A Lição do Afago
Meu pai ajeitava o mundo todo com uma chave inglesa.
Seus dedos, cobertos de óleo e certeza,
afrouxavam o que estava enferrujado, ajustavam o que estava por vir.
Eu, criança, observava o suor formando mapas em sua camisa.
Certa vez, a ferramenta escapuliu, e a pele virou sangue.
Ele não gritou. Assoprou a ferida, envolveu-a em um pano.
“A dor é o que caracteriza o trabalho”, ele declarou, sem me olhar.
E continuou sua tarefa, com um nó mais apertado no fio.
Hoje, com mãos limpas de escritório, percebo:
o amor que ele me ofereceu não era simplesmente uma expressão.
Era o silêncio trabalhista de quem compreende
que a vida é uma reforma sem fim,
e o carinho, a única ferramenta que não se quebra.
Inventário do Silêncio
A morte não veio de uma vez.
Ela se estabeleceu, peça por peça,
no corpo do meu pai.
Primeiro, ele perdeu a capacidade de ouvir histórias,
depois o brilho nos olhos para discutir,
por último, até seu próprio nome escapuliu da língua.
Agora, a casa é um acervo de silêncios.
O sofá moldou-se ao seu cansaço.
O copo exibe a forma exata de sua mão.
A saudade não é um lamento; é um fantasma palpável:
eu a sinto em cada objeto que ele aprimorou
apenas pelo ato de viver.
A Cartografia do Filho
Nosso filho descansa.
Na sua respiração, um mar calmo,
cria novas geografias na penumbra.
Seu pé é um mapa dobrado, seu punho, uma nação em formação.
Ele herda o que não pediu:
a saudade do avô que nunca irá conhecer,
a minha inquietude, este rio subterrâneo,
e o amor, essa ferida aberta que não se fecha
porque dele brota um mundo.
Envelhecer é observar minha pele,
este pergaminho já marcado,
ser analisada pelos seus olhos castanhos.
É saber que a morte, quando a mim chegar,
será apenas a transição do bastão
nesta corrida de tochas que é a família.

Amanda Corvell é enfermeira e pesquisadora na área de direitos humanos, ofícios que a colocam em contato diário com as nuances mais profundas da condição humana. Foi na fronteira entre a ciência, a ética e a emoção que encontrou na literatura ficcional a voz para explorar os dilemas íntimos e as histórias que a realidade lhe sussurra.

