— Não, Darlene! Eu não vou passar na casa da sua mãe na volta!
— Mas eu estou te pedindo!
César tomou as chaves do carro e saiu esperneando. Em sua cabeça, passavam-se diversos xingamentos inimagináveis — alguns sequer existiam — e, ao inventar um novo, ele pegava o caderno no porta‑luvas, a caneta atrás da orelha e escrevia, rindo tanto que chegava a quase se mijar de tanto gozar das próprias piadas. Esquecia o nervosismo, mas logo retornava à feição fria da rotina cansada.
Eram oito horas da manhã; ele ainda nem havia saído para trabalhar quando a esposa o sentenciou de novo:
— Vá ver minha mãe, ela está causando problemas outra vez.
Ele detestava a sogra. Na verdade, passara a detestá‑la logo após ela perder o marido. A velha tornara-se insuportável — confusões com vizinhos, com crianças que brincavam na rua e até com o próprio reflexo no espelho; sua memória curta a fazia esquecer a própria fisionomia.
César era mestre de obras e havia sido contratado por uma empresa para construir um grande teatro, o único da cidade.
— Esse teatro vai ser bom pra gente, viu — comentou um dos ajudantes.
— Não sei não… Vai saber quem vai se apresentar aqui. A gente vê cada coisa, hein?
César os observava de canto, atento. Mas logo o piloto automático se instalou em seu corpo, e seus pensamentos viajaram para o teatro finalizado: as pessoas entrando, ocupando os assentos; pais, filhos e amigos acomodando‑se diante de uma enorme cortina vermelha que, em segundos, se abria. Lá estava ele, de pé, frente a um público ansioso para assisti‑lo. Ecoavam palmas, risos, gargalhadas a cada nova piada, e ele sentia uma satisfação imensa.
— César, você sabe que acabou fechando a entrada com blocos? Está na planta, chefe?
— Há? Como assim?
Ao ver seu feito, a preocupação subiu ao peito: sonhar lhe parecia tão distante quanto voltar para o seu lugar. Quando o dia caiu e a primeira estrela surgiu no céu, ele já havia desfeito o que fizera na manhã anterior. Ainda relutante, decidiu que passaria na casa da sogra apenas para ver o que tinha acontecido.
— Vai ser uma visita breve — repetia ao próprio reflexo no retrovisor. — Só vou dar uma olhada.
Em seus quarenta e cinco anos, a volta para casa era sempre um momento de descanso: sozinho, podia perceber as coisas com mais calma. Não tinha filhos, então não havia urgência; dirigia sem pressa pelas ruas. Alguns letreiros luminosos e construções roubavam sua atenção, uns mais que outros. Um feixe de luz vermelho, distante, à frente, pareceu chamá‑lo pelo nome:
“Venha! Venha! Venha!” — parecia ouvir.
Ao parar diante de uma placa que dizia:
Rodas de piada: apresente‑se e ganhe um balde de cerveja
César pensou, olhou o celular — 8h25 — olhou a placa de novo, e desceu do veículo. Galdino’s Bar, em letras de néon azul, mesas organizadas em grupos de duas ou quatro cadeiras; tocava pop rock, o palco estava vazio e a plateia se enchia rapidamente.
— Como faço pra me apresentar? — perguntou ao barman
— Se o palco estiver vazio, você sobe.
— Mas eu tenho que fazer alguém rir para ganhar a cerveja, ou só minhas piadas de tio já bastam?
— Olha, se você conseguir fazer alguém rir aqui, eu até coloco uma cerveja a mais pra você. A galera está difícil hoje.
Os degraus da pequena escada que dava acesso ao palco nunca haviam parecido tão difíceis de subir: mãos trêmulas, arrepios nos braços e nas pernas. Todos pararam para admirar sua coragem; o clube era famoso por humilhar quem se apresentava com piadas ruins, mas César desconhecia a fama. Pegou o microfone com mãos trêmulas, andou de um lado ao outro, buscando coragem.
Num ato desesperado de confiança, soltou as primeiras palavras — e um clarão iluminou todo o ambiente. Uma luz branca o cegou de tal forma que o trouxe de volta à realidade.
César estava agora sobre um bistrô de madeira redondo, com um sorvete nas mãos; algumas pessoas vestidas de branco o seguravam pelos braços.
— Alguém imobilize‑o, vou aplicar o sedativo! — gritava um dos enfermeiros.
O homem se contorcia, tentando escapar dos braços que o apertavam contra o chão. Logo veio-lhe uma sonolência e ele apagou.
— O caso dele só piora, Sra. Darlene. Depois que deram aquele carro de papelão pra ele, seu marido parece alucinar toda vez que entra — disse o responsável pelos pacientes da Galdino’s, clínica psiquiátrica.
— Então tire isso, droga! Que sanatório é esse? Pelo amor de Deus!

Contista Santana nasceu na Baixada Santista nos anos 2000. Encontrou na escrita uma forma de transformar a melancolia em literatura. Estreou aos 16 anos com A Morte do Mascarado e, mais maduro, lançou O homem de amarelo, buscando redenção. Seu livro mais recente, Leviana Harmonia, é um pedido de desculpas ao passado. Também publicou Com a voz rouca e teve textos divulgados em revistas como a Revista Trama e em podcasts como o VIVA FLUIDA. Suas narrativas exploram memória, afeto e reconstrução.

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