LETÍCIA OLIVEIRA – Beladona [conto]
LETÍCIA OLIVEIRA – Beladona [conto]

LETÍCIA OLIVEIRA – Beladona [conto]

Não sei porque, após todos esses anos de solidão e monotonia, quebrados somente por breves momentos de existência, após tantas luas cheias, uma delas me assombra, quase como um medo de ser apunhalado pelas costas. Foi uma noite de lua cheia, lembro-me bem, embora não como hoje, não chovia, e eu não estava encharcado, voltando para casa de um trabalho que não sei porque ainda faço, não, eu era muito mais jovem. E foi ao olhar para cima, para essa mesma lua redonda, que me lembrei, ao mesmo tempo arrebatado e aterrorizado, dos olhos daquela mulher. Não sei porque a lembrança me veio agora. Talvez porque eu tenha decidido voltar para casa a pé – ao invés de pedir um Uber –, ou porque o fim do ano está chegando e ressurge, novamente, a melancolia de ter uma vida que foi levada em vão: à deriva, sem nada de memorável. Miguel, um homem qualquer, medíocre, que não deixará nada a ser lembrado para a posteridade, como um dia eu quis, quando era jovem: quando ainda estava sob efeito da presença hipnotizante daquela mulher. Talvez por isso eu me lembre dela agora — por isso, e pela luz difusa da lua que espalha sombras como véus sobre as ruas. Difusa, como a imagem dela ao amanhecer, virando-se devagar, evaporando-se do meu alcance. Difusa, como o som da voz que esqueci, como o calor de um toque que minha pele já não reconhece. Às vezes, penso que a perdi, como areia na praia, escorrendo de minha mão. Mal consigo lembrar-me de seu rosto. Mas é como se ela ainda estivesse presente. Presente como um eco insistente, uma palavra repetida infinitamente. Um tempo perdido, no qual havia a chance que eu fosse alguém. Mas decidi não ser.

            Era uma noite fria. Eu estava a caminho da festa e passava pelo cemitério próximo a minha casa, que tinha um ar surpreendentemente acolhedor, com as flores e grama crescendo ao redor dos túmulos, iluminado pela lua e a luz de alguns postes. Eu conseguia identificar os “recém falecidos”, com os túmulos ainda não corroídos pela ação do tempo, e aqueles já esquecidos, em que mal podia ser lida alguma coisa. “Um dia, estarei num desses”, pensei, em relação ao segundo. Estava indo encontrar meus amigos, em um ato que surpreendeu a todos: eu, o homem que preferia escolher o volume e a música no conforto da minha casa, havia decidido ir a essa festa que todos eles iriam. Lembramos desse dia muitas vezes, com muitas risadas: me confessaram, depois, ter chamado “por educação”, esperando ouvir o meu costumeiro “não”, quando eu disse “sim”. Eu mesmo me surpreendi com esse ato inesperado, e me arrependi na mesma hora. Mas pensei que algo desse tipo poderia me dar material para escrever novas letras, então fui. Afinal, se um dia sexo, drogas e rock and roll foi um lema nos artistas, eu não poderia estar mais no oposto do que já estava.

