por Mayk Oliveira
poeta e colunista da Revista Navalhista
O códice esquecido: A Bíblia como fundamento literário
Toda tradição literária nasce de uma disputa entre memórias que se afirmam e memórias que são empurradas para as margens. O cânone, frequentemente apresentado como um território natural de grandes obras incontestáveis, é, na verdade, o resultado de processos históricos de escolha, exclusão e legitimação cultural. Desde o Renascimento, a literatura ocidental consolidou uma narrativa sobre si mesma que privilegia a herança clássica greco-romana como fundamento estético, filosófico e poético. Nesse cenário, figuras como Homero, Virgílio, Dante Alighieri e John Milton foram elevados à condição de pilares estruturantes de uma tradição que se pretende universal.
Paralelamente a essa linhagem consagrada, desenvolveu-se outra tradição textual de extraordinária potência simbólica e poética: a literatura bíblica. Os livros que compõem a Bíblia, da Torá aos Salmos, passando pelos discursos visionários dos Profetas e pelas narrativas dos Evangelhos, constituem um dos mais vastos repositórios de metáforas, imagens, ritmos e estruturas narrativas da história da linguagem humana. Ainda assim, por muito tempo foram lidos predominantemente sob a chave da teologia, e não da estética, como se a dimensão literária dessas obras estivesse subordinada exclusivamente ao seu conteúdo religioso.
Esse contraste revela um paradoxo fundamental, enquanto o imaginário ocidental bebe constantemente das imagens bíblicas, o discurso crítico raramente as coloca no mesmo plano de análise reservado aos monumentos clássicos da Antiguidade. O resultado é um cânone que, ao mesmo tempo em que se alimenta dessa tradição, mantém-na numa posição ambígua, entre o fundamento simbólico e a invisibilidade crítica. O ensaio “O principado greco-romano e o resgate do cânone judaico-cristão” com sua introdução“A influência pagã no cânone ocidental”, de Mateus Ma’ch’adö, se insere nesse campo de tensão ao problematizar as hierarquias que organizaram a tradição literária do ocidente. O autor propõe uma revisão das lentes através das quais o cânone foi construído, deslocando o debate da simples genealogia cultural para uma reflexão mais profunda sobre memória, poder simbólico e critérios de legitimidade estética.
Ma’ch’adö , apresenta uma reflexão densa e crítica interrogando os fundamentos de seu cânone e propondo um deslocamento de perspectiva em relação à presença (ou ausência?) da matriz judaico-cristã no horizonte estético. O texto destaca-se pela amplitude das referências, pela força argumentativa e pela intenção de investigar os paradigmas que estruturam tanto o pensamento literário quanto as práticas culturais que o sustentam.
O ponto central do ensaio reside na contraposição entre dois sistemas poético-culturais: de um lado, a herança greco-romana, erigida como parâmetro máximo da literatura ocidental, legitimada pelas academias e constantemente reafirmada pela tradição; de outro, a literatura bíblica, frequentemente confinada à esfera religiosa e, assim, desconsiderada enquanto produção estética de igual ou maior densidade poética. Essa dualidade estabelece o eixo de leitura do texto e fundamenta a principal tese: o cânone ocidental, ao privilegiar a estrutura homérica, incorre em um esquecimento seletivo, relegando ao segundo plano a riqueza poética da Torá e seus salmistas do evangelho.
Outro grande ponto de destaque do ensaio reside na clareza com que o autor evidencia a força estruturante do pensamento greco-romano, não apenas sobre a literatura, mas também sobre a própria teologia cristã, que teria assimilado categorias pagãs em sua constituição. Ao indicar que até mesmo o Novo Testamento chega a nós em língua grega, o texto sugere a profundidade da “helenização” do cristianismo, propondo que o “hibridismo canônico”, a fusão entre elementos monoteístas e politeístas, produziu um imaginário literário e religioso em permanente tensão. Essa leitura é enriquecida pela articulação com exemplos históricos, que vão da Divina Comédia ao Paraíso Perdido, demonstrando como mesmo grandes poetas cristãos mantiveram forte diálogo formal e conceitual com a tradição pagã.

