PEDRO LUCCA – O sepulcro [capítulo]
PEDRO LUCCA – O sepulcro [capítulo]

PEDRO LUCCA – O sepulcro [capítulo]

Confira O Sepulcro, primeiro capítulo do romance Tijolos & Babel, do escritor carioca Pedro Lucca, que chegou ao público em 2026 pela editora Madame Psicose.

Esta é só mais uma história de fantasmas.

Quando o raro vento batia, oscilante, soprava a impressão de que o pó das paredes poderia ir se descamando. Até gostava das fotos dos turistas entusiasmados que se proliferam nas redes sociais, registrando os monumentos faraônicos. Só que eles representavam apenas fragmentos do real. Apenas uma ilusão. Jamais poderia vê-los de perto, sentir o cheiro ou tateá-los. Nunca sentiria a aspereza daquelas construções, nunca veria nenhuma delas na minha frente. Acreditava que tudo não passava de um surto coletivo inevitável, inerte no tempo, com coisas e pessoas aprisionadas no interior digitalizado da vida perdida em meio à profusão desconcertante dos algoritmos. No fundo, não acreditava nesses lugares. Tenho uma noção de realidade claustrofóbica e alucinógena: vejo somente paredes, tetos, janelas, escadas e uma única rua passando na frente. O mundo conhecido pelos meus olhos era cortado e gravado na memória, feito o cenário de uma sitcom, apenas artificialidade cenográfica. Podia jurar: escutava o som das claquetes de risadas sempre que alguma falha da minha atenção fazia com que eu, desatenta, pisasse em falso num degrau e quase caísse rolando pelas escadas.

Tinha conhecimento de que a saraivada de mentiras se projetava. Não precisava de nenhum psicotrópico para ver algo além disso aqui. Durante um tempo, meus braços magros me apertavam quando eu sentia frio. Meu corpo desalentado só encontrava consolo nele mesmo e em mais ninguém. Nem a companhia materna supriu minha carência. Apenas em meus próprios braços o afago se firmava. Para além de toda confusão, continuava perambulando tonta. Caminhando sobre o concreto, esperando que a ampulheta invisível parasse de pingar os grãos. Isso me exigia certo grau de paciência. Em lugares como este, é possível ver a materialização do instante, assistindo à sua passagem forçada, inesgotável, entre corpos já decompostos. Exige cautela.

Meu andar ainda é torpe e a curiosidade sempre me acompanhou. Sentia a necessidade de estar me metendo em alguma rua deserta, apesar do horário. Diante da escuridão, tentava ordenar meus pensamentos; mesmo frente ao perigo, a confiança frágil gerava coragem. Acabava me sentindo melhor, como se minhas engrenagens internas girassem, o que me fazia pensar que eu continuava funcionando. Pura besteira. A única sensação real, no êxodo diário, era a da minha cabeça estacionada. Andava em círculos, no deserto, jamais avançando. Regredindo.

Retornava aos caminhos sinuosos da aridez. As dunas reagiam a cada passo. Em pouco tempo, cercada, me restava a única rota: para dentro. Os confusos pensamentos se tornaram meu único Norte; às vezes, tão bestiais que me impediam de ir às miragens ainda em formação. Lembro do primeiro oásis que vi, no início da adolescência. As motivações não são tão claras. Apenas me recordo das minhas mãos segurando a Bíblia. Do couro me fazendo carinho no toque. Das páginas ressequidas gerando desconforto quando acariciadas. As letras eram miúdas: me deixavam tonta. As linhas cresciam, desdobrando-se em pregações, contando sobre o primeiro casal, os anjos monstruosos e as pessoas que sobreviviam no interior de peixes gigantes. Ao fechar os olhos, esses caracteres pequenos nas páginas me remetem a ferimentos autoinduzidos, grifados nas peles.