            Decidi que beberia álcool, para não ficar tão recluso. Apesar da minha caretice, eu sempre bebia sozinho. Me dava uma sensação divertida, como se viver não fosse tão pesado, e ali, enquanto ia tomando doses, prestava atenção no comportamento das pessoas ao meu redor: alguns caras importunando meninas jovens, pessoas com os olhos baixos, alheias a qualquer preocupação mundana, pessoas rindo e fumando maconha, casais se agarrando como se desejassem fundir-se um ao outro, meus amigos, que iam e voltavam do banheiro de vez em quando, animados, empolgados com o som da música e a vida acontecendo ao seu redor. De repente, tudo aquilo se tornou insuportável, e senti que era como se algo apertasse minha cabeça. Foi quando decidi ir para fora, cansado da atmosfera claustrofóbica do interior do bar. E fixei meu olhar naqueles cabelos, olhos, mãos cheias de anéis que acendiam um cigarro e levavam-no à boca. Foi quando a vi pela primeira vez. Seu vestido, que balançava pelo vento, fazia com que ela parecesse um vulto, cada vez mais indefinido com o passar dos anos, e eu, cada vez mais incapaz de distinguir o que imaginei e o que realmente existiu sobre ela. E mesmo hoje, quando tento vê-la de novo, metade dos traços são sombras, como se minha memória apenas sussurrasse fragmentos do que ela foi. Como uma voz irritante, que me lembra o que tive, por breves momentos, e perdi de uma vez por todas. Depois de passar os dias inteiros em um escritório, preenchendo planilhas, a simples lembrança de seu rosto é suficiente para me fazer despertar de um sono contínuo. Vi-a sentar na calçada e percebendo que meus amigos, a caminho do banheiro quando saí, ainda não tinham sentido minha falta, senti uma vontade inesperada e urgente de fumar um cigarro. Minhas mãos suavam e meus passos se tornavam cada vez mais erráticos, quanto mais eu me aproximava daquela presença, que subjugava tudo ao seu redor.

— Me dá um cigarro? — Perguntei, trêmulo.

Ela se virou para mim devagar, e tirou a franja dos olhos para me observar melhor, ou assim gosto de imaginar.

— Olha, cara, eu sou fumante e meu cigarro tá acabando. Não posso ficar sem, senão viro uma fera. — Ela me disse e estreitou os olhos, quase como se quisesse me afastar. Para a minha sorte, logo seu olhar se tornou mais leve. — Sei de um lugar aqui perto que vende dos que gosto. Qual cigarro você fuma?

— Bem, o que tiver.

— Eu só fumo Dunhill. — Ela riu, talvez adivinhando que eu não era um “fumante”. — Quer ir comigo?

— Quero, vamos. — Eu respondi, com medo de soar desesperado como eu estava me sentindo por dentro.

            Durante a ida, passamos a maior parte do tempo em silêncio, eu com vergonha demais para falar qualquer coisa, e ela, não sei, talvez alheia demais para tentar iniciar uma conversa. Compramos os cigarros — uma carteira que, depois de uns três ou quatro cigarros fumados, repassei a um amigo — e retornamos à calçada. Às vezes, ela arqueava as sobrancelhas e olhava para a frente de uma forma que parecia se mostrar com raiva, embora eu não soubesse de quê, e tivesse medo de perguntar. Sua pele pálida, seus lábios escurecidos de batom e aquele olhar faziam-na parecer uma vampira, e eu daria meu sangue de bom grado para que aquela mulher se tornasse imortal. Foi ela quem quebrou nosso silêncio.

— Você conhece a banda que estava tocando antes da gente sair de lá? — Me perguntou.

— Conheço. O baixista estudou comigo. — Respondi, curioso com a pergunta repentina.

— Bem, é a primeira vez que os vejo. Gosto muito das letras deles, me lembram os contos de Edgar Allan Poe.

— Ah, você gosta de Poe?

— E qual o gótico que não gosta? — Me disse, rindo e acendendo o terceiro cigarro desde que a vi. Estava surpreso com a rapidez com que fazia seus cigarros irem embora, o que não passou despercebido por ela.

— Não me julgue. — Disse, séria. — Situações sociais me deixam nervosa. Além do mais, metade das pessoas aqui têm algum vício. O meu incomoda mais porque fede.

Se eu não estivesse tão absorto pela sua presença, estranharia a postura defensiva tomada em relação a um olhar meu que ela interpretou como se estivesse sendo julgada. Eu, inexperiente como era, com medo de que ela se afastasse de mim, pedi desculpas exageradamente, que ela aceitou de bom grado, e assim não falamos mais nisso. Ela continuava com seus cigarros e eu, com a minha surpresa. Na verdade, não lembro do que falamos logo em seguida. Não lembro sequer o que me fez continuar aquela conversa por tantas horas. Mas a sensação de me surpreender perdurou a noite inteira.

