NAVALHAR É PRECISO – ENZO PEIXOTO – [entrevista]
NAVALHAR É PRECISO – ENZO PEIXOTO – [entrevista]

NAVALHAR É PRECISO – ENZO PEIXOTO – [entrevista]

REVISTA NAVALHISTA – O seu livro de estreia, “Declaro-me: o sopro das rosas (Viegas Editora, 2023)”, reúne poemas nascidos entre os seus 15 e 18 anos. Que implicações essa longa maturação dos versos trouxe à forma final do livro e para o modo de perceber sua própria voz poética hoje?

ENZO PEIXOTO – O amadurecimento acontece mediante construção de propósito. Muito embora as percepções disso se traduzam nas palavras de meu texto, penso que a vida é recorte dessas fases de progresso. E, a bem da verdade, o propósito se constrói mediante as escolhas que se apresentam durante a vida. A exemplo, os poemas de agora não são como os de aos 15, de aos 18. A maior implicação é tanto literária, quanto existencial, nisso tudo, que me foi notar que os livros se fazem de vida, mas que a vida é para além desses. Os poemas que escrevo são uma fatalidade dessa ideia, como o meu entendimento poético.

R.N.  – O título, Declaro-me: o sopro das rosas, sugere simultaneamente intimidade e abertura, como se a poesia fosse uma declaração e, ao mesmo tempo, um elemento que se espalha pelo ar. Poderia comentar como esse sopro serve de metáfora do que a poesia pode fazer na vida dos leitores?

E.P. – O título se conjuga na primeira pessoa do indicativo propositalmente. Os poemas são semeados nas pessoas que os leem e nascidos nas pessoas que os escrevem, assim entendidos. É uma relação de diálogo, de conexão. Eu declaro isso a alguém e alguém se sente declarado. Quando tinha em torno dos 14, o poema do Quintana, sobre o alimento dos pássaros já estarem em nós, me encantou profundamente. Isso porque o que se escreve, mesmo num tom íntimo, declarado, secreto, oculto, toca o outro ou é direcionado para o outro. E, a partir disso, surge uma relação. As declarações advêm de nós, esse alimento, que é declarado, espalhado. É um senso de esperança e de caridade, mesmo que haja poemas não tão cheios de doçura no livro. É nesse sentido, conforme essas ideias, que os versos são uma afirmação cognitiva de individualidade daqueles que os escrevem, mas também um fomento a quem os lê, nos dizeres do “sopro das rosas”. Essa é a metáfora, basicamente, do título: florescer no outro e o outro ser florescido por quem escreve.

R.N. – Declaro-me: o sopro das rosas está dividido em quatro partes — “Rosa”, “Rabiscos”, “Relógio” e “Ramalhete”, sugerindo tempos, modos de olhar e ritmos distintos. Em que medida essa segmentação estrutural dialoga com as experiências e temas explorados no livro?

E.P. – O livro foi dividido propositalmente num ordenamento temático, sem que ocorresse o risco de estar ausente de sintonia entre os poemas de capítulos diferentes. Declaro-me, como todo livro de poemas, pode ser lido de maneira aleatória, embora com a possibilidade de adquirir dinâmicas distintas de significância em caso de explorado linearmente (como uma espécie de romance). Essas dinâmicas são tanto textuais, quanto de amadurecimento. É textual, pois os poemas de amor em “Rosas” são confissões quase juvenis, enquanto em “Relógio” essas ideias serem mais ontológicas, ainda que abordando o aspecto amoroso, a variar cada um em sua forma. É de amadurecimento, pois, mais jovem, os textos se voltavam a um lugar utópico que acessava mais facilmente, embora não hoje distante. No que tange os aspectos do texto, à vista disso, o ritmo é uma consequência imediata da vida que estava experimentando naquele momento: em “Rosa”, um jovem no colégio, em “Rabiscos” e em “Relógio”, o cenário pandêmico em que a invenção de histórias e a reflexão me foram circunstâncias de resgate da própria angústia. O capítulo “Ramalhete” é um desdobramento de “Rosa” (tanto em sentido quanto em seu título), já que é uma concepção de amor menos autocentrada, tendo sido escrito no meio termo destes momentos: colégio, pandemia, vestibular. E, ao ter concebido isso, inevitavelmente separei e anotei o tempo nos meus modos, de “olhar”, de perceber não só minhas vivências, quanto minhas produções literárias de então. Eu buscava imprimir em minha obra e em minhas palavras essa temporalidade e modo de entender o tempo, afinal, enquanto se vive, se escreve. Essa segmentação construiu uma declaração honesta sobre mim e sobre meu entorno, como uma espécie de autobiografia momentânea sem a intenção de ser. Como todos os poemas que escrevo, arrisco pontuar.