Chega aos meus ouvidos o choro baixo da minha mãe, ela nua colada no azulejo, diante do box do banheiro. Ela era magra, como eu. Abraçava o corpo; mania que herdei dela. Um filete de sangue escorria do seu pulso até a dobra do braço; estava suada e suas canelas tremiam. As lágrimas se misturavam à coriza. Aos seus pés, tombada, uma garrafa de Red Label pela metade. Fiz merda. Fiz merda. Fiz merda. Repetia isso numa voz engessada, hipnótica. Tentei tocá-la, mas ela se afastou temerosa, como se pudesse atravessar a parede. Queria acompanhar seu choro, mas, assim como o deserto, minhas lágrimas ficaram arenosas, acorrentadas no espaço da inexistência. Nada se descolou dos meus olhos; o medo só se converteu em doses fracionadas de conformismo. Talvez perdê-la naquele instante me evitaria maiores problemas e não fosse tão ruim assim. Esse pensamento saiu numa lufada. Quando dei por mim, estava gritando no corredor desesperada: o máximo de pânico que uma criança poderia externar sem efeito físico visível; evitava espernear. Lembro do meu tio saindo efusivo, aflito, para o corredor. Aquela parede cobogó servindo de cenário, feita de cimento, repleta de furos simétricos. Naquele momento, o sol do início da tarde batia nele — amarelado, pastoso —, desenhando círculos de luz em seu corpo.

Meu tio passou rápido, éramos vizinhos, entrou no apartamento sem me dirigir palavra. Fui logo atrás. Sentei de cara para a porta do banheiro. Pela fresta, via minha mãe naquela mesma posição; meu tio, em pé, estava de costas. Por que não pediu minha pistola emprestada, hein? Da próxima vez é só pedir, porra. Estoura logo essa cabeça e para de graça. Nunca mais o vi.

A última notícia dele veio da polícia. Não tão distante daqui, seu carro foi achado repleto de furos de bala. Não me recordo do rosto da minha mãe naquele instante, mas sinto minha pele tocada pela angústia. Daquela que, de tão terrível, só se sente em raros momentos. O caixão dele foi fechado, minha mãe me disse. Não tive coragem de ir ao enterro, nem me lembro do clima. Em casa, torci para que chovesse. Enterros são melhores sob a chuva. Também me vejo fechando os olhos e encarando o teto, logo depois. Sim, chovia. As gotas eram sombras atravessando o quarto, lentas e gordas, feito lágrimas de um desesperado. Foi a primeira vez que chorei de forma autêntica.

Minha mãe melhorou com o tempo: seu ímpeto suicida foi diminuindo, mas isso não significava que estivesse bem. Não estava. Ela agia como uma figura que não estava mais presente. Parecia se esforçar para não ficar visível. Pesadelo encarnado: foi assim que ele a chamou pela primeira vez que a viu, em uma fala junto de um sorriso admirado. Depois, ficou utilizando essa alcunha sempre que aparecia aqui e via minha mãe escorada pelos cantos, fugindo dos olhares, sentada iner-te no sofá vendo algum programa até que o remédio fizesse efeito e ela ficasse encurvada, cabeceando de sono, coberta pela luz multicolorida.

Havia também seu coquetel de medicação, guardado em uma caixa de acrílico no topo da geladeira. Olhando de cima, a organização dos remédios era tão meticulosa que lembrava uma muralha. Minha mãe sempre tomava a pílula a seco. Uns dos efeitos colaterais eram a coriza e a quantidade de saliva produzida; com o tempo, adotou um pano de prato como babador. Antes de dormir, alucinações. Ela sempre devia tomar aquele remédio na cama, só que a tonelada medicamentosa em seu organismo fazia com que esquecesse que já os tinha ingerido; mantinha-se desperta.

