Ele estava no quarto, requebrando ao som de Hips don’t lie. Faziam oitos e tremiam, os quadris; braços rechonchudos estendidos, mãos em movimentos leves e graciosos; olhos fechados, corpo em sintonia com o inefável interior; lábios murmurando a música, quando a mãe abriu a porta com tudo.
Ia perguntar o porquê dele não responder, mas ao notar a cena — o menino rebolando, lençol amarrado à cintura feito saia, toalha na cabeça simulando cabelos longos e ouvindo aquela música — a mulher levou alguns segundos para se recuperar; os olhos: ateus no que via, a boca: esgar profano. Amparou a mão na parede ao sentir leve vertigem.
— Pedro! O que significa isto? Já falei mil vezes que não quero você ouvindo essas músicas mundanas! Você sabe que isso só leva ao pecado e à prostituição! E o salário do pecado é a morte! O inferno! E que dança é esta? Onde aprendeu? Com aquelas meninas? E por que tá vestido assim? Olha que não quero filho bichinha! Tá amarrado em nome de Jesus! Tá amarrado! — repetia ela, dando tapas na própria boca. O menino tentou falar.
— Cale a boca! Por que não age igual o seu irmão, hein? Por que não joga bola? Fica com essas meninas sebosas pra lá e pra cá. E aquela sonsa da boca suja. A vontade de dar uns beliscões nela. Deus me perdoe. Olha, Pedro, dessa vez eu não vou contar para o seu pai, porque não quero dar esse desgosto a ele, mas da próxima vez, já sabe! Mas Deus vai te consertar, meu filho. A palavra do Senhor diz que…
Desistindo de explicar, Pedro sentou-se na cama, cabeça baixa, mãos alisando a colcha puída. A mãe falaria por minutos — que pareciam horas — trechos decorados da Bíblia, a interpretação dela e do pastor. O castigo: não poderia utilizar o celular de segunda mão por uma semana e nem encontrar as amigas depois das aulas. Seria casa, colégio, colégio, casa.
Inferno não poder dançar! Sentia-se como o homem aranha da perna amputada, esquecido numa caixa. Pelo menos, na escolinha dominical da igreja, ouviria música. Rememorou, danças atrás: ouviu a canção do rei Davi ali e uma vontade selvagem de dançar apossou-se dele. Entretanto, obrigou o corpo a bater palmas e cantar, igual outras crianças e obreiras faziam. Na sua dança interior — enquanto ouvia Se o Espírito de Deus se move em mim eu danço como o rei Davi, eu danço, eu danço, eu danço como o rei Davi… — balançava ao ritmo da música, rodopiava feito dervixe, travando luta entre o corpo que ansiava dançar e a certeza de não poder ali. Se o rei Davi dançava, por que também não dançar?
Sentado no chão do quarto, animava o homem aranha para dançar e espiralar. No caderno, ao invés de fazer as tarefas, escrevia as letras de forma, imaginando-as em movimento: o A de pernas abertas, o O numa cambalhota circense, o V com os braços para o alto. Se ao menos pudesse estar com as amigas, pensava durante o castigo. Castigo ser corpulento e afeminado, sobretudo no colégio, remoía. Leonino nato, nunca permitiu que comentários maldosos ou bullying afetasse a autoestima. Ainda assim, o colégio era o inferno, o bullying, diário, o medo de apanhar, constante. Até ensaiara passos de dança pelos corredores. Não sustentou as zoações. No colégio, o corpo sentado tencionava dançar e bailavam os dedos dos pés dentro do tênis e dançava livre na cabeça.
Mas quando estava na casa de Ana Clara e Ana Luíza, melhores amigas dele, se abraçavam e davam beijinhos, brincavam de rodar, disputando quem aguentava mais tempo. Pedro gargalhava ao cair quase sem fôlego no chão. E dançavam. Por causa dele, que gostava de cantoras pop de várias gerações, conheciam as coreografias da Shakira, do Black Pink, da Britney Spears, da Anitta, da Lady Gaga. Mesmo quando não sabia a coreografia, improvisava, as amigas tentando acompanhá-lo. Possuía os passos, ainda sem nome.
Muitas danças depois, negando a proibição, ensaiava os movimentos e passos do novo hit da Shakira, quando o irmão mais velho entrou de mansinho no quarto que dividiam e o flagrou.
— Caraio, tu é viado? — perguntou, jogando-se na cama, riso desbragado.
No jantar, contou o que viu aos pais. O pai, boca cheia de cuscuz, arregalou os olhos, bateu a mão no tampo da mesa e gritou, espirrando farelos, que não admitiria nenhum filho viado e que isso era falta de peia. Levantou-se de um pulo.
— Pega o cinturão, mulher!
— Paim, desculpa…
— Tu tá pedindo pra apanhar, cabra safado! — Agarrou o braço de Pedro. A mãe foi pegar o cinto, pedindo calma ao esposo. Arrastou-o ao quintal. O cinto violentava seu corpo. Grunhia, enquanto o pai bradava:
— Vai ser macho nem que não queira!
Após a surra, encolhido no canto perto do tanque, chorou baixinho. O gato preto o alisava, ronronando. Olhos fechados, ouvindo o ronrom, dançou-se adulto: executava passos de dança do ventre igual a Shakira, girava liberto, redemoinhava, o mundo: um borrão, corpo e espírito em harmonia, desenhando no ar poesias dançantes, energia em movimento, inteiro, vibrante, vivo, vivo.

Jorge Nogueira é autor do livro de contos Inventário dos seus abraços. Tem contos publicados em coletâneas do Sesc-CE, Ideal Clube e Histórias de rádio, além de sites, blogs e revistas. Foi vendedor da I Coletânea LGBT do Ceará e do XII Edital de Incentivo às Artes da Secult Ceará.
