por Mayk Oliveira
poeta e colunista da Revista Navalhista
Levitando na plataforma
Ao pensar em Brasília nos vem a imagem dos prédios brancos perfilados e aquela beleza fria do concreto minimalista, apagando qualquer vestígio de natureza. Tudo planejado para tentar trazer organização ao tabuleiro da vida: linhas, blocos, caminhos, espaços e destinos. Ms atualmente, diante do caos e da rapidez com que o mundo se move, esse planejamento já não consegue dar conta de tudo. É na distância entre o que foi projetado e o que a vida produz que a poesia de Luiz Reis desloca a pergunta: afinal, o que falta planejar na cidade planejada?
O que falta planejar na cidade de Brasília? A pergunta parece simples e é na sua simplicidade que que se encontra a força para percorrer a arquitetura de uma cidade concebida para ser planejada. Em vez de procurar uma resposta imediata, o poeta e artista plástico Luiz Reis nos apresenta em Poemas da Cidade Planejada (Editora Sertão Pasárgada, 2026), que prefere caminhar pelas frestas desse planejamento e encontrar na fragilidade de um cotidiano ordenado e familiar, o qual aprendemos a coabitar sem perceber, com a vida, o acaso, a poesia e o absurdo.
Levitando entre folhas secas e a terra vermelha, nas entreveias de um delírio solitário, encontramos um livro que toma a cidade como matéria poética. A obra percorre Brasília além do espaço urbano numa experiência sensorial dividida em duas partes, “Cidade Planejada” e “Perseguidos de escombros”. Dentro de cada uma encontramos tópicos temáticos, que funcionam como pequenas estações, pequenas plataformas. Na primeira parte, os poemas observam os elementos que compõem a cidade, os desafios impostos pela vida urbana e a vontade de superar o que está dado para inventar uma nova cidade. Um claro movimento de tensão entre aquilo que foi projetado e aquilo que efetivamente se vive. Como vemos nos versos: “coluna cervical centro pulsante/ que confluem todos os pontos do Brasil” (p.15)
A cidade corpórea surge como referência desse imaginário urbano, enquanto o espaço brasiliense aparece em seus calçadões, igrejas, lugares de sonhos e perdas. Essa primeira parte é uma ode a Brasília e a poesia segue rompendo a fenda e descrevendo esses espaços. Ela os desloca. Subverte a cidade das superquadras fazendo poesia com as árvores amputadas da cidade candanga e respirando nos pulmões dos caminhantes. A paisagem planejada passa, então, pelo corpo, pela experiência e pela linguagem a exemplo do versos : “verte flores/no asfalto/que brilha de insetos/em meio ao rumor/ dos automóveis parados” (p.23)
Outro ponto a destacado nos poemas é o encontro das linhas rígidas com a musicalidade. A subversão musical, nos poemas dá o ritmo que pode e deve se tornar trilha sonora desse encontro que o poeta vai desorganizando para se organizar. O absurdo vai esquadrinhado a possibilidade de olhar a cidade por um prisma desconhecido do ritmo cotidiano, uma nova camada. Brasília vai deixando de ser arquitetura para se transformar em enigma. E os poemas, diante desse enigma, perguntam sem necessariamente oferecer uma resposta imediata.

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Luiz Reis constrói sua poesia a partir de uma herança expressionista deslocando para uma linguagem contemporânea, fragmentada e muitas vezes irônica. Em seus poemas, a subjetividade, a experiência urbana e o estranhamento diante do cotidiano se misturam a uma escrita que não teme o excesso nem a ruptura. Quebrando a sintaxe da alienação humana. A tensão constante entre o indivíduo e a cidade, entre a rigidez das formas e aquilo que insiste em escapar delas. Reis escrever a partir desse lugar de desconforto da experiência cotidiana que perde sua aparente estabilidade e a linguagem encontra no desvio uma possibilidade de existência.
Na segunda parte, “Perseguidos de escombros”, a linguagem ganha ainda mais liberdade. Poemas da Cidade Planejada (Editora Sertão Pasárgada, 2026), brinca com as palavras despretensiosamente, aproxima-se de uma filosofia da superfície, simples e efetiva nas bordas das avenidas, e mistura certa experimentação. Nós vemos uma reação com experiências transcendentais de desorientação do cotidiano contra as linhas do brutalismo e do minimalismo. Seus híbridos colocam a pele, os dados sensoriais e o mundo digital em confronto. A cidade agora não se resume nas construções que vai se ampliando nos modos contemporâneos de perceber, relacionar-se e existir. Agora é a cidade que sede a arquitetura do poeta.
A rua aparece como espaço de experiência, onde a noite adentra e a camaradagem externa cria outras possibilidades de convivência. Os amigos, os polos, as qualidades admiradas e as relações estabelecidas também participam dessa pintura afetiva. Há ainda o instante em que “é a hora”, quando uma sexta-feira à tarde, um fim de tarde qualquer, pode se transformar em experiência e produzir uma quebra da rotina. O cotidiano, aparentemente banal, torna-se matéria de poesia.
Para que um espaço se torne lugar conceitual, é necessária uma intervenção, um pensamento, uma concepção cultural, uma ação histórico que lhe atribua sentidos. Brasília nasce como espaço concebido para a circulação, para o exercício da política e para a organização da convivência em sociedade. Na poesia de Luiz Reis, porém, esse espaço se transforma em lugar pela ocupação do poeta. Ao caminhar por suas linhas, árvores, concreto, encontros e contradições, Reis atribui à cidade outras camadas de significado. A poesia passa a ser também uma forma de habitar Brasília.
Assim, Luiz Reis constrói uma cidade que não cabe inteiramente em seu próprio projeto. Mas ele a ama, a enxerga a quer. Sua poesia transita entre arquitetura e corpo, planejamento e desvio, concreto e árvore, linguagem e silêncio, rotina e ruptura. Vemos os corpos que a atravessam, os encontros que a modificam, as árvores que resistem, a música que rompe as linhas, os amigos, os sonhos, os escombros e até mesmo o absurdo.
E chegamos para saber então o que falta planejar na cidade de Brasília? Talvez falte aquilo que nenhum planejamento consegue determinar que é a vida que acontece fora do plano. É preciso replanejar. O livro nos faz compreender que toda cidade, planejada ou não, acaba encontrando aquilo que não estava previsto. O poeta inclui o imprevisto, o encontro, a desordem, a diferença, a árvore que cresce onde não deveria, o caminhante que muda o percurso, a música que atravessa a linha reta e o poema que transforma a cidade em pergunta. Porque, no fim, a cidade planejada de Luiz Reis nos faz lembrar que não há projeto capaz de planejar completamente aquilo que a vida inventa e replaneja.

Luiz Reis é poeta e artista visual. Já publicou sete livros de poesia, o mais recente, Dejetos da cidade em 2024 pela editora Patuá. Participou das 3 Jornadas Internacionais de Poesia Visual em 2022 e 2023 e 2025. Em 2025 participou da Primeira mostra de Poesia Visual do DF. Foi editor e criador da Nautilus editora do DF. Atua como pesquisador independente da poesia do DF e de autores marginais da literatura Brasileira como Roberto Piva e Samuel Rawet. É doutor em Literatura pela UnB. Seu mais recente livro de poesia Poemas da cidade planejada foi lançando, em 2026, pela Editora Sertão Pasárgada.