Uma vez, eu estava indo no banheiro, de madrugada, seguida pelo barulho esganiçado da geladeira. Minha mãe estava lá, no escuro, olhando a janela. A cozinha abafada se assemelhava a um calabouço. Quando entrei, me encarou espantada. Pediu silêncio com uma das mãos e olhou para um ponto aleatório na parede. Estava de camisola; sua pele, enrugada, amarelada em vários pontos. Você veio com ele, não veio? Perguntou, se encolhendo como se estivesse sentindo uma dor física na lombar. Com ele quem, mãe?

Gostaria de ter perguntado isso, mas faltou coragem. Eu sentia medo, olhando para o escuro dos outros cômodos, como se algo pudesse se materializar. A noite virou uma substância densa. Na noite seguinte, fiquei entre os braços dele. Após beijá-lo, pedi que acendesse a luz. Queria transar de luz acesa. Ele se levantou e foi na direção do interruptor, que brilhava no escuro. Depois do clique, me encarou. Acredito que tenha notado algo estranho. O que rolou? É normal sentir medo do escuro? Perguntei a contragosto.Sim, é uma característica evolutiva. Nossos ancestrais meio que ligavam a noite com o perigo. A gente herdou isso deles.

Ele se deitou e virou para o lado. Toquei suas costas, sentindo o arfar dos pulmões. Passei de leve minhas unhas no seu cabelo; ele não se virou de volta. Beijei sua nuca; recuou ainda mais. Tinha ficado na defensiva e o clima tinha fugido; restava uma frieza, tão característica, semelhante aos meus momentos de tédio.

Sempre tive a verborragia como necessidade. Fui influenciada pelas redes sociais desde cedo. Minha figura digital, minúscula e caótica, circulava no meio do choque das frases motivacionais. No entusiasmo delas, discutiam o prazer de ficar em silêncio ao lado de quem amamos. Nunca senti isso; sempre interpretei o silêncio como uma forma de desinteresse quase pecaminoso. Somos seres linguísticos: avançamos pela linguagem. Através dela. Quando tentamos destroná-la, a mente acaba rompendo seu fluxo desgovernado de pensamentos; os meus continuam sendo palavras. Elas acabaram permitindo que cidades como essa fossem erguidas, apesar do caos bélico berrando promessas utópicas nas esquinas.

Sempre vi a ordem se derreter como uma fragrância conceitual rendida, manejada pelo imprevisível. Só vejo que a língua acaba produzindo um outro efeito colateral, a ingenuidade. São apenas palavras, no fim das contas, eles vão continuar dizendo num tom ameno, esperando que eu acredite nisso. Vão falar: o silêncio é o que importa. Desse jeito, não assumem que o verdadeiro embate é feito na luta de uma história contra a outra. Como toda batalha, no fundo, busca o extermínio. Precisam defender o silêncio para que continuem matando; precisam extravasar seu poder naqueles que julgam subalternos. Caso contrário, essa força oculta acabará os consumindo de dentro para fora. Já que toda luta também é pela sobrevivência, devem se proteger sugerindo a inércia. Fiquem em silêncio, dizem. Quando nenhum clamor sobe, tudo é justificável.

Até hoje agradeço a ele por ter cortado o silêncio naquela noite. Tô com muito sono. Agora, não. Naquela noite, dormimos de luz acesa. Minha mãe estava aflita nas sombras da cozinha, olhando para os cantos, perguntando baixinho para onde tinha ido.

É um anjo. Anjo. E o rosto, o rosto… Mãe, calma. A fala veio do resto da minha coragem. Fui me aproximando dela; acabei me detendo. Talvez tenha sido a covardia. Ele tá com você? Diz a verdade! Não? Filha, olha. Vamos embora daqui. Ele fala uma língua esquisita. Dá medo. Muito medo. Nessa hora, segurei seu braço. Nunca tive essa sensação de superioridade antes disso. Ela já tinha sido forte; era assim que me recordava. Lembro que a força saía do seu olhar com potência. Quando menina, eu achava que umas labaredas rodopiantes acendiam no fundo da íris dela; e, quando seu sorriso surgia, afirmava-se vitoriosa. Ainda que talvez a luta nem tenha existido de fato, ganhava o confronto produzido pela própria mente.

