Pediria-me uma jovem senhora
Por carência de uma translação
Que prazer lhe restaurasse sem demora
E sem sequer sonhar repetição
Nem prolongamentos desnecessários
E ímpetos excedentes, inúteis
Pois a carne se sacia com o escasso
E a alma não liga importância ao inservível
Premência de amor na carne perdura
Pouco, e remida sequer existira
E vestígio não deixa ou cura
Corpo, memória ou matéria física
E pediria-me que não mais nos olhos a fitasse
Nem sobre si qualquer olhar deitasse
Pois outro adonava a fonte não intocada
E por mais uma translação cerrada
Ou nova medida que intercedesse
Enchendo as fontes invertidas
Que para dentro a seiva sugasse
E secasse o restante que era vida
Não, nada me pediria a jovem senhora
Pois já viraria o rosto para ir embora
Deixando-me apenas algumas linhas
Que como tudo na vida já definha
E tudo da minha própria extração
Corpo, memória, matéria física
Que não me trazem encantação
Nem me fazem verter prazer ou poesia
Dedos não tocam, versos não comovem
Pois à beleza deu as costas e nunca foi minha
Me desdenhou na timidez de jovem
E a mim se negou na maturidade e ainda
Agora no tempo da escrita
Malas prontas, olhar para o vago
Retornando a uma rotina antiga
Sem distinguir alegria, tristeza, ou vazio
Razões de viver distantes e apartadas
Incapaz de ouvir o expresso em meu rosto
O fenecido em minha pele qual escaras
O abandonado amor, sentido morto
Sem cuidado ou cultivo apenas vivo
Cinzas secas ou barro endurecido
Que se quebra ao menor sinal
Da partida que se aproxima
E não ouve súplicas ou arrazoados
Partir, partir, uma data ela pediria
Insistentemente o idílio cessaria
Sem que dele jamais tivesse provado
E num átimo percebe-se um arrepender-se
Logo transmutado em indiferença
Mudança súbita de assunto e ciência
De estar imune e sem nada a fenecer
Nada pediria-me essa jovem senhora
A par de que tudo eu daria e mais
Já imersa em outra e diversa história
A parte de todos os meus sinais
Súplicas caladas e de olhos baixos
Não vistos nem adivinhados
Agora cessadas e esquecidas
E tão somente para nada escritas
Não livrerimarei a palavra riqueza
Com a incorrespondente palavra distribuição
Em sacos diferentes porei farinha de mesa e a poeira
Branca e suspeita do Capital: sua acumulação
Nem no mesmo texto inimigas juradas de morte
Estarão: Capitalismo e Ética
Não ambicionarei quaisquer posses
Se estas custarem a outrem suas exéquias
Acrescentarei à tábua fatídica
O mandamento mais nobre: não acumularás
Não indagarei, se por desídia
Ou outra mazela, porque faltou este às arras.
Rimarei a palavra riqueza com desigualdade
Que a todos convém
ainda que dela repugnem
A si e a mim nisso se igualem
Porque não pode ser de outro modo
A nossa vontade a nada se sobrepõe
Só as palavras nos socorrem
E ajuda a ninguém dispõem
E ainda que as rimas me consolem
E me façam julgar ter lugar no mundo
Elas apenas são uma arrevesada forma
De não ser aqui mais um mudo
O Lado Externo da Coxa
Montanhas fossem, longitudinalidades
Apontando o céu ou o mais modesto teto
A oposta distante, semi-oculta sombreada
E a próxima com a face voltada, externa
Coxa, cone de carne e mesmo varizes nascentes
Branca rosada roxa, quarto traseiro prolonga
Dormindo exausta sem sonhos
O amor é uma doença que não amolece
Nem prostra deixa suspensas até as pulsões
Mais dilaceradas e essas são minhas
A poucos metros das gêmeas locomotoras
Muscularidade gloriosa, conjunto farto
Mas sobretudo a parte externa
Cavalo visto em diagonal, mais belo
Animal da criação, aqui deitada
Não sob meus umbrais mas sobre um sofá
Velho e desgastado, morada de gatos
Tão perto e inatingível, véspera de um susto
Abortado que recusarias com espanto
E sabe-se lá mais o quê, fúria
Ou decepção amarga e olhar
Envenenado de ressentimento
Inúteis quaisquer desculpas pueris
Ao menos o fim de uma doença seria
Cruel como qualquer fim pesando
Sobre ombros curvados, campônio da mente
Retorno aos delírios do sentidor sem sentente
E não qualquer forma de solidão eterna
Redundância sem tato na pele macia
Por trinta escassos segundos minha
Um nunca desdenhoso e fecundo
Que se prolonga indefinido e mantém
Esperança ou tortura autoinfligida
Não sobre a carne não sobre a alma
Sobre todos os agentes do desejo
Que um corpo humano comporta
Nascidos para isso ou para isso adestrados
E só o que permanecerá retido
Imagens, quadros os vinte e quatro todos
Pontilhados sobre uma tela diminuta
Só isso restará, não para a eternidade
Que enquanto dura ultrapassa a tudo
E todos e não fica, não fica, igual o nada
E termina um poema inconcluso
Amargo, desolado, descambando
Para o lado interno onde
Repousa o objeto-fenda
Senda que a língua singra
E quando não, sonha e no sonho
Não morre, definha para seguir vivo
Em carne, em alma, em nada
Em tudo que se resume, ela
Ela, fora da qual nada existe
Não existe, não vigora, não vige.
