DANIELA PICCHIAI – Bufunfa [conto]
DANIELA PICCHIAI – Bufunfa [conto]

DANIELA PICCHIAI – Bufunfa [conto]

Em uma tarde de verão, com paisagem uniforme e algumas variações de verdes e marrons, entre o gramado, o lago e as árvores, um casal de balanços alegrava o ambiente. Minha irmã mais velha pedia ao meu pai para que a balançasse cada vez mais rápido e alto, enquanto eu corria ao redor do lago. Entre o medo de cair no lago e os olhares de meu pai, o reflexo do sol rebateu em algo que me fez perder a noção do espaço, e assim correr mais devagar.

Desviando o olhar da luz ardente, e atenta para não cair em terra ou no lago, encontro um senhor com um isopor e pacotes prateados e coloridos, que rompiam com aquela paisagem uniforme do parque. Aos poucos fui caminhando em direção ao senhor e, conforme me aproximava, meu pai parou de balançar minha irmã e veio em minha direção, nos encontramos bem na frente do senhor, que sorriu e bagunçou meu cabelo.

Os pacotes prateados e coloridos eram biscoitos, quando percebi já fui tocando em todos, mas rapidamente meu pai disse:

– Escolha um.

Enquanto escolhia entre o pacote vermelho e o prateado, minha irmã chegou esbaforida e disse:

– Eu também quero. 

Papai rapidamente avisou:

– Escolha um.

Com os biscoitos escolhidos, meu pai colocou as mãos no bolso, tirou um papel cor de rosa e entregou ao senhor do isopor. Ele a juntou com os outros tantos papéis cor de rosa e nos entregou os pacotes de biscoito. Foi assim meu primeiro contato com ela, a bufunfa.

Passamos o resto da tarde comendo biscoitos, balançando, correndo ao redor do lago e assim as férias terminaram.

A manhã seguinte foi agitada, minha mãe andava de um lado para o outro, pedindo para que eu e minha irmã nos trocássemos e fossemos para o carro. Rápido, ela dizia. Nós tentávamos, mas nem sempre conseguíamos. Nesse dia o que não estava rápido era o trânsito, toda segunda de manhã era a mesma coisa, o caminho para escola todo parado. Nessa lentidão, quando estávamos quase chegando na escola, minha mãe sacou a bolsa e nos deu uma cor de rosa, igual ao papai no dia anterior tinha dado para o senhor dos biscoitos coloridos. Mas antes mesmo de nos entregar, logo disse:

– Não é para tomar refrigerante …

Não me lembro como ela terminou a frase, fiquei olhando firmemente para a bufunfa. O rosto da mulher desenhado naquele pedaço de papel não parecia de alguém muito feliz, tinha o olhar distante, não entendia o porque de tanta tristeza.

Já chegando na escola, minha mãe, que ao longo do lento trajeto não tinha parado de falar, finalizou dizendo que minha irmã e eu deveríamos lavar as mãos, já que ela, a bufunfa, era suja.

Não me aguentei e perguntei:

– Suja? Por que suja?

– Porque ela é passada de mão em mão, disse mamãe.

Logo pensei — mas sem compartilhar, já que minha mãe ficava irritada toda vez que estava atrasada para algo —: tantas coisas passam de mão em mão, talheres, copos, canetas, mas porque a sujeira era somente da bufunfa? Ela me parecia triste, mas ao mesmo tempo era tão legal, tinha me dado um biscoito colorido na tarde anterior e agora vou tratá-la assim?

Chegando na escola, na entrada, minha mãe falou para a Tia que não teve tempo de preparar o lanche, que minha irmã e eu deveríamos escolher algo da cantina. A Tia não gostou muito da ideia, parecia julgar minha mãe, que sem dar muita importância seguiu acelerando o carro.

Eu estava feliz, era a primeira vez que poderia escolher meu próprio lanche, não teria que tomar o suco de beterraba ou comer as frutinhas de sempre. Na hora do recreio, a Tia me acompanhou até a cantina e o cheiro de padaria me fez esquecer que estava na escola. Na vitrine de salgados, escolhi o enroladinho de presunto e queijo, estava dourado e com o queijo derretido na borda, parecia delicioso. Olhei para a bufunfa, agradeci silenciosamente pela alegria daquele momento e a entreguei para a Tia da cantina. 

Retornei para o pátio com meus colegas. Eles olhavam para o meu enroladinho e parecia que o desejavam, enquanto eu, logo na primeira mordida, percebi que o queijo derretido na verdade era massa crua, mas todos estavam tão curiosos sobre aquele lanche diferente que eu mantive a pose e comi tudinho.

            A semana correu diferente daquela segunda-feira. No resto dos dias voltamos a levar as frutinhas e sucos para o lanche. Até que chegou o final de semana e, entre meu desejo de ir ao parque e a vontade de meus pais em resolver as tantas cosias que sempre tinham para fazer, a segunda opção foi a escolhida. Iriamos ao centro de São Paulo.