Só que ela perdeu. Dentro dos seus olhos, a chama tinha minguado até apagar. Restava, na coloração castanha, uma camada cinzenta que pontuava que a vida tinha, enfim, fugido, se deslocado da retina para o vazio. Restava a loucura, infligida pela tristeza, que os remédios tentavam aplacar. Prosseguia, no seu corpo, tremores que a impediam até de adoçar o café sem polvilhar açúcar por tudo. Não! Você vai voltar pra cama e dormir. Tá ouvindo? Toda essa merda que tu tá falando, isso não existe, porra.

Meu corpo serviu de amparo para levá-la até a cama; a primeira coisa que fiz foi sentá-la. Estava na sua frente, com os braços cruzados. Ela olhava, hipnotizada, a silhueta da minha sombra na parede. Minha mãe estava em um plano alheio, vagando por entre a mera sugestão da realidade. Hoje você me irritou, hein?! Ir embora? Sério? Você acha que eu não daria tudo pra meter o pé daqui? Ir pra bem longe mesmo. Nunca mais olhar pra essa sua cara. Se pudesse, faria isso. Fácil, fácil. Mas não posso, tenho que cuidar de você toda fodida. Não quero que isso aconteça de novo. Senão, mãe, pode ter certeza que vou meter o pé daqui. Foi depois daquele dia que ela evitou me olhar de frente. Não é como se tivéssemos virado inimigas ou coisa parecida, mas a corrente de afeto e confiança, que faz surgir a intimidade, se desgastou. Rompeu. Éramos estranhas convivendo sobre o mesmo teto. Sua presença em casa era constante em todos os cômodos; sempre que eu a olhava, seu rosto desviava para o canto.

Como por um milagre, uma vez a vi sentada no pátio, em uma noite de festa, apresentando o otimismo frequente dos fins de semana. As luzes dos postes refletiam nos siriris voando. Minha mãe estava cercada de amigas e tomava uma latinha de cerveja, relaxada, em uma cadeira de praia. As crianças corriam por todos os cantos, uma algazarra. Não lembro direito, acho que surgiu em meus lábios um sorriso frágil: podia vê-la no pátio, em meio ao emaranhado de vozes, olhares e luzes. O rosto recortado pela fumaça vinda da churrasqueira improvisada com tijolos. Queria que o olhar dela tivesse cruzado o meu. Adoraria ver aquilo se tornando uma cena clichê.

Enquanto eu estava a observando do corredor do terceiro andar — com vista para o pátio e as escadas, marcadas pelas portas dos outros apartamentos —, se ela tivesse me visto, saberia de alguma forma que eu a amava. Mesmo sem o encontro dos olhos, sentia a vida pulsando dentro dela. Ela ficou ainda mais visível, e tudo ao seu redor se ocultou. Minha mãe oscilava entre seriedade e conformação, com os ponteiros de seus sentimentos ainda envergados, tocando na sensação de felicidade que ela experienciava após bastante tempo. O cérebro da minha mãe passou a receber doses de dopamina das garrafas de destilado e engradados de cerveja barata; os fardos de cigarro ocupavam o lugar de destaque antes reservado aos remédios. Ela se ocupava durante o dia de fumar um cigarro atrás do outro, sem trégua. Os cinzeiros estavam por todos os cantos, cheios de guimbas. Os pigarros, única forma de saber que ela estava viva em meio ao silêncio sepulcral das madrugadas, varavam o apartamento. Durante as manhãs, a tosse repetitiva só cessava quando ela furava a camada de catarro alojada na garganta, insistindo muito com cuspidas que criavam manchas amareladas perto dos rodapés.

