GABRIEL MARINHO – 3 poemas
GABRIEL MARINHO – 3 poemas

GABRIEL MARINHO – 3 poemas

 

 

Rato

 

Veneno. Numa das pastas antigas do meu pai, desbotada e áspera ao toque, escondia-se – mesmo após o divórcio – uma antiga fotografia da minha mãe. Era uma adolescente, à época; olhos cor de grama. Feições distraídas. Estava grávida – de mim, imagino. Recolhi. Guardei-a na estante do quarto, dentro d’uma cestinha de madeira. Veneno. Madrugada. Um vulto caiu do telhado. Morreu no interior da cesta; apodreceu sobre a imagem. Encontrei-o na manhã seguinte. Um cheiro doce emanava do animal; corpo de pelagem cinza por onde uma mosca solitária desenhava seus rastros. Alguns riram – fingi rir. Desfizemo-nos da cesta e, com ela, de minha mãe. Como um criminoso confesso, preservo sua memória na letra – em vão. Poemas não descrevem as minúcias do verde. Sabe-se que é grama, mas que grama?

 

 

 

 

Asfalto

 

A paisagem desdobrava-se num deságue sinuoso

“Meninos de rua”; pés descalços

Mesmíssimos rostos

 

                                            São Jorge; banhavam-se na garoa vespertina

                                                                        Costelas à mostra, sfumato

                                                                                                 sob o cinza

 

Fito-os através do ferruginoso das grades

“Meninos de rua”; arbitrários

Plúvio-liberdade

 

                                   São Jorge; almejo a chuva – suas carícias e gostos

                                                                          Afogo-me árido. Busco e,

                                                                                        buscando; morro

 

 

 

 

Marambaia

 

Mbara-mbai; sóbrio idílio numa

metrópole embriagada

Examino teus detalhes

Anônimos entalhes – histórias

 

Desvela-te, bairro-ilha

Diorama de murmúrios

Destranca tua alcova; entoa

versos de restinga

 

Desdobra teus rascunhos

Mudo bairro-mundo

Solitude vespertina

 

Veste-se de memória

Dá voz à tua lírica;

Algum dia


Gabriel Marinho

Natural de Belém do Pará, Gabriel Marinho começou a escrever aos quinze anos de idade, iniciando seu trabalho como contista e, posteriormente, apaixonando-se pela escrita de poemas e pequenas crônicas. Atualmente graduando do curso de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa pela Universidade do Estado do Pará, almeja produzir trabalhos mais sólidos, visando fundamentar-se entre os grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *