“Uma das maiores belezas da poesia, e da literatura em geral, é tensionar os contrários”, afirma o poeta Naaman Blanco em entrevista para Revista Navalhista, por ocasião da chegada do seu novo livro “Apoteose & Do Urbana, lançando pela editora M.inimalismo, em 2026. Na conversa, o poeta fala sobre sua obra, sua escrita e os caminhos que atravessam a sua poesia.
REVISTA NAVALHISTA – Observamos muito detalhes na composição de“Apoteose & Dor Urbana” (M.inimalismo,2026) uma das escolhas mais interessantes do livro é a divisão entre “A História das Aves” e “A História dos Homens“. Embora pareçam territórios distintos, a leitura sugere que um acaba explicando o outro. Em que momento você percebeu que precisava dessas duas partes para sustentar o projeto do livro? O que as aves conseguem dizer sobre os homens que os próprios homens nem sempre conseguem dizer sobre si mesmos?
NAAMAN BLANCO – Essa divisão é tão intencional quanto incidental. Quando selecionei os poemas para o meu primeiro livro, As Nuvens de Netuno (TAUP, 2024), vi que muitos dos textos que “sobraram” conversavam com o meu desejo de compor uma obra inteiramente focada em observações urbanas e sociais. Já com a ideia em prática, essa “contemplação do cotidiano” se resumiu em observar diariamente aves e homens no caminho de casa para o trabalho e vice-versa.
A maioria dos textos nasceu independente, mas alguns foram (re)nomeados ou compostos já pensando na unidade do projeto e numa sensação de harmonia mais perceptível. Quando finalmente surgiu a oportunidade de montar o livro, tomei emprestados alguns versos e ideias do Poema Sujo (1976), de Ferreira Gullar, para intitular e guiar as seções. Enquanto “A História dos Homens” se propõe a uma descrição empírica da realidade urbana e da experiência humana, bem conhecidas por todos nós, “A História das Aves” tenta penetrar e decifrar existências aparentemente alheias à humanidade e seus problemas, e que, nesse caso, fascinam justamente pelo mistério de serem incapazes de se comunicar ou de exprimir qualquer juízo sobre os homens e suas obras, cabendo a nós a ousadia da interpretação.
R.N. – Recorrer à natureza para pensar a experiência humana é um recurso muito utilizado por poetas como uma espécie de refúgio para pensar o sentido da existência com sensibilidade e de forma lúdica. No seu livro, Apoteose & Dor Urbana” (M.inimalismo,2026), porém, as aves não aparecem como ornamentos da paisagem, mas como formas de interpretação do mundo. O que a imagem poética da ave oferece que outros símbolos não ofereceriam? Você acredita que a natureza ainda é uma chave importante para compreender os conflitos contemporâneos?
N.B. – As aves encantam a humanidade e servem de tema para todas as artes desde sempre. Um dos motivos é a infinita diversidade de espécies, cores, tamanhos, cantos e comportamentos que torna possível a cada ser humano adotar uma ave como sua favorita, aquela que, por motivos diversos, o deslumbra mais que outras. Mas o motivo principal, acredito, é a capacidade que essas criaturas têm de voar, coisa que sempre foi uma obsessão do ser humano.
Nós temos aviões, helicópteros, balões, jatos e até foguetes espaciais, mas nunca teremos asas e a liberdade de voar como um pardal, por exemplo. Por isso mesmo, inventaram-se todas essas formas de alcançar o céu, coisa que as aves fazem instintiva e desinteressadamente. A liberdade que o voo evoca é o que distingue a ave de outras “imagens poéticas”, e observar a natureza exercer o que nos é impossível é um bom começo para entender nosso lugar
R.N. – No poema “O Pardal”, a imagem do pássaro que vai “morrendo lentamente” produz uma leitura que ultrapassa a figura do animal e toca em questões sociais e afetivas. Quando escreveu esse poema, você estava pensando em uma experiência individual ou em uma condição coletiva? O que mais lhe interessava investigar nessa figura tão comum, sendo invasora, diga-se, das cidades?
N.B. – O poema foi escrito assim que minha cachorra, assassina inveterada de pássaros e calangos, fez mais uma vítima. Nesses casos, sempre me resta o trabalho de recolher a ave, depositá-la em um local apropriado e refletir algum tempo sobre a brutalidade do fato. Nesse dia, porém, restava ao filhote um sopro de vida quando o encontrei. Foi a sensação de tê-lo morrendo em minhas mãos o que me levou à escrita. A experiência dele era coletiva: ser morto por um cão; a minha, individual: ter uma vida na palma da mão. Nada me interessava mais do que isso: uma ave ordinária morrendo de uma forma ordinária, sendo eu o elemento incomum.
R.N. – Ao longo do livro, fios elétricos, concreto, muros e resíduos aparecem dividindo espaço com os pássaros. Não parece existir uma separação absoluta entre natureza e cidade, mas uma convivência muitas vezes tensa. Propomos agora um voo ontológico: você enxerga a cidade como uma força que transforma as aves ou como algo que acaba revelando ainda mais sua capacidade de resistência? O que essa paisagem urbana lhe permite observar sobre os homens?
