Estávamos na sala de aula, numa manhã de 1999, quando Vitor me contou que não comia sementes de frutas. Disse que a semente poderia grudar em algum canto do estômago e germinar ali mesmo. É um lugar quente, úmido, tipo a Floresta Amazônica. Só restaria correr para o hospital, fazer uma cirurgia — e o procedimento não era nada simples. Ele explicou que talvez não fosse possível livrar o corpo de uma semente já enraizada. A planta iria crescer e crescer, entroncar-se, criar galhos cada vez mais fortes, até que nos arrebentasse por dentro.
Levei aquilo comigo pelo resto do dia. Eu sempre engoli os caroços junto com as frutas. Não me importava com isso, embora visse muita gente tomando cuidado. Minha mãe, por exemplo, cospe todas as sementes da laranja e raspa com a faca as bolinhas pretas do mamão antes de meter a fatia na boca. Já eu, até hoje, como a maçã inteira, incluindo o miolo onde ficam as sementes. Dispenso apenas o graveto que vem espetado nela — e às vezes nem ele. Só de pensar que eu podia estar cultivando uma muda dentro de mim, comecei a sentir um desarranjo na barriga. De repente, me parecia inchada, dolorida. Pronto, era árvore crescendo!
No dia seguinte, contei para o Vitor que eu era dessas pessoas que come frutas com as sementes e tudo. Meu amigo me olhou sério. Qualquer outro moleque aproveitaria para tirar sarro da situação, mas não Vitor. Ele realmente acreditava que algo errado pudesse acontecer, e tentou me tranquilizar. “Vai ver não é nada”. Continuei preocupado. Vitor coçou a cabeça, como sempre fazia quando tentava encontrar uma resposta científica dentro dela. “Deixa eu ver então”, quis me examinar. Fiquei constrangido com o pedido. “Vai, deixa”, continuou ele. Não precisou insistir muito para que eu cedesse. Levantei o uniforme impecavelmente lavado pela minha mãe. Vitor deixou o olhar escorregar lentamente do meu peito até o umbigo, antes de pousar a mão sobre minha barriga.
Hoje acho engraçado pensar que, mesmo se uma árvore quisesse brotar em mim, Vitor jamais poderia confirmar a suspeita apenas com o seu toque. Mas naquele tempo, fazia sentido. Tudo fazia. Ele quis me examinar, e assim eu permiti. E ele o fez com uma seriedade médica. Até aquele dia, ninguém jamais havia me tocado com tamanha atenção e cautela. No máximo meus pais, quando carinhosos ou preocupados com algo que eu pudesse estar sentindo, ou o pediatra nas consultas de sempre. Nunca alguém da minha idade, tão parecido comigo, tão próximo. Pude sentir a respiração de Vitor durante alguns segundos, e de certa maneira aquilo me comoveu.
“Relaxa, não deve ser semente de nada não”, concluiu o meu amigo erguendo novamente o olhar. Mas eu ainda não estava convencido. Deixei a vergonha de lado e perguntei à professora se uma árvore poderia crescer dentro de mim. Ela abriu um sorriso de quem estava diante da ingenuidade de uma criança prestes a adolescer. Disse que não, me fez um carinho no queixo e pediu que eu me sentasse. Foi só então que consegui esquecer o assunto.
Vitor era cheio dessas teorias meio doidas. Falava sério até em meio às bobagens mais absurdas. Bobagens variadas, ditas com eloquência, que se transformavam em devaneios divertidos entre nós dois e nos faziam querer continuar conversando. Outra vez me disse que o Sol iria explodir. Que um dia acordaríamos e não haveria mais luz alguma. Ficaríamos no escuro até morrermos todos. É verdade que o Sol não vai durar pela eternidade. Nada que existe é eterno, ainda que não tenha vida. Mas o seu colapso só vai acontecer daqui a alguns bilhões de anos. Provavelmente a humanidade já não estará mais aqui para presenciar isso. Naquela época, entretanto, parecia que qualquer coisa podia acontecer a qualquer momento. Tudo me assustava. Passei a ficar preocupado quando o dia amanhecia chuvoso e o céu se demorava no escuro. Ia logo falar com Vitor sobre o Sol. “Será que vai acontecer hoje?”, a gente imaginava, juntos. Mas o Sol sempre voltava. E voltou especialmente cruel num dia de aula de Educação Física, como se fosse de propósito, para me castigar. Logo eu, que já tinha preguiça com os esportes mesmo na brisa fresca. O treinador propôs uma sessão de relaxamento após um jogo de basquete. Tocou um CD para nos ambientar, e até hoje eu me lembro qual era: Djavan. Vitor veio pingando de suor e deitou-se no chão, ao meu lado, sem que eu o chamasse. Os dois de barriga para cima, olhando para o teto do ginásio, tão alheios às verdades da vida. Comentei que estávamos fedidos. Meu amigo gargalhou mesmo ofegante. Já era perto do meio-dia. O cheiro daquele chão sujo parecia subir e se misturar ao suor do meu corpo. Mas eu não sabia se aquela quentura toda vinha mesmo da minha pele, da estufa que havia se tornado aquela quadra, ou da presença quase ombro-a-ombro de Vitor. Virei o pescoço e olhei para ele, que agora estava de olhos fechados, levando aquela meditação bem mais a sério do que eu. Vitor usava uma correntinha com pingente, grudada sobre sua regata ensopada. O pingente brilhava, e acho que era só para mim, no ângulo da minha visão. Me dei conta de que tínhamos a mesma cor de pele quando levantei um pouco a cabeça e vi nossos braços estendidos e as mãos tão vizinhas uma da outra. Talvez os mindinhos se encostassem discretamente no chão daquela quadra, e deixei que estivessem assim. Vitor sussurrava o Djavan. Seus lábios indicavam que ele sabia toda a letra.
Teus sinais me confundem da cabeça aos pés,
mas por dentro eu te devoro.
Sorri e voltei a encarar o teto do ginásio. Assim como o meu amigo, tentei me concentrar. A luz que invadia as enormes e altas janelas vencia as minhas pálpebras de tal maneira que, mesmo de olhos fechados, eu não experimentava a escuridão, tampouco a solidão. Não queria que o Sol explodisse tão cedo. Vitor estava certo. De nada adiantava ele tentar me tranquilizar. Talvez houvesse mesmo alguma coisa crescendo em mim. Não apenas uma, mas várias surgidas no canto do estômago, como ele havia dito. Não vinham das sementes que eu engolia com as frutas, mas eram tão inconvenientes quanto. Jamais me arrebentariam por dentro. Me arrebataram. Eram borboletas.

Renan Mariano, 38 anos, carioca é engenheiro de formação. Escreve desde os 20 anos, quando mantinha um blog de crônicas cotidianas, hoje transformado em uma página no Instagram onde compartilha também contos, poesia e reflexões. Pela escrita busca capturar o extraordinário escondido nas coisas mais triviais. Acredita que as emoções, por si só, já são a narrativa.

![RENAN MARIANO – Uma árvore dentro de mim [crônica]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/08/IMG_2814.jpeg)