Não sei de onde ela era. Para mim, sua familiaridade — que parecia maior que a minha própria — com o ambiente da cidade tornava óbvio que era, ou vivia há algum tempo na mesma cidade que eu. Não fosse minha estupidez, quem sabe eu teria encontrado uma forma de seguir seu rastro, ou ao menos saber se conhecia o lugar de onde ela vinha, de vê-la uma outra vez…, Mas meu encantamento e meu medo não me deixaram perguntar o óbvio. Eu estava, claramente, perdido. Ela era quem dava as coordenadas. Ela me disse que saía muito, lia muito e estava sempre cercada de pessoas — embora eu tenha a encontrado sozinha. Disse-me, também, que não via a mãe há três anos: depois de uma briga feia, a mãe disse que não queria mais vê-la, e assim foi, nenhuma das duas cedia.

— Eu sinto falta dela, é claro. Mas ela é orgulhosa e acha que eu vou me rastejar aos pés dela, que vou voltar e pedir desculpa! Eu sou pior que ela! — Disse, e o olhar de raiva surgiu novamente. — Sei que ela sente minha falta, e ela está mais velha que eu, tem menos tempo para se arrepender. Vamos ver quem vai se arrepender primeiro.

— Por que você quer ganhar dela? — Eu disse, sem entender o motivo da exaltação e o porquê de uma briga tão grande.

— Ora, os pais parecem sempre ser invencíveis, dá vontade de vencê-los, nem que seja uma vez. — Me respondeu, e rapidamente mudou de assunto.

Por alguns momentos, fiquei em silêncio. Olhava-a, mas ela não me olhava de volta. Preferia olhar a rua, as pessoas que entravam e saíam do bar, a sua própria bebida, que havia ido comprar.

— Por que você está me olhando assim? — Me perguntou, desconfiada.

— Estou tentando entender se você é real ou uma imagem na minha cabeça. — Eu respondi, assustado como uma criança que é descoberta fazendo algo de errado.

— Eu respiro, meu coração bate, eu choro, eu rio, eu como, eu durmo. Sou humana. Não vejo porque alguém pensaria diferente. — Ela disse, irritada.

— É claro…, mas acho que eu nunca pude conversar assim com outra pessoa. — Eu disse, de olhos arregalados, temendo que ela partisse, embora, ao mesmo tempo, eu já soubesse que ela iria embora, e a mim só restariam as canções inacabadas que um dia, tentei escrever sobre ela.

— Você já tentou? — Ela me desafiou, com um sorriso irônico que me fez rir.

— Eu não sei, já não sei de nada. Se você me perguntasse, não saberia te dizer como cheguei aqui. — Eu disse, rindo da minha imensa falta de jeito. Por sorte, ela também riu.

Continuamos conversando, até que ela me chamou para ouvir mais de perto as músicas que estavam tocando. Durante muitos anos, tentei me lembrar da sensação de seu toque, de como ela me puxou pelo braço para perto do som porque queria ouvir aquela música. Parecia que a marca de seus dedos em meu braço tinha sido marcada como uma tatuagem, e embora eu não me lembrasse mais daquele sentimento, toda lua cheia parecia refletir as impressões digitais daquela mulher em minha pele. Não fosse eu tão estúpido, teria entendido tudo ali. Teria tocado em sua pele. Teria dançado com ela, uma única vez, como uma música que ressoaria pelo resto de minha vida. Mas eu não pude, e agora minha pele tornou-se cinza, escurecida pelas marcas da existência, responsáveis por levar embora a sensação de ser tocado por ela. Ah, se existisse um toque que se assemelhasse ao dela naquela noite!