R.N.  – Notamos a musicalidade e a rítmica dos versos ao longo do livro. É qualidade notória. Os versos do poema “Ilustrar” (Não sabe o que sente, mas que inventa na sorte do tempo) nos dão essa noção. De que maneira você pensa a dimensão sonora e rítmica da poesia na sua escrita? A música, em sentido literal ou metafórico, tem papel na criação desses poemas?

E.P. – O poema é um porto para a extensão inegável da música, independentemente do contexto a que se propõe. E, como cantor, sou melhor escritor. Talvez, de maneira inconsciente, a forma de pensar me direcionou a essa escrita rimada. Talvez, os versos de meu avô Peixoto, musicados sobre as cheias do Rio Itapecurú, também. A saber. Contudo, há uma finalidade estética por detrás disso: como uma vontade de cantar a vida, como também o interesse de se brincar com algo que não se costuma tanto mais fazer, numa espécie de trovadorismo dos novos tempos, formação de cantiga e de alegria. Um crime diante da tristeza e do silêncio. Uma rebeldia que não precisa ser necessariamente valente, apenas alegre. Eu penso o som do texto como o aspecto de vida que há nele. Nem que seja para dizer do triste ou do feliz, palavra que não desperta sons se se faz de letra morta.

R.N.  – A sua escrita aparece como uma declaração cartesiana, perdoe a redundância, quase confessional, vide os versos de “Vivere la Vita” (…na saúde, a indiferença é desprezo/arrependimento no tempo não é volta/na morte, perdão não é lágrima). Que propósito move esse gesto poético? E como você pensa a poesia como ação? Para habitar, atravessar ou preencher esse “confessionário” que o livro parece evocar?

E.P. – A ideia de ser exato, ainda que livre à possibilidade de contradizer-me. Isso porque entendo que meu fazer textual segue em construção, não encerrado. Logo, a ideia segue viva. E, justamente por conta disso, há uma lógica em se abordar o presente e afirmá-lo, ainda que em aspectos subjetivos (sobre a “saúde/vitalidade”, a “indiferença”, o “desprezo”, “o arrependimento”). Contudo, e sem parecer ilógico: quero permitir-me repensar no futuro esses conceitos sem o risco de me constranger, se preciso. O poema, assim, se faz vivo, atitudinal, num gesto de movimento tanto contemplativo, quanto afirmativo. Um movimento de evocação. E essa ação não é pela contradição eventual, mas pela dúvida incessante da afirmação, que pode ser perigosa. Aliás, não saber é socrático e duvidar, sempre, cartesiano.

R.N.  – O livro inclui ilustrações de Zack Miranda, que decerto, ampliam o sentido e o espaço sensorial da leitura. Quais caminhos foram usados para se conceber essa parceria entre palavra e imagem? Qual o papel do visual dentro de uma obra poética?