Quando lá estávamos, enquanto procurávamos a loja de um senhor, amigo do meu avô que vendia cortinas e tapetes, minha mãe segurava minha mão e no outro braço agarrava a bolsa com força. A rua estava cheia de barracas e pessoas falando alto, a bufunfa também estava lá, lembrando meu enroladinho de presunto e queijo, sendo desejada por todos.

Achava graça em encontrá-la sendo chacoalhada pelo alto nas mãos dos comerciantes, em meio aos trocadilhos e clamores de promoções. Enquanto eles a esbanjavam, minha mãe a escondia no fundo da bolsa, dentro do forro, um lugar bem escuro e sem ventilação. Era engraçado ver que enquanto uns a abanavam ao vento, outros a escondiam como uma criminosa. Até que encontramos a loja do Senhor Omar, era pouco iluminada, não tinha janelas e estava coberta de tapetes empilhados e cortinas por todas as paredes e também pelo chão.

Minha mãe se apresentou, os dois se abraçaram e eu só conseguia espirrar. A conversa foi longa, assim como a escolha do tapete, não conseguia ver a diferença entre eles, os desenhos eram parecidos e as cores também, eram todos em tons de vermelho, mais escuros que o pacote de biscoito do senhor do parque. Enfim, minha mãe encontrou o que procurava, abriu a bolsa em cima da pilha de tapetes, tirou tudo o que estava dentro e lá no fundo estava a coleção de bufunfas. Eram várias, de diferentes cores, nunca tinha visto tantas assim de pertinho, juntas e coloridas. Quando fui tentar tocá-las minha mãe as entregou ao Senhor Omar que a retornou com um papel. 

Fiquei sem entender essa troca, mas estava tão curiosa, gostaria de saber qual era a diferença entre a rosa, a azul, a marrom, a laranja e todas as outras. Na hora, pensei que poderia tentar me aproximar enquanto seguíamos em direção ao ponto de ônibus, iria reparar nas mãos dos ambulantes, tentar tocá-las, mas não tive chance, minha mãe abraçou a bolsa, segurou firme em minha mão e caminhou tão rápido que me senti arrastada.

O final de semana passou rápido, não tive resposta para as minhas dúvidas e também não tive chance de ir ao parque.

Na segunda-feira, soube que o pipoqueiro estaria em frente à escola durante toda a semana. Fiquei animada e logo pensei na bufunfa: ela poderia alegrar os dias cansativos na escola, mas onde encontrá-la? Perguntei aos meus pais e eles me disseram rapidamente que ela estava em falta com eles. Não acreditei, tinha visto uma coleção de bufunfas no forro da bolsa de minha mãe, de qualquer forma, fingi que tinha entendido e fui dormir.

Acordei no dia seguinte pensando nela. A bufunfa não saia da minha cabeça, tinha a certeza de que a pipoca com queijo da escola iria alegrar a todos. O dia seguiu com suco, frutinha e muitas atividades, só que desta vez a bufunfa estava marcando presença nos meus pensamentos e, enquanto a professora falava e falava, pensei em um plano.

Sabia onde minha mãe a escondia, no forro do fundo da bolsa, então, quando todos fossem dormir, eu iria raptar a coleção de bufunfas de minha mãe. Foi na aula de geografia que eu elaborei o plano de execução. Iria me deitar no horário de sempre, para minha mãe não desconfiar. Ficaria de pijamas e meia para não fazer barulho quando eu me levantasse. A principal questão era papai, como trabalhava até muito tarde e só chegava em casa depois do jantar teria que me manter acordada, para isso comeria um chocolate da minha reserva — mamãe sempre diz que açúcar é um estimulante. Assim que ele chegasse em casa e fosse para o quarto, iria começar a execução do plano. 

Na noite de terça-feira, como de costume, jantamos juntas minha mãe, minha irmã e eu. Minha mãe tinha uma verdadeira obsessão por legumes, vegetais, sucos naturais e pão também. Minha irmã e eu não tínhamos muita escolha, o prato da noite era sopa, o pão dava uma solidez ao jantar. Jantamos e pouco depois minha mãe disse:

– Hora de tomar banho meninas. 

Tomei banho antes da minha irmã e fui direto para o quarto. Como parte do plano, fiquei por um tempo fingindo interesse pelos livros que tinha no quarto, caso da minha mãe abrisse a porta sem bater, como sempre fazia e fez nessa noite. Logo após o banho da minha irmã, abriu a porta e disse:

– Boa noite, filha. Durma com os anjinhos.

Nunca disse a ela que tinha pavor de ver anjinhos de madrugada no quarto, não queria deixá-la chateada. Então eu sorria e agradecia pelo carinho. Assim que ela fechou a porta, segui com o plano. Comi não só um chocolate, mas quase minha reserva inteira, estava morta de sono e não poderia deixar essa oportunidade passar.