Os surtos prevaleciam. Ela não passou pela fase do desmame dos medicamentos. A cachaça e o fumo estavam se tornando compulsão. Minha mãe passou a tomar café sem açúcar depois disso, graças ao tremor ainda mais acentuado. Seus olhos estavam caídos e profundos. E, conforme chegava a noite, os pigarros viravam cochichos. Com quem você tá falando?

Teve um sobressalto; não olhou direto para mim. Por mais que ela tentasse, acabava sempre desviando. No fundo, acabei entendendo que ela não olhava para nada. Fingia que via, mas só encarava um espectro do seu interior: algo cavernoso, atravessado por informações que formavam uma nódoa que ia crescendo, se ramificando, em sua consciência. Com o seu pai.

Gelei. O medo alargava minha caixa toráxica. Uma fivela se soltou aqui dentro, dando espaço para um frio na barriga acompanhado da explosão de pensamentos. Incontroláveis. A quantidade repentina de informações fez com que eu sentisse uma ansiedade potente, fixada, como se o ar da cozinha tivesse engrossado. Meu braço se arrepiou inteiro após seu repentino toque. Ele me disse que está me esperando. Não quero ver ele mais, não. Minha mãe olhou para a porta da cozinha, abanando as mãos como se pedisse que meu pai partisse. Quando os olhos dela se arregalaram, soube que a raiva tinha a inflado para o combate. Mesmo que ninguém estivesse na cozinha, sua irracionalidade gerava um medo sem sentido. Quando você morreu foi um alívio, Jairo. Um alívio do caralho, cara. Falava isso rindo e cuspindo, torcendo um pedaço do tecido da blusa com a outra mão, balançando uma das pernas de maneira intensa; conforme o riso crescia, transpirava em excesso. Mãe. Eu te traio desde que ela nasceu. Apontou para mim enquanto dizia. Só ficamos juntos por causa do nascimento dela. Nunca gostei de você. Durante a gravidez, comecei sentir nojo. Só o cheiro do seu perfume me fazia ter ânsia, botava tudo pra fora. Mas eu tinha uma desculpa, né? Eu tinha. Qualquer coisa que tu falasse, eu poderia dizer que era só a gravidez. Mas não, não. Não era só isso, cara.

Olhei na direção do corredor e vi algo passando. Minha mão foi esfriando; a pulsação, acelerando. Um barulho distante tão perto. Um canto racional, agora distante, tentava me avisar: é só uma paranoia infantilizada. Os fantasmas não existiam, as pessoas que andavam comigo reforçariam uma tese como essa o tempo todo. Mas sempre fui uma criança medrosa; odiava esse sentimento que, logo depois, virava uma sensação de vergonha.

Toda escola tem fama de assombrada. Imagino que isso aconteça pelo ambiente opressivo criado dentro delas, no qual os professores são vistos como figuras quase divinas com o objetivo de manter os jovens na linha da educação rígida e competitiva, voltada com exclusividade para o mercado de trabalho. Isso motivou a criação de ensinos com programas de rigidez ainda maiores, descritos e pontuados em páginas A4 cheias de regras, obrigando os matriculados, menores de idade, a assinarem contratos na maior inocência. E, quando os professores entravam em sala, devíamos levantar e bater uma espécie de continência. Até eles acabavam se cansando dessa palhaçada; levantávamos e eles faziam sinal para nos sentarmos no milésimo seguinte.

No pátio, durante o recreio, os meninos me contaram como invocá-la. Bastavam três descargas e chamar seu nome. Aparenta ser verdade, cogitei naquele momento. Muita gente já tinha não só visto, mas sobrevivido após lutar contra ela. Todos contavam suas histórias. Passei a detestar ir ao banheiro; só ia em caso de extrema importância. Botei isso na cabeça. Nessas idas, tomava cuidado para não dar o número certo de descargas. O que aconteceria se apenas pensasse no nome dela? Será que isso já a atrairia ou seria preciso externalizar a conjuração? Eram várias dúvidas e nenhuma resposta conclusiva; isso fez com que eu não fosse ao banheiro durante todo o dia. Apesar da vontade angustiante, não podia me dar ao luxo de encontrar aquela figura sobrenatural. Até que, no final da tarde, minha bexiga afrouxou. A calça ficou toda manchada com aquele líquido quente e viscoso; ainda acho que a urina fervia. Tive sorte: a diretora se compadeceu da situação e me deu uma calça nova, diretamente do estoque de uniformes.

