por Soraya Viana
professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.
Joguete do mal
Esqueça tudo o que já leu sobre sociedades secretas do hemisfério norte. Em seu livro de estreia, Pedro Sanches mostra que conspirações podem agir bem mais perto do que imaginamos.
O boneco (O Zezeu, 2025) é protagonizado por Severino, jovem de origem humilde do interior do Rio de Janeiro. Em 1969, ano em que transcorre a ação do romance, ele mora em Petrópolis, onde cursa Direito. Entre estudos, o trabalho na biblioteca da universidade e o namoro com Nadja, moça de uma família local abastada, o rapaz leva uma vida simples. Aos poucos, acontecimentos bizarros infiltram-se em seu dia a dia.
As primeiras mudanças são sonhos violentos. Repletos de pessoas sinistras e rituais incompreensíveis, eles tornam-se rotina para o personagem. Com esse vislumbre da psique do protagonista, somos envolvidos, junto com ele, por uma atmosfera de dúvida a respeito de sua sanidade.
A princípio, não se sabe de que ordem são as perturbações de Severino. Seriam comunicações de um plano desconhecido ou apenas produto de sua imaginação? A única certeza é que ele se sente um boneco sem autonomia dentro da maré insólita que invade seu cotidiano. Ao procurar ajuda psicológica, o personagem adentra um universo mais assustador do que poderia imaginar.
“Deus… Existe um outro mundo dentro do mundo em que vivemos”, pensa Severino no capítulo X — O submundo.
Quando entra em cena a possibilidade do sobrenatural, o livro torna-se um thriller viciante, com ganchos ao final de cada capítulo e reviravoltas ocasionais. Sendo assim, não poderiam faltar elementos consagrados do suspense. Simbolismos do número 13 (quantidade de capítulos na história), casas centenárias com passagens ocultas, livros misteriosos, alusões a seitas, seres e veículos sombrios estão todos presentes. Esses fatores, no entanto, não fazem desse enredo um clichê.
Utilizando cultura popular, moda e referências históricas como a boemia em Búzios nos anos 60 e 70, Pedro Sanches enriquece a narrativa com uma bem urdida ambientação de época. E mesmo quando alude ao assassinato da atriz e modelo estadunidense Sharon Tate, a história de Severino acena ao rol de famosos crimes reais (e ao horror, gênero correlato ao suspense), mas permanece calcada num cenário nacional, evitando, assim, o lugar-comum.

Outro aspecto que encorpa o enredo é a participação de tipos facilmente identificáveis e comuns à vida real brasileira. A trama inclui extensas linhagens latifundiárias e políticas, representadas pelos parentes de Nadja, cuja origem remonta à época em que a família real portuguesa vivia em Petrópolis. A partir dessa genealogia, há referências à aliança comercial lusitana com a Inglaterra no período colonial e outros pontos que adicionam complexidade à trama e verossimilhança ao seu tema. Cada elemento revela o cuidado com a pesquisa, não só da fase histórica em que o livro se ambienta, mas do panorama nacional através dos séculos.
O autor também cria espaço para teorias da conspiração, como a de que o líder nazista dos anos 40 teria se refugiado no Brasil após a derrota na Segunda Guerra Mundial. Porém, o foco narrativo prossegue delineado num pano de fundo realista, que menciona crenças de matriz africana, influências cristãs em nossa sociedade, a inauguração de Brasília em 1960 e figuras como o Marechal Castelo Branco. Além de lembrar que o romance transcorre na época ditatorial brasileira, esses aspectos relacionam-se intimamente às transformações na vida do protagonista.
Equilibrando ficção histórica e suspense, vida psíquica e ação, Pedro Sanches revela a influência do passado no presente, sejam eles ficção ou realidade. O boneco é, acima de tudo, um romance de formação horripilante: Um jovem confrontando pela primeira vez os bastidores de poderes insuspeitos e descobrindo até que ponto temos liberdade para escolher entre o bem e o mal.

Pedro Sanches Virgolino, 23 anos, escritor, ator e estudante de psicologia. Natural de Macapá (AP). O boneco (O Zezeu, 2025) é seu livro de estreia.

![PEDRO SANCHES – O boneco [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/07/48f54265-46c4-4cb8-b34e-2279471eb0591-scaled.png)