LUCAS DE MELO – 4 poemas
LUCAS DE MELO – 4 poemas

LUCAS DE MELO – 4 poemas

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uma parte minha

adoraria criar um templo para você

colocaria seu corpo em um altar

e ajoelharia todos os dias ao teu santo nome

 

se me permitir

crio uma liturgia inteira

ponho na porta um aviso de entrada proibida

deixo que esse espaço seja só nosso

onde eu te faço sagrado

 

contemplo tua boca,

admiro suas costas

bebo seu líquido imaculado

me torno puro ouvindo palavras profanas

enquanto te faço menos mundano

 

chegue aos portões do paraíso arquitetados para te receber

quando eu te fizer morrer

criando formas únicas de canonizar você

 

se te torno divino

me absorva dos meus pecados

e permita que essa minha parte

levante uma catedral inteira

em sua homenagm

 

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queria que conhecesse os movimentos naturais do meu corpo quando te vejo em cena

 

o palco parece pequeno

você toma toda a dimensão

eu, que medi ponta a ponta

decorei cada centímetro

me vejo duvidar da exatidão

 

você expande

explode

tímido e pequeno

gigante pra além do que se vê

 

espasmo imóvel

como quem esconde o que escorre por dentro

o suor, o susto

 

te olho sem demora

nessa coreografia corporal decorada

por você

por mim também

 

me falta pressa

mas tenho fome

de querer guardar na memória outra vez

o seu gesto final

pra comer depois

 

ao fim de cada sessão me pergunto

será que você sente

o leve atraso do meu aplauso

hesitando em me deixar

com as mãos vazias?

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estendemos o silêncio sobre nossos corpos nus

impronunciável segredo guardando movimento do desejo pulsante

 

eternos no agora

com hora marcada para acabar

atenção inquieta

entre a entrega e o externo que ameaça e prenuncia o fim

 

rejeitamos o nome ao qual nos caberia ser

gemendo no seu quarto

que não somos errados

 

fôlego sufocado

inertes, deitados

só me resta perguntar

que horas ele volta?

 

e ir embora

em seguida

com a promessa de tomar cuidado nos arredores

para que ninguém veja

com olhos de denúncia

o que só nós dois

sabemos experimentar

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eu te mostrava meus escritos

você não lia

dizia

deixa pra depois

amanhã

quando eu tiver um tempinho

eu leio

 

você nunca tinha um tempinho

tinha sim

incontáveis segundos

que se confundiam em minutos

horas

para ver os desenhos daquele

que tinha um talento

 

for

mi

vel

 

eu sabia usar a palavra formidável em contextos bem diferentes

conjugava verbos corretamente

colecionava adjetivos

pátrios e biformes

 

e eu sabia que quando você tivesse um espaço no seu dia

e dedicasse a mínima atenção para minha poesia

finalmente entenderia que eu também podia ser

 

fan

tás

ti

co

 

aos poucos fui entendendo o significado de

 

so

li

rio

 

palavra que nunca ouvi da sua boca

claro

pra ele

só podia ser dito tudo de melhor

 

então fiquei com as letras fortes e tristes

essas das quais você não descobriu como pronunciar

porque

não conseguiu encaixar um

 

tem

pi

nho

 

pros meus

 

ver

si

nhos

 

esses dos quais

hoje você implora

pra se ver representado

mas que agora só cabem mágoa e sujeira

 

talvez seja melhor procurá-lo de volta

quem sabe ainda faça alguns rabiscos melhores que prosas rasgadas

um pouco mais

 

bo

ni

ti

nhos

Lucas de Melo

Lucas de Melo é carioca, tem 22 anos e é escritor independente, além de graduando em Produção Cultural pelo IFRJ. Autor dos livros Esquina, Três Pratos Depois e Tudo que fizemos de amor, publicados pela Amazon, também integra diversas antologias poéticas.

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