Mãe, o meu pai não está aqui. Você é a cara dele, a mesma cara. Em um salto, ela agarrou meu maxilar com o indicador e o polegar. Desde que você nasceu, sinto nojo. A única diferença é que não vomito. O olhar dela estava entregue à loucura. Não queria ficar sozinha com minha mãe em casa, ainda mais naquele estado. Talvez conseguisse correr e gritar por algum vizinho. Eles não viriam, assim como meu tio. Eu sabia: o egoísmo reinava no edifício. Um programa de auditório artificial de domingo era mais interessante que prestar ajuda para alguém. O número de assassinatos, espancamentos e outros crimes seria reduzido se déssemos um valor simples aos pedidos de ajuda, mesmo que distantes, anônimos. Apenas a culpa faz alguém agir com complacência nesse bloco.

Quando você tinha cinco anos, entrei no seu quarto com um travesseiro. Estava pronta para te sufocar com ele. Mãe? Sério. Foi um domingo, lembro até hoje. O Pastor gritava na igreja, essa aqui do lado, falando do capeta. Mãe…

Estava pronta pra botar o travesseiro no seu rosto. Já imaginava seu corpo se contorcendo para pegar um pouquinho de ar. Era tão magrinha, seria mole te segurar. Só que aconteceu algo: você abriu os olhos. Nunca te vi tão frágil como daquela vez. Sentei do seu lado; fiz cafuné até você dormir. Tentei abraçá-la, só que ela se afastou. Minha boca tremia. Desejei que meu pai estivesse observando a gente, como sempre fazia, impassível. Eu não podia vê-lo, mas queria que ele tocasse meu ombro e falasse uma ou outra palavra de consolo. Até hoje, sinto o choro vindo quando olho para a pequena crosta de mofo no canto do espelho. Já tentei removê-la com minha unha. Minha mãe tinha seu interior mofado, e soube daquilo com atraso. A descoberta aconteceu durante um exame de rotina: um médico encontrou e falou, em detalhes, sobre o câncer e o tratamento. Apenas uma amiga dela ficou sabendo disso. Ela guardou segredo: não faria o tratamento. Minha mãe optou por deixar que a doença lhe corroesse.

Para sua mãe, o tratamento era tortura. Ouvi, assim que o caixão desceu na terra. Quem via o enterro na beira da cova estava quieto. Alguns roíam unhas e outros, em tom de seriedade, tentavam afastar memórias com lágrimas ou o tradicional silêncio. Naquela manhã, eu tinha feito dezessete anos há duas semanas. Tinha herdado da minha mãe o habitual tremor nas mãos e o sorriso confuso, lotado de conformismo, somente um traço em meus lábios que nem chegava a mostrar os dentes. A casa estava cheia de parentes afetuosos, vizinhos e um Pastor evangélico. Todos sabiam da doença, apenas eu não tinha noção da severidade do caso. A amiga da minha mãe, chamada Fernanda, se ajoelhou ao meu lado enquanto eu dormia. Era um exercício dormir até mais tarde aos sábados, não me levantava por nada no mundo, mesmo que tudo estivesse se consumindo em chamas. Na cama eu permanecia, monolítica. Quando abria os olhos, distinguia eles me espiando; deviam ter vislumbrado meus espasmos naturais de sono. Quando senti os dedos da Fernanda enroscados no meu cabelo, pensei que fosse minha mãe. Minha mãe morria no outro quarto.