N.B. – A cidade transforma as aves e é transformada por elas, e todas essas metamorfoses mútuas têm a ver justamente com a resiliência dessas criaturas, que se veem obrigadas a construir os ninhos entre fios de alta-tensão, a comer e beber em poças de água suja e a conviver conosco, que, na maior parte do tempo, somos indiferentes a elas, para o bem ou para o mal. A paisagem urbana é o que há de mais tangível no “progresso” humano, que cada vez mais se realiza às custas de todas as outras existências, ignorando o que para um ser humano são direitos fundamentais: vida, liberdade, segurança, alimentação, moradia, entre outros.
R.N. – O urubu costuma carregar um imaginário negativo dentro da cultura brasileira. No entanto, em seu poema, “Urubu”, a ave ganha outras camadas de significado ao ser colocada diante do risco, da altura e da possibilidade da queda. Revele-nos o que o levou a escolher essa ave como matéria poética? Você quis ressignificar qual ângulo dessa figura que costumamos observar apenas por um único? A poesia deve fazer esse movimento?
N.B. – Uma das maiores belezas da poesia, e da literatura em geral, é tensionar os contrários. Urubus são tidos como animais feios, sujos, fedidos, de mau agouro, repulsivos por natureza. O que se ignora, ou por isso mesmo, é que eles desempenham um papel fundamental para o equilíbrio da vida, sobretudo a humana, com suas toneladas de lixo e abates indiscriminados. Não se trata de ressignificar a ave, mas de contemplá-la em toda a sua estranheza, reconhecer nela um instinto repugnante e assustador para nós: conviver todos os dias com a morte e com a ideia da finitude indiferente, que iguala homens e aves sem nenhuma distinção.
R.N.– Na nossa observação, indicamos que o livro realiza um percurso de devaneio, mas sem abandonar completamente a realidade. Há, aqui e ali, sempre uma observação concreta do mundo sustentando os poemas. Como funciona esse equilíbrio no seu processo de escrita? O que faz uma imagem observada se transformar em matéria poética?
N.B. – Meu processo de escrita segue a lógica gullariana do “espanto”, ou seja, descobrir, durante a observação cotidiana, uma fração mínima e inexplicável da realidade, algo de novo no mundo de sempre que não se tinha notado antes: um movimento do ar, um cheiro, um modo de sorrir ou de chorar, um pôr do sol específico ou mesmo um canto de ave. A poesia, nesse caso, vem a ser como uma ferramenta de tradução, o pincel de sempre usado para pintar novas cores. Tudo é matéria poética e pode ser transformado em ouro, desde que o poeta, diferentemente do Rei Midas, não seja ganancioso e se aceite como mera ponte entre o espanto e a poesia.
R.N. – O silêncio do beija-flor diante das provocações do ego cria uma imagem muito particular de liberdade. Em um tempo marcado pela necessidade constante de opinião, exposição e resposta imediata, o silêncio pode ser entendido como uma forma de resistência? O que esse poema procura refletir sobre nossa relação com o próprio ego?
N.B. – O “EGO” é o eu lírico do poema e sua insistência em obter uma resposta do beija-flor se trata daquela tentativa de penetrar e decifrar a existência alheia que tratamos antes. O silêncio aqui é a única resposta possível, já que as aves não entendem nossa língua, e mesmo que o façam, não se dignam de responder senão com um pio, que é o que entendemos como sua linguagem. O ego é tanto a insistência em querer ver como a incapacidade de enxergar para fora de si.

R.N. – As aves do livro nunca aparecem como símbolos estáveis. Elas podem representar coragem, medo, desejo, desgaste ou sobrevivência, dependendo do poema. Você se interessa por símbolos abertos, que mudam de significado ao longo da leitura? O que se perde quando a poesia oferece interpretações muito fechadas para suas imagens?
N.B. – Eu acredito na poesia como um terreno de inconclusões. Nada é definitivo num poema. O simbolismo e as entrelinhas são partes fundamentais da poesia. Quando o texto se propõe a um encerramento total em si mesmo, perdem-se todas as leituras possíveis que não a original. A escrita de um texto é única, mas as leituras são infinitas, mesmo para quem o escreveu. O prejuízo está em negar que a cada nova leitura o poema nasce novamente e diferente.
R.N. – Depois de percorrer a primeira parte do livro, o leitor chega à “História dos Homens” já carregando consigo todo um repertório de asas, voos, ninhos e quedas. Ao escrever essa segunda parte, você pensava nela como continuidade da primeira ou como um deslocamento de perspectiva? No final das contas, quem observa quem em seu livro: os homens observam as aves ou são as aves que observam os homens?
