MASSILON SILVA – 2 poemas
MASSILON SILVA – 2 poemas

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NÃO GOSTO DE MAR

 

Examinei o conjunto,

Fiquei meio apalermado,

Pus a vergonha de lado

Precisava chegar junto.

Querendo puxar assunto

Perguntei sem calcular,

Se queria navegar

Numa canoa furada,

Respondeu toda entojada:

– Não, eu não gosto de mar.

 

Modifiquei a proposta,

Fui um pouco mais discreto,

Pensei no fato concreto,

De canoa ela não gosta.

Arrisquei em nova aposta:

Então podemos nadar,

Sem risco de se afogar,

Como faz qualquer atleta?

A resposta foi direta:

– Não, eu não gosto de mar.

 

Naquela situação

Ficou de cara amarrada,

E deixá-la encabulada

Não era minha intenção.

Mudei a dissertação:

– Então podemos pescar?

Perguntei por perguntar,

Sabendo que ela não gosta,

E veio a mesma resposta:

– Não, eu não gosto de mar.

 

Fiz nova meditação,

Revisei meu pensamento,

Apostei no sentimento,

Redobrei a sedução.

Pra minha decepção

Ela não quis aceitar,

Meu convite pra jantar

No restaurante da praia.

Declinou, rodando a saia:

– Não, eu não gosto de mar.

 

 

Cometi erro grosseiro

Na festa de fim de ano,

Pular onda era meu plano

No mar do Rio de Janeiro.

Desmoronou por inteiro

Meu poder de argumentar,

Além de desaprovar

E taxar como loucura,

Falou cheia de frescura:

– Não, eu não gosto de mar.

 

 

Para provar meu amor,

Quero levar essa musa,

Pra ver um show de Cazuza

Na Praia do Arpoador.

Sem  perguntar o valor

Comer ostra e caviar,

E quando a noite chegar

Num iate de cem pés,

Vê-la gritar do convés:

– Sou doidinha pelo mar!

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A SAGA DE UM QUASE HERÓI

 

Eu já me considerava

Dos heróis o derradeiro,

Mas ainda alimentava

O sonho de ser guerreiro.

 

Vitórias acumulei

Contra déspotas tiranos,

Nas batalhas que enfrentei

Venci gregos e baianos.

 

Revelei a Prometeu

Como enfrentar o perigo,

Até Ícaro aprendeu

Colar as asas comigo.

 

Com Ulisses fiz um trato

Difícil de ser cumprido:

A proteção de Penélope

Na ausência do marido.

 

Para cumprir minha parte

Fui aos trancos e barrancos,

Enfrentei os pretendentes

Frente a frente e pelos flancos.

 

Com uma palavra, um gesto,

Dominava o mundo inteiro

Ensinei ao deus Hefesto

A profissão de ferreiro.

 

Diomedes era triste

Porque lhe faltava audácia,

Sua lança estava em riste

Mas sem nenhuma eficácia.

 

Por ser mui valente e sério

Coroou-se rei da Trácia,

Ele, senhor de um império,

Eu, o rei da pertinácia.

 

 

Quando ainda em tenra idade,

Uma vidente atrevida

Falou-me toda verdade,

Vicissitudes da vida.

 

Comprei um cavalo alado,

Pura raça e boa cria,

Conheci de cabo a rabo

Europa, França e Bahia.

 

Enviado do futuro

Por fidalgo cavaleiro,

Dito de triste figura

Ginete forte e faceiro.

 

Mais tarde, em terras de Espanha

Rocinante engendraria,

Junto a seu famoso dono

Toda sorte de porfia.

 

Desde vencer os moinhos

Até a melhor ideia:

Percorrer longos caminhos

E conquistar Dulcineia.

 

Um dia, já preparado

Em todas artes da guerra,

Por Páris fui convocado

A sair da minha terra.

 

No reino de Agamenon

Comecei minha bravata,

Qual um Papa em Avignon,

Coberto de ouro e de prata.

