ANA CLARA MARQUES – Além do grande espetáculo [conto]
ANA CLARA MARQUES – Além do grande espetáculo [conto]

ANA CLARA MARQUES – Além do grande espetáculo [conto]

Não me recordo ao certo como cheguei ao número 32, mas a casa era aconchegante e muito grande. O piso do corredor que levava aos quartos era revestido com carpetes macios caríssimos. Esse corredor seguia com dois quartos à esquerda, um quarto à direita e dois ao final, um ao lado do outro, pequenos e feitos para hóspedes. Embora, como era de conhecimento, ninguém visitasse a residência há alguns anos e pouca informação fosse divulgada sobre o imóvel.

Para fora do corredor, porém, se estendia uma configuração questionável. A porta que levava aos quartos descritos localizava-se em uma sala acima dos demais cômodos, com um desnível proporcionado por escadas desiguais e altas. Para além da divisão entre sala e um corredor menor, que levava a um banheiro privativo e dois quartos espalhados em direção à porta dos fundos, havia um box de vidro parecido com um aquário, cobrindo um chuveiro exposto em meio à casa, com uma mesa de café posta bem ao meio. Sugeria-se, assim, que alguém ali se banhava e que alguém ali bebesse café, servindo para outrem uma xícara, espetacularizando-se o ato mais banal do cotidiano.

Quando cheguei ao número 32, não havia ninguém. As chaves estavam comigo e adentrei tímida no vento gelado que os ladrilhos proporcionavam, como quem entra pela primeira vez em uma casa muito maior do que está acostumado. Limpei meus pés em um tapete corroído pelo tempo e deixei minhas coisas em um quarto que ficava ao lado da sala. Não adentrei no corredor, já que segundo o rápido telefonema pela manhã, a proprietária me garantiu que era um espaço terminantemente proibido. A orientação, assim, era fazer o menor volume de sujeira, ocupar o menor número de cômodos e existir o menos possível. Também eu não pretendia andar por muitos lugares, a despeito de uma curiosidade nociva vinda desde a infância. Morar sozinha em uma casa daquelas, mesmo que por uns dias, trazia-me um sufoco incontornável: uma mágoa advinda da sensação de vulnerabilidade, fruto da solidão. Por isso, nas primeiras duas noites, não notei nada de estranho. Também pelo cansaço, passei meus dias relaxada no sofá, ignorando a grande caixa de vidro, tomando-a como uma decoração excêntrica das quais gostam os ricos. Ao fim das tardes, trancava todas as janelas e conferia o cadeado do portão. O caminho entre o portão e a porta de entrada era curto, facilitando a tarefa que me obrigava a sair do conforto. 

Foi ao terceiro dia que um sopro me atingiu. Enquanto abria as janelas pela manhã, notei que algo estava diferente. Como quando percebe-se que há um olhar fixado em seus ombros, o peso das retinas causando fogo em sua pele, mesmo que não haja um toque? Quando reparamos que uma caneta caiu ao longo da noite, girando pela mesa, mesmo que não tenhamos acordado com o barulho? Mas o que meus olhos percebiam era desconforme. Porque os olhares e as canetas, sabemos o que nos causam. Na mesa posta de café dentro da jaula de vidro, notei que haviam xícaras sujas, marcadas por borras de café, ao lado de talheres igualmente sujos manchando o pano que cobria o móvel. Por alguns breves minutos que duraram mais do que de costume, questionei-me se era assim mesmo que estivera por todos esses dias. As formigas teriam adentrado o espaço, provavelmente estariam infestando também a sala. As filas feitas por seu andar desengonçado, trombando umas nas outras, teriam-se feito notar. Ou será que não? Tive um rompante ao pé do estômago, subindo pela garganta. Os dez segundos de ansiedade antes da morte, talvez. Teria alguém adentrado a casa? Meu estômago ardeu e senti uma leve pontada na nuca.

