FABIANO GOMES – Uma declaração de amor absurdo [conto]
FABIANO GOMES – Uma declaração de amor absurdo [conto]

FABIANO GOMES – Uma declaração de amor absurdo [conto]

No fim da festa, a cidade inteira parecia pulsar.

Um sábado qualquer, ou talvez um domingo prestes a acontecer, quem saberia?

Da varanda de um sobrado antigo, luzes dançavam no ritmo de batidas graves. Dentro, corpos se amontoavam como se fossem todos parte de uma única entidade: a juventude, essa maravilha.

Arthur estava ali, mas não pertencia àquele lugar.

Tinha vinte e poucos anos e um cansaço nos olhos que envelhecia suas feições. Caminhava entre os grupos como quem atravessa nevoeiros, rindo de piadas sem graça, bebendo sem sede e sorrindo sem alegria.

Com os ombros caídos, parava de vez em quando para encarar os quadros de parede, como se procurasse uma saída daquela festa.

— Cara, você não se diverte mais? — perguntou Lucas, o amigo que havia insistido para ele ir.

— Me divirto… eu acho. É que parece tudo tão… igual, repetitivo.

— Bem-vindo à vida adulta. — Lucas riu, depois tomou um gole de cerveja e encostou no ombro do amigo — Mas, falando sério, você tá assim faz tempo. Desde a Isa… Eu sei que doeu, mas você precisa tentar viver de novo, nem que seja só por uma noite.

Arthur desviou o olhar, incômodo com a lembrança.

— Eu tentei, cara. Mas cada vez que eu acho que vou conseguir, parece que tudo é só uma cópia malfeita do que já vivi.

— Então para de tentar ser você mesmo. Seja outro! Sei lá, começa flertando com alguém. Aquela do balcão ali tá te olhando, ou talvez olhando pra parede atrás de você, mas vai que…

— Você é um péssimo conselheiro.

Mesmo assim, Arthur se virou e foi até o balcão.

A moça realmente estava lá, linda, mas claramente mais preocupada em manter o equilíbrio de um copo do que em fazer novas conexões.

— Tem um cigarro? — perguntou Arthur, sorrindo o melhor que pôde.

Ela o olhou como se ele fosse um interruptor de luz quebrado. Pegou um cigarro da bolsa, e o entregou sem dizer nada.

— Tem isqueiro?

Ela o entregou também, com o mesmo nível de envolvimento emocional de uma parede.

— Obrigado… adorei seu cabelo, meio… tempestade em fim de tarde.

Ela piscou, sem entender.

Arthur acendeu o cigarro, devolveu o isqueiro e eles ficaram em silêncio. Ela tomou um gole de cerveja e virou de costas. Constrangido, ele saiu pela porta lateral do bar e subiu uma escada, enquanto tragava o cigarro.

O som ainda chegava abafado, como se a festa estivesse respirando por conta própria, sem precisar dele. Encostou-se no corrimão da varanda e olhou para o céu, tentando decifrar o que havia perdido da vida nos últimos meses.

— Não aguento mais esse tipo de festa.

A voz não era dele.

Veio de um canto escuro da varanda.

Arthur se virou e viu uma garota sentada no corrimão, balançando as pernas. Tinha cabelos curtos e escuros, seus olhos eram profundamente belos, usava botas pesadas, uma saia xadrez e uma camiseta desbotada dos Ramones. Fumava com a calma de quem não devia satisfações a ninguém.

— Não sou o único então — disse ele, sorrindo de lado.

— Não mesmo. Essas festas tão um saco.

— Arthur. — disse estendendo a mão direita.

— Mariana. — Retribuiu ela com a mão esquerda. — Primeira vez aqui?

— Não, terceira. Mas parece sempre a mesma noite.

— É… o mundo gira mas algumas festas ficam estacionadas.

— Sabe o que é engraçado? — disse Arthur, com um meio sorriso.

— O quê?

— Que toda música nessa festa parece a mesma.

— Ah, eu chamo isso de “pop glúten-free”. — disse ela rindo.

— Do quê?

— Pop glúten-free, leve, mas enjoativo.

— Verdade — disse ele, sorrindo — sem peso, nem fibra.

— Só serve se for pra embalar um vídeo de alguém malhando.

