Você é meu céu, é minha vida
Meu peso, minha medida
Meu cofrinho de amor […]
O sucesso de Elino Julião, entre chiados, ecoava nas ondas do velho rádio, e logo em seguida dava lugar a Ave Maria Sertaneja. Seis horas da noite. Maria botou o fubá de molho. Rezava em silêncio pedindo para as autoridades do alto curarem suas dores, principalmente aquelas que ninguém sabia. Nos últimos dias vem sentindo um aperreio diferente no coração. Lá fora o céu se pintava de uma rubra cor que chegava a dar medo. Há um tempo começou a perceber que sua única companhia era a solidão – que se tornava ainda mais incômoda nas frias noites caririzeiras.
A tripa de porco já estava frita, e agora precisava esperar o leite ferver. Melhor ajeitar a lenha desse fogão. Daqui a pouco José chega do mato e ela sabe que ele vai estar morrendo de fome. Maria lembrou da sua mãe. Ela dizia que o cão miúdo ficava na beira do fogo tentando distrair a gente para o leite derramar. Já são mais de 15 anos de saudade. Talvez se ela ainda estivesse viva as coisas fossem um pouco diferentes. Tinha na sua mãe o afeto e a segurança que há tempos não sabe mais o que significa. Parece que sua mocidade foi só um vulto na sua existência.
O manto cruel da condenada da realidade está fazendo questão de levar suas boas lembranças de tempos de outrora – era tudo o que tinha. Perdeu as contas de quantas noites precisou engolir o choro. Não se conformava em ver aquele amor virar dor. Seus filhos – um casal – já ganharam o mundo, hoje já caminham com as próprias pernas, não sabem mais como vão as coisas aqui nesse pedaço de chão que mais parece brasa queimando nesse Cariri incendiário. Queria que eles ainda estivessem ao seu lado, mas, ao mesmo tempo, agradece por eles já estarem seguindo suas vidas. Nos raros momentos que estão juntos, Maria prefere sorrir e resumir os seus dias com um “está tudo bem, meus filhos, do jeito que Deus quer”.
Talvez Deus tenha coisas mais importantes para se preocupar, até dizem que Ele foi embora desse Cariri e hoje mora lá para as bandas do brejo. Por dentro ela chora, em silêncio ela grita, no fim das contas ela deixou de ser ela mesma. O peito aperta. Lá fora ela escuta os assobios do vento da noite. José chega da labuta, a catinga de suor e de cana toma conta da casa. Andou enchendo a cara de cachaça novamente. Em nada lembra o jovem que conheceu no início dos anos 90. A vida vem judiando demais deles. Ela avisa que o jantar está pronto e recebe silêncio como resposta. Os olhares não se cruzam, ela não entende como todo aquele amor virou ausência, receio e dor. O tempo está sendo cruel demais, está levando tudo embora, às vezes acho que levou embora até o sentido que essa vida tem. José toma seu banho, e depois começa a jantar. Ele resmunga, mas as palavras chegam indecifráveis nos ouvidos de Maria.
O cheiro de cana se confunde com a essência do sabonete Senador e do desodorante Leite de Rosas. Uma receita perfeita para dor de cabeça. Ela pensa em perguntá-lo se tudo deu certo no roçado, ou em dizer que a galinha pedrês começou a chocar os ovos na cocheira, mas decide silenciar. Com o bucho cheio, ele se levanta e vai cambaleando em direção ao quarto onde se prepara para dormir, não antes de fumar o seu cigarro pé-de-burro que incensa a casa toda com um cheiro forte que Maria se acostumou a sentir. Maria – por um instante eterno – fixa o olhar nos restos de comida que ficaram no prato do marido. Quando moça, imaginava que a vida a dois poderia ser diferente daquela vivenciada por seus pais, mas estava pagando para ver o filme se repetir. Parece que a sina desse povo é esse mesmo. Infelizmente, ela se acostumou com quase tudo, principalmente com o que não poderia se acostumar, ou talvez tenha se acostumado com os nadas, com o mínimo, com as ausências. Decide ligar a televisão. Ela permanece em silêncio na mesa, enquanto escuta as notícias no jornal.
O apresentador fala que mais de 21 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de agressão nos últimos 12 meses. Mas isso é número demais pra Maria, é informação demais que ela não consegue nem entender direito. Seu mundo compreende a porteira do terreiro e o pé de umbuzeiro no fim do cercado. Ela bem sabe que é a brutalidade dessa terra que vai moldando tudo, do bem querer a violência. Aqui a única obrigação é ser forte, mesmo tendo dias que a gente cansa de ser forte o tempo todo. Ela precisa lavar a louça, para amanhã as demandas não se acumularem.
