uma parte minha
adoraria criar um templo para você
colocaria seu corpo em um altar
e ajoelharia todos os dias ao teu santo nome
se me permitir
crio uma liturgia inteira
ponho na porta um aviso de entrada proibida
deixo que esse espaço seja só nosso
onde eu te faço sagrado
contemplo tua boca,
admiro suas costas
bebo seu líquido imaculado
me torno puro ouvindo palavras profanas
enquanto te faço menos mundano
chegue aos portões do paraíso arquitetados para te receber
quando eu te fizer morrer
criando formas únicas de canonizar você
se te torno divino
me absorva dos meus pecados
e permita que essa minha parte
levante uma catedral inteira
em sua homenagm
queria que conhecesse os movimentos naturais do meu corpo quando te vejo em cena
o palco parece pequeno
você toma toda a dimensão
eu, que medi ponta a ponta
decorei cada centímetro
me vejo duvidar da exatidão
você expande
explode
tímido e pequeno
gigante pra além do que se vê
espasmo imóvel
como quem esconde o que escorre por dentro
o suor, o susto
te olho sem demora
nessa coreografia corporal decorada
por você
por mim também
me falta pressa
mas tenho fome
de querer guardar na memória outra vez
o seu gesto final
pra comer depois
ao fim de cada sessão me pergunto
será que você sente
o leve atraso do meu aplauso
hesitando em me deixar
com as mãos vazias?
estendemos o silêncio sobre nossos corpos nus
impronunciável segredo guardando movimento do desejo pulsante
eternos no agora
com hora marcada para acabar
atenção inquieta
entre a entrega e o externo que ameaça e prenuncia o fim
rejeitamos o nome ao qual nos caberia ser
gemendo no seu quarto
que não somos errados
fôlego sufocado
inertes, deitados
só me resta perguntar
que horas ele volta?
e ir embora
em seguida
com a promessa de tomar cuidado nos arredores
para que ninguém veja
com olhos de denúncia
o que só nós dois
sabemos experimentar
eu te mostrava meus escritos
você não lia
dizia
deixa pra depois
amanhã
quando eu tiver um tempinho
eu leio
você nunca tinha um tempinho
tinha sim
incontáveis segundos
que se confundiam em minutos
horas
para ver os desenhos daquele
que tinha um talento
for
mi
dá
vel
eu sabia usar a palavra formidável em contextos bem diferentes
conjugava verbos corretamente
colecionava adjetivos
pátrios e biformes
e eu sabia que quando você tivesse um espaço no seu dia
e dedicasse a mínima atenção para minha poesia
finalmente entenderia que eu também podia ser
fan
tás
ti
co
aos poucos fui entendendo o significado de
so
li
tá
rio
palavra que nunca ouvi da sua boca
claro
pra ele
só podia ser dito tudo de melhor
então fiquei com as letras fortes e tristes
essas das quais você não descobriu como pronunciar
porque
não conseguiu encaixar um
tem
pi
nho
pros meus
ver
si
nhos
esses dos quais
hoje você implora
pra se ver representado
mas que agora só cabem mágoa e sujeira
talvez seja melhor procurá-lo de volta
quem sabe ainda faça alguns rabiscos melhores que prosas rasgadas
um pouco mais
bo
ni
ti
nhos

Lucas de Melo é carioca, tem 22 anos e é escritor independente, além de graduando em Produção Cultural pelo IFRJ. Autor dos livros Esquina, Três Pratos Depois e Tudo que fizemos de amor, publicados pela Amazon, também integra diversas antologias poéticas.