Mariana tragou o cigarro e desceu do corrimão. Com o cigarro ainda nos lábios vermelhos, baforou no ar, limpou a mão direita na saia e cumprimentou Arthur.

— Sabe, aqui tem uns sujeitos estranhos, mas você parece até legal.

— É que eu tive algumas ex’s que eram mais babacas do que eu, aí fui aprendendo.

— Duvido que tenha alguma ex sua mais babaca do que a minha.

— Ah, é? — disse Arthur levantando as olheiras — então diz uma coisa babaca que ela fazia.

— Ela fazia playlist pra tudo… Tudo! Até pra escovar os dentes.

— Ela deve ser bem eclética.

— Acredite, era sempre Arctic Monkeys.

Arthur riu.

— Nossa… Isso explica muita coisa. E a sua escova de dentes sobreviveu?

— Mal. Quase perdi a guarda dela no fim do namoro.

Eles riram juntos, agora o frio da madrugada diminuía.

— Mas foi melhor, — continuou Mariana —  ela era daqueles tipos de gente que tem sempre um plano de vida maravilhoso, mas quando bebe esquece do que ia fazer. Era um caos.

— Nem deveria ser tão caótico assim.

— Assim, na hora era genial. No dia seguinte… “Ah, é mesmo, eu ia abrir uma ONG de resgate de gatos com depressão.”

— Eu tive uma ex que queria abrir um bar só de água.

— Quê?

— Com rótulos, taças especiais… “Águas da Amazônia com notas de silêncio e nostalgia”, algo assim.

— Esse merece investimento… eu seria a sommelier de graça. “Essa aqui tem um leve sabor de infância não resolvida e de domingo chuvoso.”

— Você é boa com isso. — disse Arthur gargalhando.

— Com o quê?

— Com aliviar a vida.

Ela deu de ombros e parou por um instante, olhando um muro com heras ressecadas.

— Acho que aprendi por sobrevivência… Se eu não fizesse graça das coisas, elas me esmagariam.

— Sei bem como é.

Mariana jogou a bituca no chão e apagou com a bota.

— Eu namoro uma garota há uns anos, sabe? A Bia. A gente se gosta… eu acho. Mas às vezes… eu penso em mudar.

— Mudar o que?

— Ah, sei lá, mudar de cidade, de nome… de planeta se der.

— Fugir?

— Nem sei se é fugir ou buscar… Só sei que às vezes eu olho pra nossa casa e penso: “E se eu morasse na casa da frente?”

— Ainda estamos falando de casas, senhorita?

— Talvez sim, talvez não… você não tem vontade de mudar também não?

— Talvez só a vista da janela.

— Já seria alguma coisa.

Arthur tragou profundamente e apagou o cigarro no corrimão.

— E a Bia sabe? — perguntou, soltando a fumaça pela varanda.

— Ah, ela acha que é TPM.

— E você o que acha?

— Eu deixo ela achar, e sigo amando do meu jeitinho confuso.

Arthur sorriu.

— Tem algo bonito nisso. Mesmo sem saber o que quer, você continua tentando.

— Morar sempre na mesma rua cansa, né? A casa já conhece todos os meus passos. Às vezes penso que ela cochicha pro vizinho: “Lá vem ela de novo, pisando na mesma tábua torta”.

— E por que não muda?

— Porque crescer é saber que mudar dá trabalho… e porque ela é maravilhosa. Mas, às vezes me pergunto se amar alguém é o mesmo que não querer descobrir quem mais eu posso ser.

— Olha aí, eu sabia que não estávamos falando sobre casas! Você está mais perdida do que eu.

Mariana o encarou rindo.

— Ah é, e você? Quando você se perdeu?

— Acho que foi quando comecei a me comparar demais… e você?

— Quando comecei a querer o que nem sei se quero.

— Essa é a definição perfeita do caos, senhorita.

— Ou da juventude — respondeu ela, indo para a escada — Vamos sair daqui?

— Pra onde?

— Pra longe do barulho. Pra qualquer lugar que não tenha um DJ gritando “faz barulho!”.

Saíram rindo, ela na frente e ele atrás.

Enquanto desciam, com a luz do ambiente clareando, Arthur pôde perceber uma tatuagem no pescoço de Mariana. Uma pequena lua se insinuava.

