia que ilumina os caminhos da humanidade! Inspirem-me, ó musas, para que eu escreva sobre a nobre arte de escrever! —, bradou o triste escritor bêbado metalinguístico. Tinha um cigarro em uma mão, um copo de uísque na outra. Suas roupas estavam esfarrapadas. Virou o copo de uísque, que automaticamente ficou cheio de novo. O cigarro nunca acabava.
O músico tirou o violão do estojo, sentou-se em um banco, cruzou as pernas e apoiou o instrumento na perna direita.
— Eba! O show vai começar! —, disse o rato carpinteiro. Um gato jogou uma rede sobre o rato, que escapou. A sina do gato era nunca pegar o rato. Um verme saiu com metade do corpo para fora de uma maçã para ouvir o músico. Um lobisomem vampiro sentou-se em pose de meditação.
— Espero que seja música clássica, eu gosto de música clássica —, disse o monstro.
Alguém avisou do show para o capiroto. O diabo fez uma pausa na elaboração da conquista do mundo, que começava com a possessão do Edmilson da contabilidade, para se juntar à trupe.
— Se tiver talento, pode assinar um contrato comigo —, disse o mochila de criança de pele azul.
— Pessoal, pelo amor de Deus, silêncio — suplicou o marciano.
Com todos quietos, o músico começou a tocar. Com uma voz melancólica de veludo, cantou “Hang me, oh hang me”, de Dave Van Ronk.
Todos aplaudiram de pé, até mesmo o verme da maçã. A mesinha pediu bis. Não estava sozinha.
— Música folk! Interessante! — disse o marciano enquanto coletava um saco com moedas de ouro do coelho, que apostou que seria MPB.
— Mais uma! — gritou Alice.
Tendo ouvido o burburinho, um homem branco, de meia idade e com camisa verde e amarela caminhou em direção ao grupo.
Alice e o coelho correram para a toca. A cabeceira tombou e se fingiu de morta. O eu-poético-de-uma-poesia-de-amor-interrompida fez-se de louco gritando pela amada. O triste-escritor-bêbado-que-escrevia-sobre-escrever entrou em um coma alcoólico. O rato carpinteiro escondeu-se no estômago do gato, que fingiu que toda aquela história não era com ele. O verme recolheu-se na maçã, que saiu rolando. O lobisomem vampiro também tinha DNA de dragão. Abriu as asas e voou. O diabo azul correu desesperado, fazendo repetidamente o sinal da cruz.
Só o músico e o marciano ficaram.
O estranho dirigiu-se ao músico.
— Amigo! Que bom ter um de nós aqui no meio de um bando de coisas esquisitas! Pátria, Família e Propriedade! Nossa bandeira nunca será vermelha. Jamais!
Com a cabeça baixa amparada pelo seu longo rabo, o marciano deu um suspiro.
— Chato pra…. Não acabou a frase. Todos foram apagados.

Antonio Sodré é formado em Administração Pública e atua na área de ensino superior. Gosta de transformar histórias em contos. Já foi publicado por diversas revistas literárias, antologias e por meio de concursos literários. Ganhador do 5o. Prêmio Literário Máquina de Contos – Graviola Digital (2025), 4 o lugar da 9 o edição do Prêmio VIP de Literatura – A.R. Publisher (2024), semifinalista do 7o. Campeonato de Microcontos – Editora 3 Serpentes (2025), semifinalista do Concurso Literário Viviane Ferreira Santiago (2025).

![ANTONIO SODRÉ – Os apagados [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/01/foto3.jpg)