Demorou um tempo e meu pai finalmente chegou. Sabia porque ele era barulhento para abrir e fechar a porta e também ao andar pela casa. Como minha mãe sempre deixava o jantar pronto, ele foi direto para cozinha, ouvi o barulho de pratos e alguns minutos depois, por debaixo da porta, percebi que ele estava indo dormir, já que apagava todas as luzes da casa. Dizia que luz acessa era gasto, totalmente diferente da minha mãe que chegava em casa e acendia todas.

Esperei mais alguns minutos para que ele pegasse no sono e assim que ouvi o primeiro ronco, abri a porta do quarto e fui lentamente em direção a sala. Lá estava a bolsa de minha mãe, pendurada na cadeira. Abri o zíper com cuidado, retirei a carteira, balas, alguns papeis amassados, um tercinho, batom e outras coisinhas miúdas que não sei bem o que era. Quando tudo estava para fora, consegui acessar o rasgo no forro da bolsa.

Meu coração bateu mais forte, não sabia se era por causa da emoção de fazer coisas às escondidas ou se era excesso de chocolate. Nessa altura, nada mais importava, apenas o fato de ter encontrado a coleção de bufunfas da minha mãe, não eram muitas, como eu lembrava na loja do Senhor Omar, mas não era apenas uma como quando meu pai comprou biscoitos no parque. Peguei toda a coleção, coloquei dentro da meia, voltei com todas as coisas da minha mãe para dentro da bolsa e, quando estava fechando o zíper, percebi que o tercinho tinha caído no chão, abri novamente o zíper e o coloquei dentro da bolsa. 

Parecia que meu coração estava batendo ainda mais forte. Apesar da vontade, não podia correr para o quarto para não fazer barulho, então segui firme, com passos lentos combinados com o ronco do meu pai. O corredor essa noite parecia mais longo e o quarto mais longe, meus passos estavam curtos, ainda assim, consegui finalmente chegar no quarto. Quando fechei a porta, deixei escapar um pouco da emoção que me tomava, pensei que todos iriam acordar, mas isso não aconteceu.

Dormi com a coleção de bufunfas enroladas em minhas meias. O dia amanheceu. Estava cansada e com sono, mas tinha espaço para uma empolgação nada comum para uma quarta-feira.

Chegando na escola, vi o pipoqueiro. Tentei não demonstrar muita animação para minha mãe não desconfiar e, assim que ela partiu com o carro, pedi ao pipoqueiro a caixa todinha de chicletes de morango. Assim que entrei na sala já fui distribuindo os chicletes para sala toda, a turma ficou super animada. Por isso, na hora do intervalo, foi a vez da pipoca com queijo, dessa vez a bufunfa já estava escassa e só pude oferecer aos meus amigos mais próximos.

Nesse dia, me senti a garota mais legal da escola, a alegria era tanta que nem me lembrei do suco e das frutinhas, só pensava que quem tinha me causado tanta felicidade era a bufunfa, ela se transformou em alegria, assim como o milho se transformava em pipoca. Não vi o dia passar, estava apenas aproveitando o momento e logo que as aulas terminaram minha mãe já estava no portão da escola para buscar minha irmã e eu. Ela nunca tinha chegado tão cedo. Quando entrei no carro, sua cara não estava nada boa. Não perguntou como foi a escola, não disse nada, e fomos as três em silêncio até em casa.

Em casa, ela pediu para que minha irmã e eu nos sentássemos no sofá, ela ficou em pé, bem na nossa frente, e perguntou:

– Quem pegou a bufunfa que estava na minha bolsa?

Minha irmã logo respondeu:

– Não fui eu…

Seguiu apontando o dedo para mim finalizando:

– Ela deu chiclete e pipoca para toda a escola, a Marina do sexto ano que me disse.

Fiquei gelada, dos pés a cabeça, não sabia o que dizer. Abaixei a cabeça e assim fiquei, sem afirmar nem que sim nem que não. Minha mãe seguiu com o interrogatório:

– É verdade isso, minha filha?

Ela estava tão decepcionada que toda alegria do meu dia tinha ido embora junto com o apontar do dedo da minha irmã. Eu não conseguia dar uma resposta para minha mãe, não queria deixá-la triste, queria poder dar a ela um chiclete, mas tinha distribuído todos entre as turmas do primeiro ano…

Ela então pediu que minha irmã fosse para o quarto. Eu segui no sofá. E assim que minha irmã fechou a porta, minha mãe disse:

– Você não precisa roubar é só pedir. Você está de castigo por quinze dias, sem televisão e sem chocolate, vá para o seu quarto. Entrei no quarto e chorei. Chorei de saudades da alegria que senti naquela manhã e chorei também por perceber que a felicidade não permanece na vida das pessoas tanto quanto o desejo pela bufunfa.


Daniela Picchiai

Daniela Picchiai é escritora, pesquisadora e professora.  Doutora e Mestre em Semiótica, dedica-se aos estudos da linguagem, da literatura e das questões gênero. Publicou um livro de crônicas e possui textos – entre artigos, poesia, crônicas e contos – em revistas de arte, filosofia e comunicação

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