‘Perdi’ minha tíbia, minha liberdade e minha cidade. Uma espécie de Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo só que na zona sul carioca e sem a cena redentora das pedras falantes.
Eu digo que não sei por onde começar sempre que alguém me pergunta o que aconteceu, mas eu sempre sei. Começo pela derrocada da história porque não herdei a habilidade do storytelling que todos os integrantes da minha família parecem dominar, então eu já começo arruinando a chance do ouvinte de se surpreender com o final de uma história labiríntica e heroica de respeito. Começo pelo assalto mesmo. Não apenas da surpresa de um possível ouvinte, mas do assalto literal que eu sofri.
Começo dizendo que saía do trabalho num horário tranquilo pronta para dar continuidade à uma vida simples e razoavelmente confortável recém conquistada em cima de uma bicicleta vinculada a um banco laranja e de repente um cara me assaltou. Nossa mas foi assim mesmo sim assim mesmo à luz do dia, mas ele estava armado não senhora só tinha mesmo a força bruta meu Deus Botafogo já foi mais civilizado (é mesmo, quando?) pois é deve ser. E em seguida conto que aquele assalto em frente ao Pão de Açúcar culminou na queda da bicicleta em minha perna, que culminou numa fratura, que culminou numa cirurgia e na recuperação mais longa e ingrata que já sofri na minha breve, simples e razoavelmente confortável vida recém conquistada de 22 anos.
Eu não acho que ninguém tenha nunca me ensinado a sofrer o luto de uma cidade. Nem em livro nem numa conversa casual. O Rio de Janeiro nunca foi seguro, nem antes nem depois do surgimento de tantos institutos de pesquisa sobre segurança pública. Nem com a criação de uma ‘guarda’ municipal. Ou durante operações. E nem mesmo na sua origem porque o próprio estabelecimento dessa terra como território necessitou intrinsecamente na violação dos direitos de inúmeros escravos por generosos 335 anos.
O ponto é que eu sinto que eu perdi a conexão com a cidade. Ou cheguei tarde demais para usufruir dessa beleza arrebatadora da nobre zona sul do Rio. Como se a sua beleza, o único elemento que me fazia superar a gravidade do buraco espiritual e socioeconômico em que esta cidade se encontra e vai se encontrar para sempre ainda que o próprio Smallville se candidate pro cargo de prefeito, tivesse me traído. Um homem que nunca mais vai me ver não só subtraiu meu celular e três meses inteiros da minha vida, mas talvez a maior razão de ainda sentir que devo morar aqui.
Só que nenhuma beleza cega derivada de um cartão-postal pode suspender a tensão constante de perder seus bens a qualquer momento para um estranho na rua; nenhum deslumbramento pode superar o trauma de ser brutalmente violentada numa rua em troca de um Iphone 11. Só de pensar em voltar a andar até um mercado meu rosto se enche daquele formigamento ansioso, adrenalizado, numa crescente.
E então um novo luto: a liberdade. Quebrar a tíbia é a pior coisa que pode acontecer para alguém que exercita todas as esferas da liberdade física. Eu nadava, malhava, corria e pedalava. E estava há um mês de começar o esporte mais lindo do mundo: tênis. Todo mundo acha que o brilho de uma jogada está no grip mas está no loading, que é o movimento de transferir o peso do corpo para a perna de trás antes de dar o giro. Horrível usar os verbos conjugados no pretérito imperfeito porque parece que a versão de mim que fazia todas essas coisas também ficou no passado. Uma sacanagem semântica-semiótica.
No geral, eu me sinto exilada da vida pública. Sinto falta do Parque Guinle, das caminhadas intensas que eu fazia com ou sem companhia, dos passeios ultrafaturados na Sephora e na Travessa. Me sinto exilada da vida privada também, já que até pra tomar banho eu preciso de ajuda. Pode ser que o Rio continue causando frisson nos corações e nos cartões de créditos de alguns gringos, mas meu tesão por aqui oficialmente acabou.

Ágatha Araújo sou carioca e estudante de Jornalismo de 24 anos. Tenho passagens pelo Jornal O Dia, Portal Onbus e AJOR. Gosto de pintar quadros de oceano e documentar minha vida com fotografia analógica. Assinei a fotografia de uma peça de teatro e sou frequente no Medium e Substack. Tenho paixão por crônicas, literatura russa e romances de cavalaria.
