De relance, notou que assustara um gato com os pedregulhos que chutou pelo caminho, indo ao serviço. De algum modo, ainda não exato em si, perguntou-se o motivo do gato ter se distanciado. “Eram apenas pedregulhos” – pensou. Era lógico que qualquer ser selvagem iria se precaver diante de uma ocasião parecida, seja um gato, pombo, rato, barata, lagartixa, besouro…, mas ele não enxergava assim.
Sem saberem, ficara triste com isso. “Por que o distanciamento? Era mesmo necessário?” – ponderou.
Chegando ao trabalho, o chefe lhe disse: “Santos, trate seus documentos com o RH” – estava ele no seu último dia em aviso prévio não consciente – “não adianta ser transferido e possuir tanto de você neste setor”. Apesar de ter a aparente ciência de que seria enfim convidado a se retirar da empresa, mastigou o ressentimento com a expressão “tanto de você”, na qual fez nós tão cegos em sua cabeça que se duvidava, o tempo inteiro, sobre se havia mesmo tanto dele no mundo, o que o entristecia.
Após arrumar os pertences, aqueles que faziam parte do tanto do Santos, bateu o ponto e despediu-se de alguns colegas. Uns não fizeram questão de o olhar, outros, maldosos, aplaudiram sob sua atual condição. Diante de várias negativas de sua presença ali, por último falou com Joca, o amigo íntimo que achava possuir, e reparou no quão ruim era sua formação como homem. Mais: a quão malfeita era sua construção como humano, conceito, vida! Havia uma rude incongruência entre como se interpretava e como os outros o faziam. Ele, dentro de si, era alguém velho, um Santos já conhecido. Para os importantes, era alguém completamente novo, um novato do mundo exterior.
Bastava, então, conhecer o lado que era mais “popular” em relação ao interno. Mas como? Santos estava preso em um mundo em que sua expectativa de vida era de apenas 20 anos. Ele os completaria no ano seguinte. O tempo seria cabível para ele mudar todo um sistema já preconizado há anos? Desde então, tomou para si o objetivo: fazer de si uma unidade, pondo sua dualidade em aviso prévio de despedida.
Em frente à negativa de Joca, representada por somente parabéns sinceros, Santos sorriu, o cumprimentou e, logo depois, chorou.
Porta afora, viu que a avenida em frente à empresa, a Barros Reis, estava inviável por conta do engarrafamento, o que lhe era estranho. Naquele horário, não havia pico de gente. Perguntou ao zelador do prédio, “uma idosa que ia passando perdeu o ponto e acabou levando a pior. O engarrafamento tá péssimo!”, foi tudo o que disse.
Andando de volta a sua casa, refletira no tudo que a falecida idosa tinha deixado para trás. No tanto dela que tocara o mundo. Não lhe era justo, ele já sabia que iria morrer aos 20, tendo a falecida idosa anos para que conseguisse retroceder qualquer ponto de si e gozasse desse privilégio divino.
O tempo era-lhe curto e breve.
Chegando ao bairro em que morava, correu sob o chão liso e asfaltado de sua rua. Nas pressas, destrancou a porta de casa, adentrou-a e anotou para quais os contatos que deveria ligar a fim de avisar sua grande cólera. Planejou o local, o dia e a hora. Acertou com quem lhe traria a batina, fechou com um padre um acordo de 100 dízimos semanais para fazer o discurso e teatrou a reação dos importantes.
No dia seguinte, enquanto arrumava-se para negociar com algum empresário um espaço que usaria para sua cólera, ressoava de fundo a TV. O noticiário local dizia sobre o engarrafamento da tarde anterior na Barros Reis, que nada tinha a ver com a morte de uma idosa.
Pensando com exatidão em tudo, Santos pôs suas botas em vez de tênis para que estes não sofressem um risco impossível: de sujarem ao passar por sua rua cheia de pedregulhos, barro e de maus cuidados.
Precipitando-se, esqueceu o celular dentro de casa. Por estar impiedosamente atrasado para o encontro com o empresário, deixou por estar. Por tal razão, as mensagens de Joca, que perguntava amigavelmente o porquê de Santos ter levado seus pertences após o chefe ter lhe promovido, não foram respondidas naquela manhã.
Passou mais uma vez pelo gato, que se assustara com um pedregulho imaginário e se afastara do homem.
Já no local a ser alugado, Santos ficara feliz por sentir-se bem-vestido à ocasião. Queria passar uma ótima impressão para que o empresário também fosse convidado à grande cólera. E preparava-se para uma proposta de valores altos, devido sua alta classe de costura e tecidos.
Mas, como sempre, recebera uma negativa de si:
“Só a você, alugo por 1500 reais! Nessas condições, preço melhor não há para ti!” – falava o empresário. Deixando Santos transtornado.
De bem-vestido, agora sentia-se aos trapos. Não havia sentido, para ele, estar bem-vestido e receber, de cara, uma caridade. “ESTOU DESEMPREGADO” – Santos disse aos berros – “MAS NÃO PRECISO DE DESCONTOS!”. Desistiu do espaço e largou o empresário às dúvidas.
Impiedosamente frustrado com o mundo por lhe ver tão distorcido, novamente retornou para casa.
No mesmo caminho de sempre, passou pelo gato, que usualmente assustara-se com aquela presença humana. Como um machucado ferido, o homem decidiu inflamar-se. Os neutrófilos, responsáveis por retroceder a inflamação de si, estavam no gato. A culpa era da interpretação do pobre felino. Assim, assassinou-o para se livrar da outra pele, a mais “popular”. E concedeu-se mais 20 anos de tempo, o bastante para refazer-se e para desfrutar da dádiva que tanto quis.

Filipe Rosa, nascido em Salvador (BA) em 27 de abril de 2006, é estudante de Letras, Língua Portuguesa e Literaturas na Universidade do Estado da Bahia. Influenciado pela leitura de obras de autores como Clarice Lispector, Virgínia Woolf e Dostoiévski, debruça-se em escrever episódios da essência humana que são comuns a todos, senão a uma parte.

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