Antes de dormir ela se prepara para o seu banho. Por um instante pega se observando. O reflexo no espelho sujo e trincado não a agrada tanto quanto antes. Sua pele apresenta marcas do sol, as rugas insistem em se espalharem pelo seu rosto, considera os seus dentes feios, por isso evita sorrir.
Maria se permite sorrir apenas quando está sozinha em casa, quando tem certeza que não está sendo observada. É um sorriso triste. Penteia os cabelos ressecados, os fios brancos gritando as histórias que o tempo conta. Em nada lembra a jovem formosa que chamava atenção de todos nas noites de forró no sítio dos seus pais. Sai do seu transe e a água salobra banha seu corpo em uma urgência como se quisesse lavar a alma, sanar as dores, se purificar das mazelas desta vida. Pensa em se tocar intimamente, mas logo repudia o pensamento impuro. Ela percebe que seu creme hidratante está no final, então decide cortar a embalagem no meio para aproveitar mais o produto. Se hidrata enquanto sente que seu corpo não é mais como antes, tateia uma pele ressequida, se depara com manchas e cicatrizes.
Repara que os olhos estão cheios de lágrimas, mas aprendeu a engolir o choro como ninguém. Queria comprar o perfume que a atriz da novela fez propaganda, mas isso está fora dos planos, o dinheiro que tem guardado é para fazer a feira no fim de semana. Feijão, arroz, fubá, açúcar, farinha e a mistura são prioridades. Também tem o milho das galinhas que não pode faltar. Se deita ao lado de José.
Ele ressona e solta ruídos indecifráveis. Ela reza o Pai Nosso, a Ave Maria, pede proteção para os filhos que estão longe e também faz suas preces diárias às almas vaqueiras – ela espera que o sono chegue logo. O gato mourisco deita aos seus pés, buscando aquecer a madrugada fria. O silêncio da madrugada é ensurdecedor. O tic-tac do velho relógio da parede vai fazendo com que o tempo se agonie. Que o dia amanheça rápido… O bote. Maria é arrancada repentinamente do seu sono e o seu mundo já está sendo invadido, sem tempo para resistências. Crua. Não tem mais o amor, o bem querer e o desejo mútuo de antes. Ela roga para que isso acabe logo.
De novo o cheiro de sabonete Senador, Leite de Rosas, cachaça barata e cigarro pé-de-burro toma conta de tudo. Os cachorros latem espantados lá fora. O hálito quente na nuca, a inexistência de afeto, o toque áspero. A dor. O sangue. O gozo. O nojo. As lágrimas finalmente escorrem em silêncio. Um pedaço de carne servido a um bicho do mato. José retorna para o seu lado da cama e em instantes o seu ronco volta a invadir o ambiente – amanhã não vai se recordar de nada. Maria segue imóvel – amanhã não vai se esquecer de nada. É que a vida de casal tem dessas coisas. Se nega a enxergar os erros. Foi ela quem escolheu se juntar. Bicho-homem tem suas necessidades desde que o mundo é mundo. O velho quadro com a fotopintura dos seus pais na parede testemunha tudo. Ela se envergonha.
Cansada de se rasgar e se remendar. As lembranças dos conselhos dados por sua mãe aparecem igual fantasma. A vida que é bruta e transforma a gente em bicho. Ela sabe que a vida dele sempre foi muito sofrida, vivendo só para o trabalho e para casa. Não tem culpa de ser assim. No fundo sabe que tem um bom coração, não deixa faltar nada dentro de casa. Abafa o choro no travesseiro. A lua observa tudo pela fresta da telha. O galo canta lá no poleiro.
O dia vai nascendo outra vez. José já ganhou o mundo rompendo a escuridão do findar da madrugada para recomeçar sua peleja nesse chão seco. Maria se limpa. Se culpa. Se levanta. Cuida em botar a água do café no fogo para começar tudo de novo, do jeito que tem que ser, do jeito que Deus quer… Liga o rádio. Enquanto o noticiário não começa, o raiar do dia é embalado pelos repentes de Soledade e Minervina e por bregas antigos que fazem Maria cantarolar e espantar os males dessa vida…
Às vezes eu recordo com ciúme
Seu rostinho, seu perfume
Seu jeitinho de beijar…

Mateus Araújo, 29 anos, é jornalista graduado pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), e mestre em jornalismo profissional pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Vencedor, na categoria crônica, do Concurso Literário José Lins do Rêgo 2024, promovido pela Funesc e pela Empresa Paraibana de Comunicação, que o premiou com a publicação do seu livro de estreia intitulado ‘A bença: memórias, pelejas e afetos nas veredas caririzeiras’.
