A seguir, apresentamos quatro poemas de Apoteose & Dor Urbana, novo livro do poeta Naaman Blanco, lançado pela Editora Minimalismo em 2026. Vem conferir!
O GALO
para o poeta Ferreira Gullar
sob nuvens carregadas
galinhas se alimentam
da lavagem doméstica
arroz velho
casca de abóbora
sacola
de plástico azul
o garnisé as escolta
nobre cavalheiro que é
os pingos caem
e num grito
o galo anuncia
a chuva
(Gullar vive
no canto rubro
dum galináceo)
A GALINHA
I.
o sangue da ave pendurada
goteja do pescoço aberto
para o deleite de seus pares
os vivos
se alimentam
da morte
e a vida escorre
enquanto o que vive morre
II.
longe dali
o cacarejar histérico
é um prenúncio:
bico, unhas e horror
de nada valem
se o cão é mais forte
e com suas três cabeças
de morte
fareja, encara e abate
a estúpida da galinha
que presa entre as presas
no chão
não faz senão sucumbir
morrer
desistir
impotente pela manhã
para tornar-se um poema à noite
III.
eis pois a vida
em seu gotejar fremente
que inventa o homem
o poeta, a galinha
e a sede de gozar
lutar
(r)existir
NOVEMBRO
para o meu irmão Matheus Ribeiro
I.
o engenho da morte fulgura
mas o flamboyant
sem sabê-lo
expele sua cor de urucum
como se pronto
(para nada)
II.
a árvore resiste!
colore de anato o asfalto
onde o homem
(indiferente e com pressa)
há de pisá-la sem vê-la:
a fúnebre coroa
de flores caídas
a decorar o Dia dos Mortos
III.
como pode um só mês
nos levar tantas coisas?
que diabo perverso
e a que sinal
configura a máquina da morte
para trabalhar
em potência máxima?
quantos pecados os homens
que só morrem de câncer
em novembro
ainda terão de remir?
ah, nós nos questionamos
irmão
mas sem resposta
ficaremos
jamais saberemos
como Novembro
esse deus tirano
e imoral
trabalha
tampouco e sobretudo
por que o flamboyant
em sua cor
de sangue indígena
parece tão alheio
e imune
às maquinações da morte
DÚVIDA
encaro o papel à espera
de que palavras azuis se mostrem
mas como falar do céu
se sob ele há gente com fome
e sem um pingo de amor nos olhos
morrendo (no Sudão e em Gaza)
aos montes e todo dia?
como falar de flores
se (em Kiev) mata-se o broto
a míssil, concreto e fogo
antes mesmo que verde nasça?
como falar de amor e sorrisos
se (no Brasil) há crianças
que aos sete se prostituem
e aos treze já constituem
monturos de sofrimento?
e como falar das aves
seus voos, paixões e cores
se tudo isso nos lembra o grito
e o mais puro ressentimento?
como dizer qualquer coisa
sem sentir raiva, tristeza e medo?
como deixar tudo de lado
e escrever (calado)
um mundo de conto de fadas?
como não ser cego
e ainda assim escrever bobagem?
como ainda escrever?!
por que não lutar?
por que não morrer?
por que não dizer o óbvio?
ou então se calar de todo?
por que não fazermos juntos
o Dia da Ira dos fracos
e acabar com tudo aos berros
aos beijos
e aos sonhos?

Naaman Blanco (2000) é poeta, escritor e artista visual. É autor dos livros As Nuvens de Netuno (Toma Aí Um Poema, 2024) e Apoteose & Dor Urbana (Minimalismos, 2026), ambos de poesia. Colabora em antologias e coletâneas desde 2022 e em 2026 passou a integrar a equipe de poetas do Portal Fazia Poesia e do Coletivo Aspas Duplas.