E como dançava! Ela dançava e parecia não se importar com qualquer um que estivesse ali, mesmo sorrindo para mim de vez em quando. Eu ficava parado, observando-a, e tenho certeza que parecia um estranho ali, próximo ao som, sem fazer um movimento sequer. Mas ela brilhava mais que a lua, naquele dia. Mais que as luzes de neon e os postes. E eu deixava-me cegar por aquela luz. Quis trazê-la para perto de mim. Quis tê-la em meus braços, mas não ousava, nem mesmo quando, num giro, ela se aproximou. Se eu pudesse me ver de fora, diria que aquele parecia o melhor momento para beijá-la. Parecia, mas eu não o fiz. Mesmo que tentasse, senti como se meu corpo estivesse congelado, preso no mesmo lugar. E a cada minuto que se passou após isso, sofri terrivelmente com a ideia de tê-la tão próximo de mim, e tê-la perdido.

Muitas músicas depois, o bar se esvaziava. Encontrei meus amigos e disse que ficaria lá, o que, mais uma vez, surpreendeu a todos. Como ela ainda dançava, ninguém sabia dizer o porquê de eu ainda estar ali. Eu pensei que não iria embora enquanto ela não fosse, que a seguiria por todos os lados, que não sairia de perto dela até que ela me enxotasse. Uma música mais lenta tocava, e vi seu rosto se entristecer. Se ela estivesse de frente para mim, diria que vi uma lágrima, escorrendo e indo embora, como a lua, que se vai e dá lugar ao sol da manhã, coberto pela névoa. Eu a vi sofrer e deixar que sua tristeza se fosse.

— Vamos para fora. — Ela me disse. Saímos. O céu estava cinza, amanhecia.

— Você é daqui? — Me perguntou, séria.

— Sim, mas eu fico em casa o tempo todo. — Eu disse. — Não entendo como as pessoas vêm para um lugar como esse todos os fins de semana.

— É a forma que alguns conseguem atravessar a noite. Às vezes, a solidão é quase insuportável. — Me confessou.

— Não precisa ser. — Eu falei.

— Alguns não podem escolher. Mas escolhem como amenizar. Preciso ir agora. — Ela me disse, se virando para ir embora. — Ah!

Mais rápido do que eu pudesse pensar, ela se virou para mim e me beijou. Não teve nada de especial — para ela, é o que acredito. Talvez tenha sido pena, ou somente curiosidade. Tento me lembrar dos detalhes. O tecido de sua roupa encostando na minha pele. A respiração quente que pude sentir à medida que seu rosto se aproximava do meu, contrastando o frio daquela hora da manhã. Seus olhos se fechando, seus lábios encostando nos meus, e indo embora. Como chegar em casa e perceber que os móveis são os mesmos, a poeira acumulada é a mesma, o barulho dos carros é o mesmo. Reflexos de uma vida vivida em sonho, fumaça soprada para fora dos lábios e dissipada pelo vento. Ao longo dos anos, eu repetiria à exaustão o beijo daquela mulher em meus lábios, como flores nascendo em volta dos túmulos, prestes a morrer novamente, do mesmo modo que morreu qualquer possibilidade de existência minha após ela se virar e ir embora. Virou-se e se foi. O sol nascia, hesitante. E, por um breve momento, permaneci ali, tentando acordar do sonho. Esperando que ela me acordasse, sem saber se ela retornaria, ou era mero fruto da minha imaginação. Se ao menos como pesadelo ela viesse, e me assombrasse! Já havia me envenenado, por que não me dera o golpe final? Mas partiu, e me levou consigo. Me virei em direção à minha casa, sempre olhando para trás, esperando que ela olhasse de volta, e caminhasse em direção a mim uma última vez. Nunca mais consegui manter meu olhar preso na frente, sempre procurando saber em que lugar deixei minha vida e a mulher que a levou. Mas ela nunca olhou de volta.


Letícia Oliveira

Letícia Oliveira tem 22 anos, nasceu e vive em Campina Grande, na Paraíba. É graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Campina Grande. Estuda temas relacionados à política, à transformação social e à psicanálise. Iniciou suas experimentações com a escrita aos nove anos, mas só recentemente começou a ser publicada. Mais do que a voz, é na escrita que encontra sua forma de expressar-se no mundo.

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