Uma névoa de bom senso atingiu meus sintomas com um sorriso que diz, “você é um pouco ridícula”. Não faria sentido que alguém tivesse arrombado a porta ou a janela para tomar café naquele espaço. Na cozinha, nenhum vestígio. Nem a chaleira estava usada, nem a quantidade de pó no pote de café diminuiu de um dia para o outro. Por distração ou negligência inconsciente, deixei a sujeira no espaço enquanto me encaminhei para o quarto na tentativa de encontrar afazeres e dar outro sentido para as criações que tomavam formas cada vez mais reais, agora mediadas pela ansiedade. Estar sozinha em uma casa desse tamanho sem ocupar minha cabeça pode trazer danos irreversíveis, pensei. A cada dia, o medo da irreversibilidade. Talvez porque haja o grão da desconfiança do que meus próprios olhos percebem. Limpei o banheiro e os quartos próximos à sala, esfregava cada canto como se fossem partes de meu cérebro. E adormeci exausta antes da meia-noite.

A penumbra do corredor acostumou-se à minha visão. As formas dos casacos pendurados no corredor e das camas nos quartos de hóspedes provocavam oscilações e um jogo de luz e sombra que aos poucos me acalmaram. Mas assim como sentimos os olhares parados em nós, senti a presença de alguém caminhando naquele carpete. Segurava a maçaneta e não recordava o momento em que acordei, mas encarava fixamente os quartos, como se a falta de meu olhar fosse o culpado por estabelecer a presença do que quer que fosse no ambiente. Era eu a espectadora em um periscópio onde os reflexos, outrora consumidos por um cansaço perturbador, se detinham em cercar outra figura aparentemente humana, sem qualquer decência. Ouvi passos no quarto de hóspedes da direita. Encarei-o e vi uma sombra movendo-se tranquilamente, com uma toalha em mãos enquanto secava o pescoço. A silhueta de um homem alto, corpulento, aparentemente com pouco cabelo. Parecia profundamente animalesco e, ao mesmo tempo, profundamente humano. Não se importava com a luz que entrava pela porta aberta da sala e revestia o corredor. Minha presença não era percebida ou, pelo menos, não era relevante.

Acordei com um barulho no quarto ao lado da sala. Era Íris. Em uma conversa ofegante, ela confessou que precisou voltar mais cedo para casa. Mas ali não morava ninguém. Sua voz cadenciada era a mesma de uma tia-avó morta de minha mãe. O quarto com os incensos e as ervas, ao lado daquele onde havia deixado minhas malas, combinava com sua personalidade.

Enquanto os primeiros dias estabeleceram uma morosidade invejável, ao sentirem-se confortáveis, os hóspedes começaram a utilizar todos os utensílios, toalhas, mesas e poltronas. Em algum momento, ainda questionei meu espírito, que não era o mesmo nos últimos tempos. E parecia provável que a jarra fosse utilizada por mim. Que, sentada à poltrona desconfortável perto da janela para ler, havia esquecido de fechar a janela e organizar as almofadas, levando minha apatia miserável para outras tarefas que não me deixavam enxergar nitidamente as ações de minha autoria. Mesmo a quantidade de toalhas sujas que acumulavam-se no varal, configuravam-se enquanto fruto do esquecimento e da repetição. Lembrei de um conto que havia lido há muitos anos, onde uma mulher possui duas personalidades que não se recordam uma da outra, coabitando seu organismo e engendrando acontecimentos cada vez mais espantosos. Será que era possível em tão pouco tempo perder-se tanto de si mesma? Ou será que eu já era alguém em quem se deve depositar confiança e aquela casa apenas trouxe à tona? Eram questões que me distraíam enquanto eu limpava pela terceira vez em dois dias os azulejos portugueses do banheiro. Esfregava-os como quem esfrega de si mesmo uma sujeira canalizada por dias a fio. Mesmo que eles estivessem lustrosos.