 

Isso prometera Páris,

Jovem de rara beleza,

Senhor de terras e mares,

Orgulho da realeza.

 

Imberbe, inexperiente,

Ainda de poucos anos,

Para os aqueus insolente

Mas orgulho dos troianos.

 

 

 

Pediu-me em nome de Zeus,

Deus de gregos e troianos,

Que raptasse a princesa,

Senhora dos espartanos.

 

Penetrei nos aposentos,

Fiquei vis-a-vis com ela,

Menelau bateu na porta,

Fugimos pela janela.

 

Helena estava dormindo,

Tomei-a inteira nos braços,

Depois conferi os traços

Da rainha raptada,

A mais bela entre as mulheres,

E do rei a mais amada.

 

Bela como eu nunca vi,

Acordou roubando a cena,

Confesso que me aturdi

Ao vê-la calma e serena.

Só mais tarde descobri

Que a própria Palas Atena,

Deusa, senhora de si,

Vendo a beleza de Helena

Voou pra longe dali.

 

Quando se deu pela falta

De sua amada consorte,

Menelau nos perseguiu,

Vimos a cara da morte

 

Saímos, Helena e eu

Em Rocinante, a trotar,

Troia toda iluminada,

Páris a nos esperar.

 

Singramos o Mar Egeu,

E se a memória não erra,

Pela estrada que Odisseu

Andou voltando da guerra.

 

Nossa parada em Ogígio

Foi breve, um quarto de hora,

Bebemos água de coco,

Fomos depois ilha a fora.

 

 

Calypso, Nossa Senhora!

Enciumada de Helena

Torceu a cara, fez cena,

Depois nos mandou embora.

 

O filho de Poseidon,

Ciclope mal encarado,

Cara de poucos amigos

E corpo desajeitado,

Gorducho, feio e glutão,

Um só olho pra que visse,

Despertei sua atenção

Quando lhe falei de Ulisses.

 

Mas conosco foi gentil,

Deu banquete colossal,

Uma coxa e um quadril,

Partes de grande animal.

 

Às vezes não me dei conta

Dos perigos que corria,

Na tenda de Agamenon

Quase que entrei numa fria,

O rei enfrentava Aquiles,

Mas juro que eu não sabia.

 

Tornaram-se contendores

Numa disputa amorosa,

Por uma dama formosa,

Senhora de dois senhores.

 

Convenci Agamenon

A devolver a donzela,

Briseida era o nome dela,

Aquiles seu protetor,

Homem de grande valor,

Um guerreiro competente,

Bonito, forte e valente,

Caído de amor por ela.

 

Quando chegamos a Troia

Preparei-me para a luta,

Helena quis ser astuta,

Apresentou-se primeiro

Dizendo é este o guerreiro

Sem igual na força bruta.

Páris não moveu um dedo,

Fingiu não nos conhecer,

Deu de ombros, nada a ver,

Já não queria lutar.

Preferiu lançar-se ao mar,

Deixou Helena comigo,

E foi procurar abrigo

Fugindo do grande equino.

Foi cumprir o seu destino,

Fundar Roma com Eneas.

Com cara de decidido

Disse é o fim da epopeia,

Invente uma nova ideia,

Devolva Helena ao marido.

 

Incendiou-se a cidade,

Desmoronou-se o Império,

Nem luta nem adultério,

Morremos no mesmo instante.

Perdido, em terra distante,

Nunca vi-me tão tristonho,

Canhestro, inábil, bisonho,

Foi grande a decepção.

Quando despertei do sonho

A história estava encerrada,

Mal urdida e mal contada,

Não fui herói nem vilão.

Massilon Silva

MASSILON SILVA é natural de Alagoas, jornalista, escritor e poeta, foi correspondente do Jornal de Alagoas, Jornal de Hoje e Desafio, todos de Maceió. É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Academia Brasileira Templária de Letras e Academia de Letras de Pão de Açúcar.

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