ANTONIO UCHOA NETO – 4 poemas
ANTONIO UCHOA NETO – 4 poemas

ANTONIO UCHOA NETO – 4 poemas

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Pediria-me uma jovem senhora

Por carência de uma translação

Que prazer lhe restaurasse sem demora

E sem sequer sonhar repetição

Nem prolongamentos desnecessários

E ímpetos excedentes, inúteis

Pois a carne se sacia com o escasso

E a alma não liga importância ao inservível

Premência de amor na carne perdura

Pouco, e remida sequer existira

E vestígio não deixa ou cura

Corpo, memória ou matéria física

E pediria-me que não mais nos olhos a fitasse

Nem sobre si qualquer olhar deitasse

Pois outro adonava a fonte não intocada

E por mais uma translação cerrada

Ou nova medida que intercedesse

Enchendo as fontes invertidas

Que para dentro a seiva sugasse

E secasse o restante que era vida

Não, nada me pediria a jovem senhora

Pois já viraria o rosto para ir embora

Deixando-me apenas algumas linhas

Que como tudo na vida já definha

E tudo da minha própria extração

Corpo, memória, matéria física

Que não me trazem encantação

Nem me fazem verter prazer ou poesia

Dedos não tocam, versos não comovem

Pois à beleza deu as costas e nunca foi minha

Me desdenhou na timidez de jovem

E a mim se negou na maturidade e ainda

Agora no tempo da escrita

Malas prontas, olhar para o vago

Retornando a uma rotina antiga

Sem distinguir alegria, tristeza, ou vazio

Razões de viver distantes e apartadas

Incapaz de ouvir o expresso em meu rosto

O fenecido em minha pele qual escaras

O abandonado amor, sentido morto

Sem cuidado ou cultivo apenas vivo

Cinzas secas ou barro endurecido

Que se quebra ao menor sinal

Da partida que se aproxima 

E não ouve súplicas ou arrazoados

Partir, partir, uma data ela pediria

Insistentemente o idílio cessaria

Sem que dele jamais tivesse provado

E num átimo percebe-se um arrepender-se

Logo transmutado em indiferença

Mudança súbita de assunto e ciência

De estar imune e sem nada a fenecer

Nada pediria-me essa jovem senhora

A par de que tudo eu daria e mais

Já imersa em outra e diversa história

A parte de todos os meus sinais

Súplicas caladas e de olhos baixos

Não vistos nem adivinhados

Agora cessadas e esquecidas

E tão somente para nada escritas

 

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Não livrerimarei a palavra riqueza

Com a incorrespondente palavra distribuição

Em sacos diferentes porei farinha de mesa e a poeira

Branca e suspeita do Capital: sua acumulação

Nem no mesmo texto inimigas juradas de morte

Estarão: Capitalismo e Ética

Não ambicionarei quaisquer posses

Se estas custarem a outrem suas exéquias

Acrescentarei à tábua fatídica

O mandamento mais nobre: não acumularás

Não indagarei, se por desídia

Ou outra mazela, porque faltou este às arras.

Rimarei a palavra riqueza com desigualdade

Que a todos convém

ainda que dela repugnem

A si e a mim nisso se igualem

Porque não pode ser de outro modo

A nossa vontade a nada se sobrepõe

Só as palavras nos socorrem

E ajuda a ninguém dispõem

E ainda que as rimas me consolem

E me façam julgar ter lugar no mundo

Elas apenas são uma arrevesada forma

De não ser aqui mais um mudo

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O Lado Externo da Coxa

 