Inventei tantos afazeres que me perdi. Pela casa, acumulavam-se fios de cabelos embolados, minha pele descascava de uma coceira permanente e minhas unhas quebravam-se ao menor sinal de contato. Caminhando do quintal para a cozinha, pretendia tomar banho no banheiro minúsculo atrás da sala e da caixa de vidro. Desde o dia dos grãos de açúcar derrubados na toalha de mesa, não retomara a coragem para encarar novamente o espaço. Com um impulso, detive meu olhar novamente. Dessa vez, para meu espanto, havia uma calcinha vermelha jogada no chão embaixo do chuveiro, entre uma das cadeiras e da mesa. Sua cor escarlate com certeza teria-se feito notar. Ou será que não? Havia ali um espetáculo taciturno ocorrendo enquanto eu dormia, encenado por invasores que sentiam apenas um desejo peculiar de observarem e sentirem-se observados através do cativeiro? Se fosse esse caso, já que não me atingiam, não deveria ser uma grande preocupação. E foi quando dei de ombros, afastando-me, que os ouvi.

Eram rugidos de leões. Coléricos, procurando sua próxima presa. Não eram os gemidos iniciais, mas o momento entre seu ápice e seu grunhido final, várias e várias vezes. Muitos, organizando-se em alcateia, competiam entre si para ver quem aprisionaria primeiro em sua boca a caça. O som seguia o corredor, atrás da porta, ao final do revestimento de carpete bege. Incomodavam os tímpanos, passando pelos ossos de meu corpo e afetando meus joelhos. Íris abriu a porta do quarto, olhou-me com um suspiro breve, “são os hóspedes, às vezes aparecem de madrugada e fazem esse barulho.” Sua explicação, tão lúcida quanto objetiva, assustou-me mais do que se estivesse aos gritos. Já era início de noite e todas as luzes continuavam apagadas, a iluminação vinha de frestas tomadas pela luz da lua. Os rugidos continuavam, sem aproximar-se, cada vez mais altos. Aflorou em meu peito uma urgência de escapar do número 32, nunca mais voltar a ver aquele corredor, aquele espelho, aquela imitação de aquário. E em minha mente, a história conformou-se da seguinte maneira: os tais homens, invasores da casa, não respeitavam os limites dos verdadeiros hóspedes. Não questionei-me se haveriam respeitado caso fossem homens a ocupar os quartos que naquele momento eu e Íris ocupávamos. Mas era certo que além de sujarem os utensílios, as toalhas, as poltronas e as mesas, ainda traziam espetáculos, como artistas de circos itinerantes, com moças presas em uma cela de vidro, que banhavam-se enquanto servia-lhes café e tirava a calcinha vermelha de renda. A identidade das moças teria ocupado-me se não fosse pela necessidade pulsante de ir embora. E se a próxima fosse eu? Ao mesmo tempo que meu coração palpitava em uma velocidade frenética, meus pés prostraram-se firmes no chão, empacados pelo que talvez fosse medo de ser percebida através de movimentos bruscos.

Meus olhos quase marejados de medo acompanharam minha boca seca, que em um esforço disse, “você não acha que temos que ir embora daqui?”. Ela virou sua cabeça acima dos ombros, olhando-me sem dizer palavra alguma, com um sorriso amigável mas nada acolhedor. “Só não podemos entrar no corredor”, foi o que ela respondeu antes de fechar novamente sua porta. Lembrei do que parecia sonho, da toalha envolta no corpo de outrora. Os rugidos ferozes continuavam. Voltei para meu quarto, joguei minhas roupas sem dobrá-las dentro da mochila, coloquei meu sapato e desci as escadinhas que davam passagem entre a sala e a porta dos fundos da casa. Ali, em um espaço onde batia o sol de todas as manhãs, havia um sofá pequeno em frente à uma piscina. Antes de abrir o portão, olhei rapidamente para trás, percebendo um corpo deitado, com os reflexos triangulares da lua cortando-o. Era diferente do que aquele que se secava no quarto de hóspedes. Mas como ele, também não notava minha presença. Não me recordo ao certo como saí do número 32. Às vezes, questiono-me se realmente escapei.


Ana Clara Marques

Ana Clara Marques é professora de História, criada em meio aos livros de sua avó, de seus pais e de seus irmãos. Mora em São Paulo, mas sente falta do silêncio da cidade onde cresceu, distante da capital. A escrita sempre foi, antes de tudo, uma ode à memória dos seus e de algumas várias experiências, reais ou não.

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