No portão, Arthur passa por Lucas, que está conversando com duas garotas animadas.

— Arthur! Essa aqui é a Paula, e essa é a Julinha! A gente tá marcando uma after, vai ser loucura!

— Cara, eu… tenho outro compromisso.

— Outro? Quem é essa aí? — Lucas olhou para Mariana e sorriu — Vai, vai viver. Depois me conta tudo!

Arthur saiu meio sem jeito e Lucas deu um tapinha nas costas do amigo, sorrindo como um bobo enquanto voltava para a festa, com as duas mulheres.

Mariana e Arthur caminharam pela rua quase deserta.

A madrugada suspirava um vento carregado de perfume das árvores noturnas e do lixo nas ruas. Eles passaram por uma livraria fechada, desceram a rua e foram em direção a uma praça.

— Sempre morei aqui, — disse Mariana, apontando para a rua — todas as festas que fugi, todos os retornos embriagados, foram por essas calçadas. Às vezes realmente imagino como seria viver em outra rua.

— O que você quer descobrir com isso?

— Será que a solidão muda com o CEP?

— Eu acho que a solidão sempre pode mudar de casa, mas nunca vai embora.

Ela segurou o riso, e então o puxou pela manga da blusa:

— Tá bom drama queen! Vem, vamos sentar ali.

Ela o puxou  para um banco da pracinha. Próximo a um poste, um senhor de cabelos grisalhos dedilhava um violão com melodia lenta e sutil. Uma garoa singela começou a cair.

Era quase triste, mas reconfortante.

— Esse artista é foda. Ele só toca os gênios incompreendidos.

Arthur olhou para ela e sorriu.

O músico dedilhava com uma ternura vagarosa. Cada nota parecia se equilibrar entre a garoa e a madrugada, como se hesitasse em perturbar o silêncio. O som do violão preenchia toda a praça.

Mariana recostou a cabeça no ombro de Arthur, e ficaram ali, como se fossem os únicos acordados da cidade.

— Cansada?

— Sempre. Mas de coisas que nem sei nomear.

Arthur olhou para cima, as gotas caiam tranquilamente de um céu que acordava.

— Acha que a gente se encontra algum dia? — disse Arthur, afastando uma mecha do cabelo de Mariana — Tipo, essa coisa de caminho, destino e tal.

— Talvez. Mas antes disso a gente se perde muito.

— Sim… sim.  Mas sério, quando você se perdeu?

— Quando achei que amar era desaparecer por outra pessoa. Quando percebi, já não sabia mais me achar.

Arthur segurou a mão dela.

— Se encontrar é só uma questão de quanto tempo você aguenta estar perdido.

Mariana sorriu.

Ao longe, o dia nascia devagar, preguiçoso, sem pressa de arder.

— Mariana, eu posso te chamar de lua? — perguntou Arthur, de repente.

— Só se eu te chamar de Sol.

O músico de rua, que até então parecia alheio, interrompeu sua melodia com um ar de solenidade ensaiada  ao notar o casal sentado ali perto, o velho artista se inclinou levemente para frente, com um sorriso maroto.

— E o casalzinho? Querem que eu toque alguma?

Arthur se apressou em responder, quase engasgando com o próprio riso.

— A gente não é um casal… não, só amigos.

O músico arqueou uma sobrancelha grisalha.

— Não parecem só amigos… as energias conversam num dialeto antigo.

Mariana gargalhou, cruzando as pernas com elegância exagerada. Ela olhou para Arthur com uma expressão de travessura, os olhos rindo antes mesmo dos lábios.

— Só não somos um casal porque ele ainda não pediu.

Arthur, que já se via como o próprio clichê, suspirou teatralmente.

— Então… toca uma pra ser nossa trilha sonora. Já que na boate só tem pop glúten-free.

Mariana deu um tapa leve no ombro dele.

— Isso! Que música a gente parece ter, hein, mestre?

Ele os encarou, com olhos experientes e um sorriso melancólico, e fechou os olhos por um instante. Depois, ajeitou o chapéu e começou a dedilhar uma melodia torta, quase tribal, que parecia um híbrido entre samba e manifesto de amor apocalíptico, em uma sequência repetitiva e hipnótica.