Montanhas fossem, longitudinalidades

Apontando o céu ou o mais modesto teto

A oposta distante, semi-oculta sombreada

E a próxima com a face voltada, externa

Coxa, cone de carne e mesmo varizes nascentes

Branca rosada roxa, quarto traseiro prolonga

Dormindo exausta sem sonhos

O amor é uma doença que não amolece

Nem prostra deixa suspensas até as pulsões

Mais dilaceradas e essas são minhas

A poucos metros das gêmeas locomotoras

Muscularidade gloriosa, conjunto farto

Mas sobretudo a parte externa

Cavalo visto em diagonal, mais belo

Animal da criação, aqui deitada

Não sob meus umbrais mas sobre um sofá

Velho e desgastado, morada de gatos

Tão perto e inatingível, véspera de um susto

Abortado que recusarias com espanto

E sabe-se lá mais o quê, fúria

Ou decepção amarga e olhar

Envenenado de ressentimento

Inúteis quaisquer desculpas pueris

Ao menos o fim de uma doença seria

Cruel como qualquer fim pesando

Sobre ombros curvados, campônio da mente

Retorno aos delírios do sentidor sem sentente

E não qualquer forma de solidão eterna

Redundância sem tato na pele macia

Por trinta escassos segundos minha

Um nunca desdenhoso e fecundo

Que se prolonga indefinido e mantém

Esperança ou tortura autoinfligida

Não sobre a carne não sobre a alma

Sobre todos os agentes do desejo

Que um corpo humano comporta

Nascidos para isso ou para isso adestrados

E só o que permanecerá retido

Imagens, quadros os vinte e quatro todos

Pontilhados sobre uma tela diminuta

Só isso restará, não para a eternidade

Que enquanto dura ultrapassa a tudo

E todos e não fica, não fica, igual o nada

E termina um poema inconcluso

Amargo, desolado, descambando

Para o lado interno onde

Repousa o objeto-fenda

Senda que a língua singra

E quando não, sonha e no sonho

Não morre, definha para seguir vivo

Em carne, em alma, em nada

Em tudo que se resume, ela

Ela, fora da qual nada existe

Não existe, não vigora, não vige.

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Pequena Oração dos Antifascistas

 

A face de Deus: “Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia.” (Josué, 6-21). 

 

 

Aquele que manda a morte aos que não creem nele, ou não o seguem, ou não o obedecem. Antes mandasse apenas hemorroidas (I Samuel, 5-9).

O Deus original, diga-se, aquele do Antigo Testamento, transformado em Pai Misericordioso pelos comunistas primitivos, os primeiros cristãos.

 

Um Deus que haveria de amar o cheiro de napalm pela manhã, sem dúvida; pois é cheiro de vitória. E Deus é aquele que dá a vitória.

Cheiro de morte dos inimigos. E é preciso ter inimigos para ser Deus.

 

Como pode ser que uma pessoa capaz de raciocínio não perceba que dividir o mundo entre o Bem e o Mal é fazer com que o mundo tenha uma estrutura especular? Se eu sou o Bem, e o outro o Mal, como não perceber que o outro, por sua vez, julgará ser o Bem, e atribuirá a você a condição de ser o Mal?

 

Não é daí que vem a Morte, a destruição?

 

Que os antigos hebreus, envolvidos em toda a sorte de conflito e lutas contra os demais semitas daquele limitado espaço geográfico (e por motivos de ordem bastante prática, como fica bem claro pelo texto bíblico), pensassem dessa forma – e como espelho do que pensavam os inimigos – é compreensível; mas que essa estupidez tenha persistido, e na verdade moldado, durante tanto tempo (até hoje, sob certos aspectos) não só as organizações sociais e nacionais, e as relações entre estas, é verdadeiramente espantoso.

 

Só não sei se isto é um monumento à estupidez humana, ou a sua cupidez.

Quem viu a face da destruição, viu a face de Deus. Dê comida aos pobres, mas não questione o porquê de sua existência, para não fazer companhia a comunistas empedernidos como Dom Hélder Câmara.

Deus, ao que parece, está ao lado deles, ao lado dos fascistas. Porque eles matam seus inimigos, a fio de espada e buracos de bala, não poupando mulheres, velhos e crianças.

 

Se Deus existe, Ele só pode ser o Bem.

O mal somos nós, que recusamos essa divisão maniqueísta, e queremos a paz, o convívio, a harmonia.

 

Se Deus existe, Ele protege os que fazem a sua obra. E, pelo visto, e por esses últimos dois mil anos, não somos nós.

São eles, os fascistas.

E eu, de minha parte, já desisti de esperar ver Deus mandar um raio sobre as cabeças, ou abrir a terra sob os pés desses malditos.

 

E ando olhando bem para os céus e para o chão, alternadamente, com medo de que essas coisas venham sobre mim, ou sob meus pés.

Antonio Uchoa Neto

Antonio Uchoa Neto, nascido em Recife-PE, em um 14 de março – junto com Castro Alves e Glauber Rocha, e na partida desse mundo de Karl Marx – hoje radicado na Bahia. Dois livros publicados, “Fenomenologia do Desempregado” (Kotter Editorial, 2024), e “O Câncer – Crítica da Oncologia Política” (Minimalismos Editora, 2025). Ambos, ensaios satíricos. O resto não tem importância.

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