Sábado. Noite de céu nublado. A cidade que jamais para, mantém seu ritmo.
O bar se apresentava um tanto vazio, clientes aqui e bem acolá. Uma que acabou de entrar apresenta semblante carregado, ombros caídos, está cabisbaixa, caminha como se carregasse pesadas bigornas nos ombros, maquiagem já borrada. Lágrimas? Senta-se ao balcão.
— Boa noite. — Cumprimentou Pietro, o barman. — O que vai ser?
Dado o estado de ânimo da cliente, ela demorou a entender que o barman se dirigia a ela.
— Boa noite. Um Negroni, por favor.
Pietro, dosador na mão, mediu precisamente as quantidades iguais gin e das duas outras bebidas componentes, despejou-as no elegante copo já cheio de gelos em forma de esfera e finalizou com meia rodela de laranja.
— Cheers! — Falou o barman.
Ela mirou o copo e discreto sorriso brotou em seu rosto.
— Obrigada.
Em menos de vinte segundos, restavam no copo as esferas de gelo e a rodela de laranja. Quase que imediatamente, novo pedido:
— Um Pink Tonic.
No interior da taça com gelo e uma rodela de limão, Pietro tornou a despejar a dose medida gin e água tônica. Concluiu com a adição de várias fatias de morango.
— Amélia. Meu nome. Qual o seu? Caso não se importe em dizer.
— Nenhuma objeção, Pietro.
Ela se levantou, girou em frente ao balcão e tornou a se sentar.
— Notou a mochila invisível em minhas costas?
— Desculpe, não consegui…
— Eu sei. Só eu, que a carrego é que sinto o peso.
— O que há de tão pesado dentro dela?
Meio copo da Pink Tonik se esvaziara em um grande gole.
— Desilusões, decepções, mentiras, traições… muitas. Acho que depois da de ontem, não conseguirei mais me envolver com ninguém.
A outra metade da bebida desceu goela abaixo da cliente.
Pietro encarou-a com um olhar diferente, talvez apiedado. Não tanto, pois, aquele balcão recebia muitas visitas, tanto que ele o apelidou de muro das lamentações.
— Se me permite um comentário…
— Por favor…
— Sou bem mais rodado do que você, já vivenciei situações iguais. Doeu, machucou, mas a gente sempre aprende com essas coisas. Não deixei de me relacionar, mas criei uma carcaça, uma espécie de blindagem. Agora, só aproveito o que há de bom nos relacionamentos…
Amélia o escutou atenta. Pareceu refletir e levantou o dedo, como a pedir permissão para falar.
— Um Cosmopolitan, por favor.
— Certeza?
— Indubitavelmente!
Gin, suco de cranberry, suco de limão, licor de laranja e uma tira de casca dessa fruta para enfeitar a borda da taça.
— Recomendo ingerir com parcimônia desta vez…
Amélia, expressão do rosto mais descontraída, sorriu e virou de uma vez.
— Você é muito bom no que faz! Me ouviu e até me deu conselhos. Não sei se sabe, mas hoje, 4 de outubro, é o Dia do Barman… Parabéns pela data.
— Ah, é mesmo, não me lembrava!
A cliente abriu a bolsa, remexeu o conteúdo até encontrar o que procurava. Deixou várias cédulas, bem mais do que resultaria a conta do que consumiu.
— Aceite! É de coração.
Amélia, andar trôpego, rumou para a porta. Deu sorte ao ver um novo cliente chegar e sair do táxi. Entrou no veículo e disse ao motorista para onde queria ir. Encostou a cabeça na janela.
Ao chegarem, o motorista se virou para a passageira.
— Senhora!?
Amélia não se moveu.
— Senhora, chegamos.
Ela continuava imóvel. O motorista abriu a porta, saiu do carro, deu a volta até chegar à porta em que Amélia estava encostada. Quando a abriu, a passageira desabou. Não fosse o motorista, algo pior poderia acontecer… porém, por mais que ele tentasse, Amélia não despertava.
Lá no bar, Pietro preparava novo drink: uma caipivodka. Com ar de satisfação, imaginava o somatório das gorjetas recebidas nos últimos dias. Os lucros do bar, seguramente, dariam um salto. O patrão comentou que o novo fornecedor de bebidas cobrava preços bem abaixo dos praticados pelos concorrentes.

Evandro Valentim de Melo é escritor brasiliense, com participação em diversas antologias e periódicos literários virtuais. Idealizador e organizador do Concurso Literário Beleza e Simplicidade em Contos e Crônicas, que em 2025, chegou à 7ª edição consecutiva. “Breves Infinitos – Vidas em Contos e Encontros” (Tagore, 2025) é seu mais recente livro, o de número 13.

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