E.P. – A liberdade criativa respeitada e o interesse de diálogo entre texto e ilustração. Eu entreguei os poemas para o Zack e o disse: “o que tu pensas quando lês esses textos?”. E o deixei pensar, desenhar, e pintar em aquarela. Claro, existia impressões, opiniões minhas no processo, mas sem invadir de maneira indiscreta o movimento criativo dele. A capa, longe do misticismo fantasioso, obtive num sonho no mesmo período de maior produção literária da primeira versão do livro, entre os 14/15 anos. Conheci o Zack pouco tempo depois disso, quando já estava com o livro em sua versão primeira, “concluída”. Diga-se que essa história foi engraçada, pois a ilustradora que antes iria ilustrar meu livro entrara de férias e indicara um amigo seu. O Zack. Talvez, de todas as ilustrações, a capa foi a única que apontei com mais detalhes como queria que fosse. E, nesse processo de elaboração, eu entendi desde cedo que as ilustrações (por não serem uma arte minha, mas que estariam em meu livro) deveriam refletir algo livre a ver com meu livro. Esse é o papel visual das ilustrações em uma obra de sentimento honesto. Com amor, com vida, pois o essencial diálogo entre a palavra, a vontade de comunicar, e as ilustrações, sem necessariamente dizer sobre aquele texto, mas o mencionando ainda assim, é o de construir vínculo. Uma abstração segura. Nesse sentido, as aquarelas de Declaro-me são como uma adaptação do livro, ao mesmo tempo em que o torna suporte artístico para sua própria adequação ilustrada. O livro existe sem as ilustrações, embora a sua adaptação nas formas desenhadas seja o que o transforma em algo além.

R.N. – Ser estudante de medicina também implica pensar constantemente os sentidos da vida, lidar com situações limítrofes e tomar decisões assertivas. E o ser poeta tem suas contradições inerentes, todavia. De que maneira você percebe a relação entre a lógica da medicina, com suas noções de diagnóstico, paciência, investigação e precisão e a estética do fazer poético? Em que medida esse pensamento médico combina com suas escolhas formais de organização literária?

E.P. – O “ser poeta”, como entendimento de mundo, existe em mim antes do “ser estudante de medicina/ligado à medicina”. Evidentemente, a poesia e a medicina constroem minha rotina e minha vida até aqui, no presente e no passado, se desde cedo tenho meus dias dedicados ao estudo, muito seriamente, e à percepção sensível da realidade, diante de seus limites, das suas exatidões e das possibilidades de dúvida. Ser estudante de medicina e escritor de poemas é ser um homem curioso. A curiosidade está para o texto, quanto para o interesse de ciência. E, nesta curiosidade, a dedicação existe inegavelmente em tudo. E, a bem da verdade, são reflexões que ainda medito, mas que a meu ver são indissociáveis e constroem quem sou.

R.N.  – Toda escrita carrega, ainda que de modo implícito, uma concepção de arte e de linguagem. Qual é, para você, o núcleo do fazer poético? Há alguma reflexão teórica, tradição literária ou diálogo com outros autores que funcione como orientação durante o seu processo criativo?

E.P. – Os poemas devem anunciar uma realidade, seja íntima, seja coletiva. E, de acordo com isso, trazer luz ao que ainda não foi visto, a “verdade”, a esperança e a sentimentalidade. Romper os grilhões aos quais estamos todos, em maior ou menor medida, ataviados. Incomodar, criar dúvidas e certezas, mas sobretudo direcionar a algum lugar. Atualmente e desde sempre, essas são minhas ponderações.

R.N.  – Sabemos que você também já marcou presença em eventos literários e encontros de poesia, promovendo conversas com leitores e outros escritores. Que importância você atribui a esses espaços de diálogo em relação à escrita solitária e ao lugar da poesia na vida social e cultural?

E.P. – De se firmar o espaço para o diálogo. Não exatamente sobre a conversa interpessoal em si, mas sobre o potencial libertador que a poesia, o texto, a palavra em sua linguagem obtêm ao comunicar algo. O gesto, o evento, o encontro podem ser repetitivos, porém nunca idênticos e há sempre algo a se revolucionar em nós. É nessa medida que oportunidades similares constroem meio para a ponte de interação entre o solitário e o “nós”. A vida social e cultural se faz mediante essas noções de importância, pois, de certo modo, se escreve para o outro e acerca do outro. Encerrar a palavra em si é egoísmo, quando se pode dizer.


Enzo Peixoto

Enzo Peixoto nasceu em São Luís, capital do Maranhão, em 20/08/2004. Sempre voltado para escrita, aos dezoito anos publicou “Declaro-me: o sopro das Rosas”, seu livro de poemas e de estreia. Atualmente, é estudante de Medicina da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e prepara um novo livro, de contos. Os seus textos abordam temáticas universais, embora sob uma contextualização local: poemas musicados e narrativas em prosa em que a amorosidade, as reflexões e o ritmo conferem singularidade às suas construções literárias.

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