Outro aspecto relevante é a valorização da poética bíblica como experiência estética singular, marcada por lacunas, ambiguidades e alusões, em contraste com a narratividade explícita e direta de Homero. Ao recorrer a teoria de Erich Auerbach, em Mimesis, o autor fortalece a análise, sobretudo quando se ressalta a diferença entre a cena do reconhecimento de Ulisses e a narrativa do sacrifício de Isaac. O ensaio, nesse ponto, alcança uma de suas contribuições mais interessantes: a defesa da literatura bíblica como espaço de participação ativa do leitor, capaz de abrir dimensões espirituais e simbólicas que ultrapassam a mera fruição estética.
O texto também se distingue pela crítica ao cenário contemporâneo, diagnosticado como literatura morna e ideologicamente capturada, seja pelo sentimentalismo exacerbado do “eu lírico selfiado”, seja pela militância política que engessa a criação literária. Nessa perspectiva, a proposta de uma literatura cristocêntrica surge como ato de resistência e, paradoxalmente, de verdadeira transgressão diante de um mundo secularizado. O argumento é ousado e provoca a reflexão sobre a função da literatura em um contexto cultural dominado por paradigmas antropocêntricos e pós-modernos.
Do ponto de vista acadêmico, a principal contribuição do ensaio encontra-se na tentativa de desnaturalizar o cânone. Ao afirmar que o cânone judaico-cristão deveria ocupar lugar fundante na tradição literária, o autor convida a crítica a reavaliar os critérios de legitimação estética. Ao mesmo tempo, o texto lança mão de uma retórica marcada por metáforas, alusões bíblicas e imagens poéticas, a exemplo da oposição entre a “cicatriz de Ulisses” e a “ferida de Jacó”, que conferem densidade literária ao próprio ensaio, situando-o na fronteira entre crítica acadêmica e escrita ensaística.
Em síntese, A influência pagã no cânone ocidental é um ensaio provocativo que reabre o debate sobre as matrizes da literatura ocidental, propondo uma leitura menos unilateral e mais inclusiva da tradição bíblica. Seu mérito maior está em evidenciar que a literatura não se limita a formas consagradas pela academia, mas é atravessada por disputas simbólicas, espirituais e culturais que moldam o imaginário coletivo. Ao reivindicar o reconhecimento da Bíblia como “código dos códigos” da literatura, o texto não só resgata a dimensão estética das Escrituras, mas também questiona os fundamentos de um cânone que, historicamente, marginalizou essa vertente. Assim, a obra se insere como contribuição instigante ao debate sobre literatura comparada, teoria do cânone e crítica cultural, oferecendo caminhos para pensar a relação entre poesia, espiritualidade e tradição.

Mateus Ma’ch’adö é antipoeta, escritor e ensaísta, formado em gestão ambiental pela Faculdade Prof. Luís Rosa (Jundiaí). Em 1997 foi cofundador e diretor de cultura da AEPTI (Associação dos Escritores, Poetas e Trovadores de Itatiba-SP). Participou em antologias e na revista literária Beatrizos (Argentina), vencedor de prêmios literários, entre eles, Ocho Venado (México), e um dos finalistas do Mapa Cultural Paulista (edição 2002). Entre 2017 e 2018, foi aluno de música clássica indiana com o citarista, escritor, tradutor e poeta Alberto Marsicano. Autor dos livros publicados Origami de metal (poemas, Editora Pontes, 2005), com prefácio do poeta Thiago de Mello; A mulher vestida de sol (poemas, Editora Íbis Líbris, 2007); A beleza de todas as coisas (poemas, Editora Íbis Líbris, 2013), com prefácio de Alberto Marsicano, onde finalizou sua primeira etapa como anti-poeta; As hienas de Rimbaud (romance, Editora Desconcertos, 2018); 17 de junho de 1904 — O Dia que não amanheceu (ensaio, Editora Caravana, 2022), sobre a obra do escritor irlandês James Joyce, e Nerval (poemas, Editora Caravana, 2022), um livro de transição. Em 2023, iniciando uma nova fase no seu trabalho, publicou o primeiro livro da trilogia Poiesis Religare, intitulado YHVH, pela UICLAP, através de autopublicação. Agora, em 2025, está publicando o novo livro de poemas O Evangelho segundo as HQs, pela Editora Mondru, iniciando a sua segunda trilogia poética. Atualmente está finalizando o livro Um bode para Adonai — outro para Azazel. É autor do canal de literatura Biblioteca D Babel no YouTube.