Pequena Oração dos Antifascistas
A face de Deus: “Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia.” (Josué, 6-21).
Aquele que manda a morte aos que não creem nele, ou não o seguem, ou não o obedecem. Antes mandasse apenas hemorroidas (I Samuel, 5-9).
O Deus original, diga-se, aquele do Antigo Testamento, transformado em Pai Misericordioso pelos comunistas primitivos, os primeiros cristãos.
Um Deus que haveria de amar o cheiro de napalm pela manhã, sem dúvida; pois é cheiro de vitória. E Deus é aquele que dá a vitória.
Cheiro de morte dos inimigos. E é preciso ter inimigos para ser Deus.
Como pode ser que uma pessoa capaz de raciocínio não perceba que dividir o mundo entre o Bem e o Mal é fazer com que o mundo tenha uma estrutura especular? Se eu sou o Bem, e o outro o Mal, como não perceber que o outro, por sua vez, julgará ser o Bem, e atribuirá a você a condição de ser o Mal?
Não é daí que vem a Morte, a destruição?
Que os antigos hebreus, envolvidos em toda a sorte de conflito e lutas contra os demais semitas daquele limitado espaço geográfico (e por motivos de ordem bastante prática, como fica bem claro pelo texto bíblico), pensassem dessa forma – e como espelho do que pensavam os inimigos – é compreensível; mas que essa estupidez tenha persistido, e na verdade moldado, durante tanto tempo (até hoje, sob certos aspectos) não só as organizações sociais e nacionais, e as relações entre estas, é verdadeiramente espantoso.
Só não sei se isto é um monumento à estupidez humana, ou a sua cupidez.
Quem viu a face da destruição, viu a face de Deus. Dê comida aos pobres, mas não questione o porquê de sua existência, para não fazer companhia a comunistas empedernidos como Dom Hélder Câmara.
Deus, ao que parece, está ao lado deles, ao lado dos fascistas. Porque eles matam seus inimigos, a fio de espada e buracos de bala, não poupando mulheres, velhos e crianças.
Se Deus existe, Ele só pode ser o Bem.
O mal somos nós, que recusamos essa divisão maniqueísta, e queremos a paz, o convívio, a harmonia.
Se Deus existe, Ele protege os que fazem a sua obra. E, pelo visto, e por esses últimos dois mil anos, não somos nós.
São eles, os fascistas.
E eu, de minha parte, já desisti de esperar ver Deus mandar um raio sobre as cabeças, ou abrir a terra sob os pés desses malditos.
E ando olhando bem para os céus e para o chão, alternadamente, com medo de que essas coisas venham sobre mim, ou sob meus pés.

Antonio Uchoa Neto, nascido em Recife-PE, em um 14 de março – junto com Castro Alves e Glauber Rocha, e na partida desse mundo de Karl Marx – hoje radicado na Bahia. Dois livros publicados, “Fenomenologia do Desempregado” (Kotter Editorial, 2024), e “O Câncer – Crítica da Oncologia Política” (Minimalismos Editora, 2025). Ambos, ensaios satíricos. O resto não tem importância.

