NÃO GOSTO DE MAR
Examinei o conjunto,
Fiquei meio apalermado,
Pus a vergonha de lado
Precisava chegar junto.
Querendo puxar assunto
Perguntei sem calcular,
Se queria navegar
Numa canoa furada,
Respondeu toda entojada:
– Não, eu não gosto de mar.
Modifiquei a proposta,
Fui um pouco mais discreto,
Pensei no fato concreto,
De canoa ela não gosta.
Arrisquei em nova aposta:
Então podemos nadar,
Sem risco de se afogar,
Como faz qualquer atleta?
A resposta foi direta:
– Não, eu não gosto de mar.
Naquela situação
Ficou de cara amarrada,
E deixá-la encabulada
Não era minha intenção.
Mudei a dissertação:
– Então podemos pescar?
Perguntei por perguntar,
Sabendo que ela não gosta,
E veio a mesma resposta:
– Não, eu não gosto de mar.
Fiz nova meditação,
Revisei meu pensamento,
Apostei no sentimento,
Redobrei a sedução.
Pra minha decepção
Ela não quis aceitar,
Meu convite pra jantar
No restaurante da praia.
Declinou, rodando a saia:
– Não, eu não gosto de mar.
Cometi erro grosseiro
Na festa de fim de ano,
Pular onda era meu plano
No mar do Rio de Janeiro.
Desmoronou por inteiro
Meu poder de argumentar,
Além de desaprovar
E taxar como loucura,
Falou cheia de frescura:
– Não, eu não gosto de mar.
Para provar meu amor,
Quero levar essa musa,
Pra ver um show de Cazuza
Na Praia do Arpoador.
Sem perguntar o valor
Comer ostra e caviar,
E quando a noite chegar
Num iate de cem pés,
Vê-la gritar do convés:
– Sou doidinha pelo mar!
A SAGA DE UM QUASE HERÓI
Eu já me considerava
Dos heróis o derradeiro,
Mas ainda alimentava
O sonho de ser guerreiro.
Vitórias acumulei
Contra déspotas tiranos,
Nas batalhas que enfrentei
Venci gregos e baianos.
Revelei a Prometeu
Como enfrentar o perigo,
Até Ícaro aprendeu
Colar as asas comigo.
Com Ulisses fiz um trato
Difícil de ser cumprido:
A proteção de Penélope
Na ausência do marido.
Para cumprir minha parte
Fui aos trancos e barrancos,
Enfrentei os pretendentes
Frente a frente e pelos flancos.
Com uma palavra, um gesto,
Dominava o mundo inteiro
Ensinei ao deus Hefesto
A profissão de ferreiro.
Diomedes era triste
Porque lhe faltava audácia,
Sua lança estava em riste
Mas sem nenhuma eficácia.
Por ser mui valente e sério
Coroou-se rei da Trácia,
Ele, senhor de um império,
Eu, o rei da pertinácia.
Quando ainda em tenra idade,
Uma vidente atrevida
Falou-me toda verdade,
Vicissitudes da vida.
Comprei um cavalo alado,
Pura raça e boa cria,
Conheci de cabo a rabo
Europa, França e Bahia.
Enviado do futuro
Por fidalgo cavaleiro,
Dito de triste figura
Ginete forte e faceiro.
Mais tarde, em terras de Espanha
Rocinante engendraria,
Junto a seu famoso dono
Toda sorte de porfia.
Desde vencer os moinhos
Até a melhor ideia:
Percorrer longos caminhos
E conquistar Dulcineia.
Um dia, já preparado
Em todas artes da guerra,
Por Páris fui convocado
A sair da minha terra.
No reino de Agamenon
Comecei minha bravata,
Qual um Papa em Avignon,
Coberto de ouro e de prata.
Isso prometera Páris,
Jovem de rara beleza,
Senhor de terras e mares,
Orgulho da realeza.
Imberbe, inexperiente,
Ainda de poucos anos,
Para os aqueus insolente
Mas orgulho dos troianos.
Pediu-me em nome de Zeus,
Deus de gregos e troianos,
Que raptasse a princesa,
Senhora dos espartanos.
Penetrei nos aposentos,
Fiquei vis-a-vis com ela,
Menelau bateu na porta,
Fugimos pela janela.
Helena estava dormindo,
Tomei-a inteira nos braços,
Depois conferi os traços
Da rainha raptada,
A mais bela entre as mulheres,
E do rei a mais amada.
Bela como eu nunca vi,
Acordou roubando a cena,
Confesso que me aturdi
Ao vê-la calma e serena.
Só mais tarde descobri
Que a própria Palas Atena,
Deusa, senhora de si,
Vendo a beleza de Helena
Voou pra longe dali.
Quando se deu pela falta
De sua amada consorte,
Menelau nos perseguiu,
Vimos a cara da morte
Saímos, Helena e eu
Em Rocinante, a trotar,
Troia toda iluminada,
Páris a nos esperar.
Singramos o Mar Egeu,
E se a memória não erra,
Pela estrada que Odisseu
Andou voltando da guerra.
Nossa parada em Ogígio
Foi breve, um quarto de hora,
Bebemos água de coco,
Fomos depois ilha a fora.
Calypso, Nossa Senhora!
Enciumada de Helena
Torceu a cara, fez cena,
Depois nos mandou embora.
O filho de Poseidon,
Ciclope mal encarado,
Cara de poucos amigos
E corpo desajeitado,
Gorducho, feio e glutão,
Um só olho pra que visse,
Despertei sua atenção
Quando lhe falei de Ulisses.
Mas conosco foi gentil,
Deu banquete colossal,
Uma coxa e um quadril,
Partes de grande animal.
Às vezes não me dei conta
Dos perigos que corria,
Na tenda de Agamenon
Quase que entrei numa fria,
O rei enfrentava Aquiles,
Mas juro que eu não sabia.
Tornaram-se contendores
Numa disputa amorosa,
Por uma dama formosa,
Senhora de dois senhores.
Convenci Agamenon
A devolver a donzela,
Briseida era o nome dela,
Aquiles seu protetor,
Homem de grande valor,
Um guerreiro competente,
Bonito, forte e valente,
Caído de amor por ela.
Quando chegamos a Troia
Preparei-me para a luta,
Helena quis ser astuta,
Apresentou-se primeiro
Dizendo é este o guerreiro
Sem igual na força bruta.
Páris não moveu um dedo,
Fingiu não nos conhecer,
Deu de ombros, nada a ver,
Já não queria lutar.
Preferiu lançar-se ao mar,
Deixou Helena comigo,
E foi procurar abrigo
Fugindo do grande equino.
Foi cumprir o seu destino,
Fundar Roma com Eneas.
Com cara de decidido
Disse é o fim da epopeia,
Invente uma nova ideia,
Devolva Helena ao marido.
Incendiou-se a cidade,
Desmoronou-se o Império,
Nem luta nem adultério,
Morremos no mesmo instante.
Perdido, em terra distante,
Nunca vi-me tão tristonho,
Canhestro, inábil, bisonho,
Foi grande a decepção.
Quando despertei do sonho
A história estava encerrada,
Mal urdida e mal contada,
Não fui herói nem vilão.

MASSILON SILVA é natural de Alagoas, jornalista, escritor e poeta, foi correspondente do Jornal de Alagoas, Jornal de Hoje e Desafio, todos de Maceió. É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Academia Brasileira Templária de Letras e Academia de Letras de Pão de Açúcar.