N.B. – O poeta observa as aves, com certeza, e “A História dos Homens” é, sim, um deslocamento, ou melhor, um regresso ao que melhor se relaciona com o escritor: a experiência humana. Depois do afastamento (a Apoteose do título) que é a primeira seção, repleta de cogitações e endeusamentos, pensei na segunda parte do livro como sendo um tipo de retorno, ou uma queda desse céu repleto de aves. A seção não deixa de ser uma continuação, mas é antes esse exercício penoso de deixar de observar passarinhos para encarar seres humanos enlutados, em situação de rua, em guerra, com fome, raiva, medo e assustadoramente próximos de nós.
R.N. – Na primeira parte de Apoteose & Dor Urbana” (M.inimalismo,2026), as aves funcionam como mediadoras da experiência humana. Já em “A História dos Homens“, surgem figuras como “Aurora”, “Dúvida”, “Sonho” e “Luar“, quase como novas coordenadas da existência. Queremos saber em que momento você percebeu que os pássaros já não eram suficientes para sustentar certas questões do livro? O que esses substantivos abstratos permitiram alcançar que as aves não alcançavam mais?
N.B. – Todas as aves de “A História das Aves” são intencionalmente animais urbanos, pássaros que se veem facilmente nas ruas da maioria das cidades. Cheguei a um belo número de 12 espécies, todas registradas naquele trajeto de casa para o trabalho. Depois disso, por mais que quisesse e tentasse expandir esse número, os novos textos me pareciam ou forçados ou falsos. Ao mesmo tempo, cada vez mais eu retornava às coisas humanas, que eu queria representar como uma sucessão de dias, a roda de rato da rotina capitalista. Daí a escolha de títulos como Pôr do Sol, Luar, Sonho, Aurora, e Novembro, todos marcando a passagem do tempo.
R.N. – Ao longo do livro, elementos tradicionalmente associados ao sublime — o voo, a lua, a aurora, os horizontes — aparecem lado a lado com imagens de violência, miséria e desgaste humano. Você se interessa por essa aproximação entre beleza e conflito? O sublime, para você, ainda pode existir separado das contradições sociais ou ele nasce justamente do atrito entre elas?
N.B. – Como eu disse anteriormente, tensionar contrários é uma das belezas da poesia. O trágico e o sublime andam lado a lado, muitas vezes até tropeçando entre si. Há muita beleza poética no conflito humano e nas mazelas sociais porque isso nos força, a exemplo das aves urbanas, a enxergar nossos semelhantes, em toda a sua humanidade, sob uma nova perspectiva. A poesia social usa a contradição como uma forma de denúncia. Uma mulher em situação de rua é tão mulher quanto uma cover girl da Vogue, e o sublime está exatamente nesse atrito.
R.N. – Embora dividida em duas partes, a obra parece construir uma única reflexão sobre vulnerabilidade e desejo. As aves enfrentam predadores, escassez e ameaça; os homens enfrentam guerras, fome e abandono. Quando você concluiu o Apoteose & Dor Urbana” (M.inimalismo,2026), qual era o elo mais importante que desejava estabelecer entre essas duas histórias? O que há de essencialmente comum entre o voo das aves e a caminhada dos homens? Conte para nós.
N.B. – O elo mais importante é o conflito estético, a aparente contradição de apresentar o “belo” em situações degradantes e de elevar o “feio” ao status de “coisa que inspira a poesia”. O que nos une às aves é que nós compartilhamos da mesma resistência quando tudo parece prestes a desmoronar, e da mesma persistência para recomeçar quando tudo já está no chão. As aves voam e os homens caminham, mas todos respiram o mesmo ar poluído das cidades.
R.N. – Terminamos com aquele caloroso tapinha nas costas. Agradecemos demais por somar conosco. Conclua falando o que desejar. Liberdade total. Até uma próxima.
N.B. – Quero usar essa liberdade para exercer minha gratidão pela equipe da Navalhista, em especial ao editor Aliedson Lima e ao colunista e amigo Mayk Oliveira. O trabalho de vocês é mais que importante, é extremamente necessário para manter o solo da literatura sempre fértil e dar a oportunidade para pequenas vozes serem tão ouvidas, apreciadas e compreendidas quanto os cantos de quem já alcançou o céu. Agradeço também às inúmeras editoras independentes que fazem a poesia acontecer, especialmente TAUP e Minimalismos, minhas casas editoriais. Sou grato a cada jornal literário, portal, revista, coletivo e autor que ainda acredita no poder transformador da literatura; e, o mais importante, sou grato a quem ainda lê e ama fazê-lo.
Por fim, convido os leitores a conhecer um pouco mais do meu trabalho, que apesar de tímido e meio esporádico constitui minha maior alegria e meu maior orgulho como pessoa.

Naaman Blanco (2000) é um paranaense em Minas que tem na escrita sua maior obsessão. É autor de As Nuvens de Netuno (Toma Aí Um Poema, 2024) e Apoteose & Dor Urbana (Minimalismos, 2026), ambos de poesia. Colabora em antologias e coletâneas desde 2022 e em 2026 passou a integrar a equipe de poetas do Portal Fazia Poesia.

![NAVALHAR É PRECISO – NAAMAN BLANCO [entrevista]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/05/naaman-blanco-foto.jpg)