A melodia se repetia como um mantra.

A garoa leve tocava o rosto deles. As folhas secas giravam pela brisa, dançando pela praça como bailarinas. Se fosse tarde da noite ou início da manhã, pouco importava.

— Seria ainda mais bonito se fosse fim de tarde. — comentou Mariana, encostada no ombro de Arthur.

O músico sorriu e deu dois passos em direção a eles.

— Essa canção… ela é sobre um olhar. Um olhar bestial, apaixonado, revolucionário… fala de um olhar que já sofreu com o amor. Um olhar ferido, mas bonito. De alguém que esperava demais do amor e ficou com os olhos assim, bestiais. Não por maldade, mas por excesso de sentimento… É sobre quando o amor não se entende, mas se devora. Quando você ama com os olhos, com os dentes, com as entranhas… com a alma num cio cósmico.

Ele repetia os acordes, como se invocasse um feitiço.

— Essa é a música de vocês. Uma declaração de amor ao absurdo.

Arthur e Mariana se entreolharam e riram como crianças.

— Vamos celebrar isso! — disse o músico estalando os dedos  —  Vocês vão se casar agora, nessa pracinha, pela força do absurdo. Façam um discurso.

— Que? — perguntou Arthur

— Vai! Improvisa! — disse enquanto continuava a melodia — O amor não manda recado, só aparece.

Arthur se levantou rindo, fingindo arrumar uma gravata invisível.

— Mariana, desde a primeira tragada do seu cigarro, eu soube que queria respirar o mesmo ar que você contamina.

Ela se levantou também, pigarreando.

— Arthur, desde que eu vi você baforando naquela varanda, eu soube que você era o panaca adorável que eu pedi a Deus.

Eles ficaram ali, de mãos dadas, como se fossem parte da coreografia silenciosa daquela manhã.

— E então? Vai pedir ou não? — perguntou o músico, ainda dedilhando.

Arthur olhou nos olhos dela.

— Mariana, você quer namorar comigo?

— Hmmm… vou pensar. Mentira! Claro que sim.

O músico deu um pulo.

— É disso que a arte precisa! Do sim ao amor!

E finalmente começou a cantar.

“Não leve a mal, não… não, o teu olhar… sim, é bestial.”

A brisa levantou folhas secas, como se arrastasse os últimos suspiros do inverno, anunciando a primavera. Conforme a música preenchia a praça, o mundo ao redor seguia em seu ritmo.

“Temmmm… olhar de fera.”

Subindo a rua da praça, à direita, um assalto silencioso se desenrolava. Um homem encapuzado fugia frustrado de um cachorro, que babando, parecia estar sorrindo enquanto corria.

“Tem olharrrrrrrr… de triiisteee.”

No outro quarteirão, uma mulher com o cabelo de tempestade em fim de tarde, caminhava sozinha no meio da rua. Descalça, segurando os saltos sobre o ombro, enquanto fumava e cantarolava uma melodia incompreensível.

“Tem olharrrrr de primavera.”

Sob a garoa mansa da manhã, ainda na praça, Arthur e Mariana dançavam. O sol começou a brilhar por entre as árvores e o cheiro de pão recém assado, da padaria no final da praça, inundou a calçada molhada.

“Tem olharrr de quemmmmm… só bebe uíssque.”

Mais acima, Lucas ria bêbado. Atravessava a rua com Paula e Julinha, comendo coxinhas com uma das garotas, enquanto a outra vomitava discretamente entre arbustos.

“Mas não faz mal… não, não… o teu olhar… sim, sim, é bestial.


Fabiano Gomes

Fabiano Gomes é autor independente, poeta, ensaísta e profissional da saúde com trajetória marcada por reflexões existenciais e crítica social. Natural de Santo André (SP), reside atualmente no Rio Grande do Norte. Publica desde 2017, com dois livros de poesia disponíveis na Amazon e obras voltadas à saúde pública escritas em linguagem acessível. Prepara o lançamento de A Beleza de Sentir o Agora, livro de poesia marginal e contemporânea. Organiza A Voz, coletânea de contos dividida em três volumes, e o romance Razão Particular. Suas narrativas mesclam lirismo urbano, humor ácido e olhar sensível sobre a vida cotidiana.

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