DAVI FURTADO – O menino e o mar [conto]
DAVI FURTADO – O menino e o mar [conto]

DAVI FURTADO – O menino e o mar [conto]

“Você já ouviu a história da dama do mar?”

O menino estava sentado na areia e terminava de passar o protetor solar quando foi surpreendido pela pergunta. Deixou escapar um bocejo e espremeu os olhos na direção do seu pai, que estava em pé à frente do sol, projetando uma sombra na areia branca.

“Não. Que história é essa?”.

“Reza a lenda que, no coração do oceano, mora uma mulher. A ‘dama do mar’ é como a chamam. Ela controla todas as ondas do mar. Dizem que ela é muito solitária e por isso está sempre atrás de companhia. E é para ela que vão os que são pegos pela correnteza e desaparecem sem sinal”.

O menino não conseguiu esconder o medo do seu rosto. O homem soltou uma risada e se agachou sorrindo, colocando as mãos sobre os ombros do seu filho.

“Não me olhe assim! É tudo mentira, é claro. Historinha para impedir que crianças bagunceiras, como um certo alguém que eu conheço, vão para muito longe no mar. Mas se vai te ajudar a não ir para o fundo e me matar do coração, então pense que a correnteza é essa mulher assustadora tentando te arrastar”.

Confuso, o menino olhou para os olhos do seu pai que lhe dava um sorriso tranquilizador.

“É sério? Então ela não existe mesmo?”

“Não, ela não existe! Esqueça que eu falei qualquer coisa!”. Exasperado, o homem botou a mão no rosto e se jogou de costas na areia, lamentando de forma dramática como a mãe do garoto iria brigar com ele por contar essas histórias de terror. O menino riu.

Após aguardar alguns minutos, sob protestos, atendendo à ordem do pai para esperar o protetor solar ‘fixar na pele’, saiu correndo para o mar, gritando que não ia para muito longe daquela vez. A água gelada arrepiava os pelos do corpo, queimava os pés e pressionava a cabeça quando submerso. “Assim, não vai prestar”, pensou, ao sentir o choque térmico. O menino mergulhou como sempre fazia: pegou distância na areia da praia e saiu correndo o mais rápido que podia em direção ao mar, impulsionando o corpo para um mergulho. Sempre preferiu essa abordagem à torturante entrada lenta na água, na qual se vai sentindo o frio em todas as partes do corpo. Não, para o menino, era melhor lidar com o choque de uma vez só, correndo e caindo. Após o mergulho com a cabeça, a estratégia era pular, correr, nadar e se agitar ao ponto de não sentir mais a temperatura da água. Dessa vez, porém, estava frio demais até para isso.

“Pai, está muito fria a água! Muito fria! Não vai dar para ficar não…”;

O menino olhou em direção à areia. O homem estava em pé, encarando em transe o sol que nascia no horizonte. Não parecia o ter escutado. O estranhamento causado pelo silêncio do homem foi rapidamente interrompido ao perceber que ele estava ficando cada vez menor. O menino havia sido ensinado sobre a importância de se utilizar algum ponto na areia como referência, sempre que mergulhasse no mar. A referência era o seu pai e ele parecia cada vez mais distante. “Correnteza”. Tentou fincar os pés na areia, mas não alcançou o chão. Buscou olhar novamente para o seu pai, mas já não o enxergava mais na areia. Abriu a boca para gritar e se engasgou com a água salgada. Pôs-se a nadar lateralmente, remadas rápidas, tentando retornar à areia. Sabia que devia nadar a favor da correnteza e utilizar as ondas para chegar até a areia. A resistência do mar, porém, parecia ser sentida em todas as direções: o menino estava sempre a nadar contra o mar. Ou melhor, o mar parecia estar contra ele.

Não demorou muito para começar a sentir cada vez mais pesados e doloridos os músculos dos braços, que, cansados, abandonaram o nado organizado e começaram a bater violentamente na água, tentando manter sua cabeça acima da água, sua visão tomada por um borrão azul-amarronzado ao afundar. Conseguiu colocar a cabeça para fora d’água e, engolindo o ar, buscou o seu pai. Mas o homem não estava mais nas areias da praia. O menino voltou a afundar, o borrão retomando domínio sobre seus olhos. Com um novo impulso, ele subiu de novo e, então, conseguiu ver o seu pai, agora dentro da água: um corpo, boiando na direção do sol que nascia no horizonte, sem reação aos gritos de socorro.

O corpo do menino afundou novamente, engolindo mais da água salgada. Embora descesse, o chão de areia não chegava e o menino começou a sentir seu corpo sendo puxado em alta velocidade pela correnteza. Para o fundo do mar. Para o coração do oceano. A água, antes fria, estava gélida. O menino fechou os olhos, pois já sabia o que iria ver – já tinha vivido esse pesadelo várias vezes. Já não sentia mais a falta de ar e a água salgada. Após um intervalo de tempo imensurável, o menino abriu os olhos e se viu em meio à escuridão. E no fundo. Nas sombras. Onde os raios de sol não alcançavam. No coração do oceano. Ela. A dama do mar.

O menino acordou em sobressalto. Mais um pesadelo.

O menino se levantou às cinco horas e vinte e nove minutos da manhã. Segundos antes do despertador tocar. Já era um hábito, acordava sozinho antecipando o sonoro estridente que viria perturbar sua paz. Se é que pode se falar de paz. O menino sofria com pesadelos. Pesadelos com o mar. E era o mar o seu destino naquela manhã.

Os instantes entre o acordar do menino e o tocar do despertador passaram num piscar de olhos. O alarme ecoava pelo quarto e, estrategicamente posicionado na estante em frente à cama do menino, o obrigou a se levantar. Os pés tocaram um chão frio. Os pelos do menino, antes aquecido em sua cama, arrepiaram. Não era surpresa. Era uma noite fria, afinal de contas. E, pior, de tempestade. “Imagina como deve estar o mar”, pensou o menino agora já desperto. Automaticamente se dirigiu ao banheiro. Parou ao abrir a porta. Não fazia sentido tomar banho para ir ao mar. Ele pretendia se molhar, não é mesmo? Não era esse todo o plano? Sempre quando iam à praia pela manhã, também não tomavam banho…

O pensamento foi interrompido rapidamente. Não, não era possível mais pensar naqueles dias, naquelas manhãs ensolaradas de praia. Era apenas ele naqueles dias. Eram apenas eles. Éramos apenas nós. E o mar.

Foi o que pensou o menino, que rapidamente buscava cessar a lembrança agridoce que insurgia em sua mente. Era o que precisava para se tornar mais resoluto em sua decisão. Ele iria ao mar. Não havia escapatória.

Os próximos passos foram protocolares. Como se fosse uma manhã normal para o menino. Café preto, sem leite e sem açúcar, e pão na chapa. Bebeu dois copos de água. Não era ideal estar com a barriga cheia enquanto estivesse no mar. Da cozinha, era possível ver os raios partindo o céu escuro, antecedidos pelos trovões, que faziam balançar as janelas da casa.

Buscou fazer silêncio, muito embora o barulho da tempestade permanecesse ininterrupto lá fora. O menino não queria acordar os que ainda dormiam, muito embora soubesse que eles acordavam tarde e não haveria razão para se levantarem àquela hora. Mesmo assim, não queria acordá-los. Eles mereciam descansar.

“E eu não quero que eles tentem me impedir”.

Enquanto colocava a louça suja na pia, o menino olhou para a janela da sala. De longe, era possível ver o mar, que tentava competir com os estampidos dos céus. As ondas, cuja altura o menino não conseguia determinar, quebravam em espumas cinzentas, o movimento cíclico como um convite debochado. Venha. Estou te esperando.

O menino fechou a janela e se arrumou. Abriu a porta de casa e saiu, para enfrentar a tempestade. Para o mar.

A casa ficava perto da praia. As paredes amarelas da casa e o jardim verde, em meio à tempestade no crepúsculo do dia, tinham um aspecto cinzento. Uma casa cinza e triste. E molhada. Naquele cenário, era como se a casa representasse seu interior. O menino foi andando determinado e já aceitando com resignação a chuva que o molhava. Fazia frio, muito frio. “Mas não tanto quanto o mar, aquele dia”, observou, enquanto fechava o portão externo e ia para a rua.

Não demorou muito tempo até chegar à praia. Estava completamente isolada, como é de se esperar de uma manhã chuvosa. Não se viam pessoas, não se viam gaivotas, não se via nada. Somente o menino. Somente o menino e o mar.

A areia molhada causava uma sensação esquisita nos pés do menino que caminhava descalço em direção à água. Em sua curta vida, o menino talvez nunca tivesse estado na areia da praia numa manhã chuvosa como aquela. A sensação era de que a areia úmida que fica à beira do mar tivesse se estendido por toda a praia, como se a água tivesse chegado até o ponto em que o menino caminhava. Um novo arrepio atravessou o menino ao pensar em um mar se estendendo por toda a faixa de areia da praia, com ondas gigantes indo em direção à sua casa triste, cinzenta e molhada, de paredes amarelas e jardim verde.

O medo deu espaço à determinação. Que era o que precisava o menino para dar os últimos passos até o mar.

Sob o céu nublado, as ondas cresciam e batiam com força no chão da praia, fazendo respingar gotas no menino, que sentia a água fria tocando os seus pés. Respirou fundo. Pensou, por um instante, em buscar distância e sair correndo para mergulhar. Repreendeu-se. “Isso é coisa de criança”. Foi caminhando lentamente mar adentro. Conforme ia entrando cada vez mais para dentro da água, ia sentindo o frio no seu corpo. Sem ter profundidade ainda para mergulhar, a primeira onda o acertou com violência, o fazendo recuar dois passos para trás e ter que fincar os pés na areia para não perder equilíbrio. Recuperou-se e conseguiu correr um pouco antes que a segunda onda, menor do que a primeira, viesse. Pegou um impulso e conseguiu pular. Já estava com a água na altura do peito quando a terceira onda chegou, a maior de todas, o obrigando a mergulhar de cabeça. Agora o corpo já havia se acostumado com a temperatura da água e menino iniciou o que havia se preparado nos últimos meses. Colocou seus óculos de natação e começou a nadar vigorosamente. As braçadas, tecnicamente perfeitas, lançavam o corpo do menino para frente, o fazendo deslizar sobre a água com eficiência. As pernadas, eventuais, se limitavam a manter o corpo do menino equilibrado e horizontal em relação ao mar. O menino não olhava para frente, respirando lateralmente entre as braçadas. Não era necessário olhar para frente quando não se estava indo para algum lugar específico. Ele ia para o fundo. E só isso importava.

As ondas, embora violentas e grandes, eram facilmente dribladas pelo menino. Ele era um bom nadador, como se espera de uma criança que cresceu em frente à praia. Nunca gostou das aulas de natação, mas seu pai sempre o obrigou a fazê-las, até que eventualmente começou a gostar. Há algo quase meditativo na natação, o ato de estar na água, realizando movimentos repetitivos com a respiração pausada. Como se, de alguma forma, em meio à água, a sua mente pudesse escapar para fora, enquanto seu corpo permanece em movimento cíclico. Estranhamente, em meio ao mar bravo, durante uma tempestade, o menino conseguiu alcançar esse estado de transe enquanto nadava em direção ao “fundo”. Seus pensamentos, agora livres, se metamorfosearam em lembranças antigas. De dias ensolarados na praia, com a água cristalina refletindo o azul do céu. De cafés da manhã compartilhados, enquanto o restante da casa dormia. Da sua mãe e seus irmãos indo encontrá-los na praia, pois sempre chegavam mais cedo, por serem os mais matutinos da família. De sorrisos tranquilizadores e risadas calorosas. De braços estendendo uma toalha e o aquecendo na beira da praia quando a água estava fria. E a água estava especialmente fria, esse dia. Aquele outro dia também. Na verdade, o menino tinha impressão de que, desde aquele dia, tudo estava sempre muito frio, como se a água que ele tivesse engolido quando havia se afogado tivesse permanecido em seu âmago, o congelando internamente. Um frio que nunca passa. Principalmente quando não se tem ninguém na beira da praia esperando com uma toalha.

O menino parou. Os pensamentos iam se enveredando para um caminho que não lhe seria útil aquele momento. E, de qualquer forma, já estava nadando há bastante tempo. Ele não utilizou nenhuma referência dessa vez, não havia sentido para isso nessa ocasião, mas a areia da praia estava bem longe. Ele chegou mais longe do que jamais havia ido.

Já era distante o bastante, pensou. O suficiente para encontrá-la de novo. O menino olhou para frente. Calmaria. As ondas pareciam ter cessado, de uma forma quase sobrenatural. A corrente fria atacava principalmente seus pés, mas ele não estava cansado. Olhou para cima, o céu nublado ainda era cortado pelos raios, embora a chuva tivesse arrefecido um pouco. Olhou para baixo, escuridão, os pés há metros, quantos não sabia, de distância do chão. O menino respirou fundo pelo nariz e expirou pela boca, enquanto olhava para o azul que se estendia no horizonte. Conseguia ficar cerca de dois minutos sem respirar debaixo d’água. “Terá que servir, eu só preciso nadar com o máximo de força para baixo”. Puxou o ar com a boca e, com as bochechas cheias, mergulhou.

Foram necessárias três tentativas para que o menino conseguisse chegar até o fundo do mar. Na primeira, faltou lhe força nas pernadas. Após os primeiros trinta segundos, com a sensação de pressão da água e a distância percorrida, o menino emergiu instintivamente. Reprendeu sua covardia. Se quisesse chegar até seu destino, teria que ir contra o seu próprio corpo que o implorava para subir. Na segunda tentativa, o menino conseguiu nadar por mais tempo, os braços se abrindo em braçadas, como se cavasse buracos na água. Foi o medo que o fez subir. Mesmo com os óculos de natação, naquela manhã nublada, o que o menino enxergava era um breu, que, somado ao frio, lhe fez retornar rapidamente para cima d’água. Observou que haveria, também, de abandonar o medo. Por isso, na terceira tentativa, apertou os olhos com força e só se concentrou em bater as pernas e nadar para baixo, com o máximo de força que conseguia. Nos primeiros segundos, a sensação de nadar para o fundo com os olhos completamente fechados pareceu mais assustadora do que a alternativa de o fazer com os olhos abertos. Ele não via, não escutava e não sentia nada. Somente o frio. Mas não iria abandonar o plano tão facilmente. Os olhos fechados, pelo menos, impossibilitavam que ele tivesse noção de quão fundo realmente estava. E, por isso, no ápice de sua teimosia, o menino fechou com mais força os olhos, cerrou os dentes, e começou a nadar com o máximo de força que podia para baixo. Pernadas rápidas e fortes, braçadas vigorosas e amplas, o menino ia sentindo cada vez mais a pressão da água contra a sua cabeça enquanto ia escavando o seu caminho para o fundo. Passado o primeiro minuto, a necessidade de respirar que o menino tentava ignorar se fez surgir. Violentamente. Ele abriu os olhos. Breu. Acima, quase não dava para ver a luz do dia, um pequeno ponto levemente claro. Percebeu a tolice de sua ideia, de tudo aquilo, tarde demais. A infantilidade. Tentou nadar para cima, os braços batendo violentamente enquanto o desespero ia tomando conta do seu corpo, que começava a tremer.

E então a mão esquelética agarrou seu tornozelo.

Dura e fria, como aço congelado, a mão cadavérica segurou com firmeza o tornozelo do menino que se contorcia, tentando impedir que seu nariz e boca aspirassem água. E então, lentamente, começou a descer. O que começou como uma descida lenta, foi se tornando cada vez mais veloz. Tão rápido que se o menino fechasse os olhos poderia até imaginar que estava em queda livre num poço sem fim.

No vácuo sensorial que só se pode experienciar no fundo do mar, um intervalo de tempo imensurável se passou. E, então, enquanto aquela mão monstruosa continuava puxando o menino para baixo, os corpos começaram a aparecer. O menino os notou quando esbarrou em um deles. O susto lhe fez abrir a boca e então percebeu que não sentia mais a falta de ar. Também não sentia mais o frio ou a pressão da água. Como se estivesse chegado em um espaço de vácuo, em que não se podia sentir nada, somente a mão esquelética, como aço frio. E os corpos flutuando.

De alguma forma, o breu havia dado lugar a uma luz azul-esverdeada, sem ponto de origem certo, que permitiu o menino enxergar alguns metros a sua frente. Entre as algas escuras que se estendiam como cordas na escuridão abaixo, estavam amarradas pessoas das mais diversas. Homens, mulheres e crianças, até mais jovens que o menino. Trajados com diferentes vestimentas, de épocas que o menino sequer conseguia precisar, os corpos estavam dispostos sem organização aparente, integrados à vegetação marítima, como se pertencentes a uma mesma árvore submersa, os galhos sendo as linhas de alga que se estendiam para cima, formando uma corrente de pessoas. Cada um deles com os olhos fechados, congelados em um sono profundo. Poderiam ser confundidos com estátuas, se os membros não flutuassem de forma delicada conforme as correntes de água, as quais o menino não conseguia sentir.

O menino tentou abafar o medo. Não havia tempo a perder. Se recuperando da tontura ao ser solto, começou a nadar entre os corpos. A sensação era peculiar, como se inexistisse água, mas sim alguma matéria desconhecida que preenchesse todo aquele espaço. Foi flutuando por entre os corpos, olhando atentamente cada um deles. Alguns lhe pareciam extremamente familiares, como pessoas que teria visto passando na rua; vizinhos, parentes distantes que lhe apertaram as bochechas em eventos de família, conhecidos de conhecidos que figuraram em momentos relevantes. Outros, completamente estranhos, rostos que o menino jamais tivesse visto em sua vida. Nenhum deles, contudo, era quem ele procurava. Intervalos de momentos se passaram, na infinitude de corpos dispostos na árvore macabra, o menino começou a sentir o desespero do não encontrar.

“Mas eu já cheguei até aqui, eu preciso achá-lo”.

O menino já sabia desde o início que estava sendo seguido. Quando a mão esquelética largou o seu pulso, foi possível sentir o vulto se locomovendo para trás dele, como uma sombra. Permanecendo no limite do seu campo de visão, a criatura observava atentamente o menino. Estranhamente, ele não sentiu medo. Naquele espaço silencioso e escuro, era até reconfortante saber que havia algo mais existindo ali além do menino. Essa sensação de cumplicidade, entre o menino e a criatura que o seguia como uma sombra, se manteve presente enquanto ele nadava entre os corpos dos afogados. Até que a dama da água cortou o silêncio como uma faca.

“Um menino vivo no fundo do mar? Faz muito tempo que eu não vejo isso. O que faz aqui? Não creio que veio para me fazer companhia”.

A voz da criatura era grave e distorcida, como se a matéria que preenchia aquele espaço modificasse o som. Ela falava de forma pausada, como se apreciando cada uma das palavras que saíam rangendo de sua boca esquelética, à semelhança de um baú muito antigo sendo aberto. Embora a dama da água estivesse longe, escondida entre as sombras dos corpos e algas, o menino sentia a voz gutural dentro de sua cabeça.

O menino tentou ignorar, em sua teimosia, a figura espectral. Agarrou um dos corpos a sua frente, um homem, cujo rosto era um dos que não lhe eram familiares, e pegou impulso para se projetar para frente, tentando acelerar sua procura e se afastar da sombra que o observava.

Mais um tempo se passou. E nada.

“A pergunta que eu lhe fiz é uma da qual eu sei a resposta”. A voz antiga voltou a ressoar pela mente do menino. “Eu sei por que você está aqui. Eu o reconheço. Mas você não irá achar o que procura”.

Havia uma sinceridade na voz. E mais do que isso, definitividade, como se as palavras fossem cravadas em pedra. E, para além de tudo, piedade, que foi o que irritou o garoto.

“Você me reconhece? Você se lembra então que me arrastou para o fundo do mar e tentou me afogar? E que o meu pai… que você o puxou para cá quando ele me salvou?! Você se lembra disso?!”.

O menino se virou e pôde ver melhor a criatura. Parcialmente escondida entre as algas e os corpos que flutuavam, estava uma mulher, vestida com um pano cinzento, como as águas do mar durante a noite, como o céu nublado em meio à tempestade, que lhe cobria a cabeça e o corpo. As mãos esqueléticas eram a única parte do seu corpo visível. Seu rosto permanecia ocultado pelo capuz cinzento, mas, de vez em quando, era possível tentar enxergar ou imaginar suas feições em meio às trevas; ora mulher, o rosto da cor das algas que prendiam os corpos flutuantes; ora esqueleto, o osso branco tal qual as mãos.

“Eu entendo a sua raiva, embora seja um sentimento que sou incapaz de sentir há muito tempo. Eu entendo sua raiva, porque ela vem da solidão. E a solidão é algo que eu consigo sentir muito bem. Você tem raiva porque é um menino triste. E só”.

De novo, a piedade. A confusão do menino só aumentou sua raiva.

“E a culpa de eu estar triste e sozinho é sua! Você controla o mar. E você levou meu pai. Estou aqui para buscar ele eu preciso levar ele de volta para casa!”.

Sem reação, a criatura continuou observando o menino, seus olhos ocultos pela sombra do capuz.

“Me leve até ele! Por favor, me leve até ele!”, gritou exasperado o menino, sem perceber como era possível tudo aquilo. As lágrimas começaram a descer de seu rosto, flutuando em bolhinhas para cima, a comprovar ser algo totalmente diferente do que preenchia aquele espaço em que estavam o menino, a dama e os corpos flutuantes.

“Eu sei onde ele está. Mas não posso te levar até ele”.

A criatura se aproximou do menino, passando por ele para observar um dos corpos, de uma criança, que flutuava perto deles.

“Eu controlo o mar tanto quanto ele me controla. E nada, nem ninguém, controla o mar. Ele só existe. Assim como eu apenas existo aqui.” A criatura voltou a olhar para o menino, a voz se tornando cada vez mais humana, conforme ele se acostumava a entender os sons que saiam de dentro do capuz sombrio.

“As ondas trazem alguns para cá, mas apenas seus corpos. E eu os mantenho aqui, em meu jardim, como uma galeria de memórias. Mas são apenas isso, memórias. Esculturas que um dia sonharam o sonho de serem pessoas. O mar um dia irá me levar também para lugares que eu sequer consigo imaginar, e talvez lá meu corpo possa ser parte de um jardim enquanto meu espírito emana para novas aventuras. Até que esse momento chegue, eu permaneço aqui”.

A criatura se aproximou do menino. Lenta e graciosamente, colocou as mãos esqueléticas sobre seus ombros. “Você sabe, muito bem, que seu pai não está aqui. Não há nada além de mim e você. O resto são apenas pegadas na areia que, assim como você e eu, irão desaparecer com o tempo”.

O menino começou a chorar enquanto sentia o peso das mãos da dama do mar em seus ombros, o impedindo de sair dali e fugir, para qualquer lugar. As mãos não eram mais duras e frias, mas sim calorosas, como as de uma mãe que tenta sossegar seu bebê que chora.

“Eu não irei impedir você em sua procura. Mas também não irei lhe ajudar a se prender aqui. Como eu disse, a solidão é um sentimento que me é familiar. E você me fez uma breve companhia, o que não é nada desprezável. Por isso te digo mais isso: você pode aceitar as coisas como elas são ou tentar nadar contra a correnteza. A escolha é sua. Mas o mar continuará sendo o mar. E eu continuarei aqui. No fundo”.

A mão da criatura passou pelo rosto do menino lhe secando as bolhas de lágrimas que subiam. Com um último olhar, a dama da água virou as costas e flutuou para longe, para mais fundo do que o menino um dia poderia pensar em alcançar.

O menino, sozinho e triste, apenas pôde chorar. Chorou por tanto tempo que pensou que poderia encher até um novo mar com suas lágrimas. Até que fez o que todo mundo faz quando se chora por muito tempo. Ele parou. O menino fechou os olhos. E tomou uma decisão.

Quando voltou a si, estava deitado na areia da praia. Tossiu a água do mar presa na garganta e, ao se recuperar, os seus olhos foram atraídos pelo sol que ia nascendo. A tempestade havia cessado. No horizonte, as aves voavam pelo céu, terminando o silêncio da manhã com seus cantos. O mar refletia a luz solar, pintando pequenas joias douradas na imensidão azul, como tesouros guardados no fundo. As ondas, calmas e graciosas, lambiam seus pés, quando o menino respirou fundo pelo nariz, tentando absorver a beleza daquele momento. Expirou pela boca. E se levantou. “Deve ser quase a hora do café. Eles já devem estar acordando”, pensou o menino, enquanto caminhava até sua casa, de paredes amarelas e jardim verde, molhada pela chuva, fazer companhia a quem amava.


Davi Furtado

Davi Furtado é ator, escritor e poeta. Nascido no Rio de Janeiro, faz parte do grupo teatral Tumulto.

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