gostaria de entrar peppa pig
e tomar uma xícara de chá
e pular nessa poça
de mijo leite e suor
que cresce sob meus pés
tudo começou peppa pig
quando no meu umbigo se formou
um pequeno olho d’água
que escorreu corpo abaixo
e foi se avolumando, avolumando
uma cachoeira desengonçada
que desconhecia o trajeto
marcou minhas pernas
pedras moldadas pelo tempo
desaguou no piso de taco
por onde tropeço em corais
e dinossauros de plástico
que rugem e se deslocam
com mais gracejo que eu
por onde escorrego
como uma baleia ao avesso
as tetas saltando do corpo
o corpo curvado pra dentro
eu tenho dois superpoderes
arrotar a qualquer hora
e chorar sempre que eu quero
prepara uma sequência de arrotos
que giram no ar
feito acrobatas olímpicos
e seguem a perder de vista
como gaivotas em dia ensolarado
a intenção de chorar
é como a de arrotar
só que mais fininha
pega um microfone invisível
entoa uma canção tristíssima
as lágrimas vão saindo
de mãos dadas com as palavras
mas elas não voam elas mantêm
os pés firmes no palco do seu rosto
as lágrimas me puxam
pra fora dos olhos
os arrotos vão sozinhos
me mostra as janelinhas abertas
eles caíram no pula-pula
um deles saltou da boca
em direção à lona vermelha
e ficou ali pulando
o outro ela nunca viu desprendido
engoliu junto com a palavra
que tentava botar pra fora
enquanto flutuava no alto
dos seus cinco anos
repetia mamãe mamãe
mamãe saía com um filete de sangue
olha isso mamãe
mamãe tem gosto de ferro
erguia nas mãos o primeiro dente
um troféu um amuleto
mamãe escorrendo da sua boca
um sorriso inteiro
tudo o que um dia esteve
dentro de mim isto é
um bisturi um bebê
uma cânula muitos dedos
um pau de borracha alguns
paus de carne coletores
menstruais espéculos
absorventes internos
tudo o que um dia esteve
dentro de mim um dia saiu
como quem nasce
ter um bebê é como ter
um membro do próprio corpo
fora do próprio corpo
se afastar desse bebê
pela primeira vez
ou pela segunda ou terceira
é como ter um membro amputado
escutar seu choro
gotejar leite
balançar de um lado pro outro
uma dor fantasma

Diana Sandes nasceu no Rio de Janeiro em 1986, é fotógrafa, artista visual e escreve. É graduada em História e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Nos últimos anos, participou de diversas mostras de cinema e de exposições em centros culturais e em galerias de arte. Integra algumas publicações com textos e imagens.