Sua mãe está doente. Eu sei. Não vai se despedir dela? Achei ridículo. Despedir? Claro que não. Minha mãe não tinha sucumbido antes e não iria morrer logo agora. Acabei me voltando para a parede. Não. Prefiro dormir. Fiquei na cama o dia todo. Quando finalmente saí do quarto, vestindo um short, notei que o apartamento continuava entupido. Me cumprimentaram com certo pesar e uma prima nossa, cuidadora de idosos, estava olhando minha mãe na cama. Lembro de vê-la de lado, com o cobertor até a cintura. Parecia que todos ao redor tinham perdido algo no chão, copiando minha mãe na arte de evitar me encarar de frente. Não entrei no quarto, permaneci distante, como preferia ficar durante os momentos mais drásticos.

Essa foi a última vez que a vi com vida. Vendo sua situação, lembrava daquele momento, quando ela encontrou meu pai na cozinha, açoitada pelos efeitos físicos do corpo clamando por mais uma dose de tarja preta. Depois da sua confissão, tive coragem de dizer que a amava. Envergonhada, ela nada respondeu. Apenas sorriu, ainda lustrada de suor e emanando um cheiro ácido. Eu queria dizer a mesma coisa, Lúcia. Fiquei quieta. Eu só te amei daquela vez, mas te garanto. Garanto que foi algo único.

Quando olho para esse espelho, espero que ela esteja atrás de mim. Só que existem apenas os azulejos azuis do banheiro, a toalha encardida e, logo adiante, o box. Não estou possuída pelas camadas suntuosas de loucura, não vejo os fantasmas do passado que visitavam minha mãe com recorrência. O meu reflexo no espelho sujo é a única coisa que se mantém. Quando o toco, a frieza do vidro não me reconforta. A textura se assemelha ao seu corpo morto, quando acariciei seu rosto sereno no caixão, me despedindo, na capela do cemitério.

Os corredores do bloco seguem escuros, giro a chave e abro a porta de leve. Alguém caminha no meu encalço, sinto que ele pode estar sorrindo, se aproximando. Venço o medo e viro para trás. Não existe nada, apenas o escuro avançando até as escadas bifurcadas. Quando deito a cabeça no travesseiro, escuto passos e vozes reminiscentes, surgidas do acaso, como ecos na vastidão noturna. Algum vizinho deve ter deixado a televisão ligada ou talvez estejam apenas agitados nesta noite, final de semana costuma ser assim. Durante algum tempo, acreditei nisso. Até que uma teoria melhor acabou tomando minha cabeça, era mais convidativa. Ela surgiu durante minha leitura de um volume fino e encardido da Estação Carandiru, de Drauzio Varella. Encontrei o livro vagando por um sebo, no Centro do Rio de Janeiro. As prateleiras estavam recheadas, o cheiro do lugar era estranho e lembrava mofo e papel decomposto. A quantidade era tão assombrosa que fazia surgir torres de encadernados pelo chão, desordenados. A sensação de estar sendo emparedada era presente, ocasionava certa vertigem na minha visão, ainda confusa, que não sabia onde se fincar. Só que aquele livrinho, contido numa edição de bolso, veio parar nas minhas mãos. Meu desespero fez com que eu o comprasse, queria sair daquele labirinto o mais rápido possível. Depois da leitura, ainda imersa na história, emendei assistindo a um documentário sobre o presídio que encontrei no YouTube. No início do filme, é falado como Deus e o Diabo se revezavam para andar sobre as muralhas da Casa de Detenção. Tinha se tornado comum entre os presos acender uma vela para os dois, buscando que a equidade reinasse nas suas preces.

Talvez seja isso mesmo. Nem Deus, nem o Diabo. Apenas a morte circulando por esses corredores. Tenho certeza da sua presença.


Pedro Lucca nasceu em Nilópolis, na Baixada Fluminense. É escritor e roteirista. Tijolos & Babel (Madame Psicose, 2026) é seu romance de estreia. Vive no Rio de Janeiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *